quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O Circo de Petrópolis: Um Jogo Memorável

"Era tanta palhaçada que para virar circo só faltava a lona"

A infância e a juventude são tempos de lembranças, melhores no primeiro caso, nem tanto no segundo. Dos tempos da juventude, guardo com carinho as peladas nas praças Tamandaré e Ararigbóia, quando formava uma dupla de zaga com meu irmão Tadeu. Era uma dupla à antiga, um na caça e outro na espera. Eu, mais velho, porém mais baixo e mais limitado tecnicamente, era o zagueiro da espera. O Tadeu, com mais imposição física, saia à caça e era implacável. E assim conquistamos uma relativa fama na várzes petropolitana como os irmãos Diabo. No meu caso, a designação era totalmente injusta, pois em comparação ao Tadeu, era uma moça para jogar. Mas ficou a fama e ainda hoje encontro companheiros daquele período que me tratam por Diabo, eles que em algum confronto foram vítimas das botinadas mais de um do que de outro.

Convém esclarecer que, afora a vitalidade, éramos não mais do que esforçados boleiros do Tupy ( com y para ficar charmoso) e dos times que representavam as praças municipais nos aguerridos campeonatos promovidos pela prefeitura. Certa vez enfrentamos o Rolinho do Internacional, espécie de aspirantes do time infantil (a nomenclatura era essa, na época), no campo do Ararigbóia. O técnico colorado era o grande descobridor de talentos Jofre Funchal. Apesar disso e da superioridade técnica do adversário, vencemos por 2 x 1 e, se não me engano, foi de virada. Já sem idade para disputar a categoria, aos 16 ou 17 anos, eu era o presidente do Tupy e naquela memorável tarde de sábado tomei o maior porre da minha vida, uma mistura de cachaça, conhaque e vermute. Não satisfeito, desafiei dois brigadianos, chamando-os de “Pé de Porco”. Na época, era o pior dos desacatos - e olha que sou filho de brigadiano. Só fui salvo da detenção graças a intervenção do Luciano, nosso treinador, que segurou os PMs com uma frase:

- Vocês sabem com quem estão falando?

Diante do questionamento, os brigadianos estacaram e o Luciano emendou, enfático:

- Com o presidente do Grêmio Esportivo Tupy.

A intervenção foi suficiente para permitir que fugisse para casa onde vomitei até os doces da minha primeira comunhão.

Anos depois, já repórter esportivo, relembrei o episódio com o velho Jofre que não apenas recordava do jogo, como acrescentou que ficara encantado com o desempenho de um vigoroso zagueiro do adversário, chegando a cogitar de levá-lo para testes no Inter. O perfil se encaixava justamente no Tadeu e eu fiquei imaginando meu irmão fazendo dupla com o Figueroa no grande Inter da década de 70. Mas nada disso aconteceu. O Tadeu trocou a caça aos adversários pelos meandros da justiça, tornando-se um bem sucedido advogado. Perdeu o Inter? Ganharam os clientes? Como saber? O que sei é que aquele foi o jogo da minha vida, tanto assim que, passados mais de 40 anos, ficou guardado na memória. E poderia ter sido o jogo da vida do Tadeu que, além de tudo, é colorado.
(continua)