terça-feira, 25 de maio de 2010

A formatura

Minha santa mãe, a dona Thélia, jamais me perdoou por não ter sido convidada para a minha formatura no Jornalismo da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação, a Fabico da UFRGS. Acho que foi lá pelo ano de 1977, quando retornei ao curso para conseguir me graduar, depois de três anos afastado. À época trabalhava na Rádio Guaíba, já estava casado, passava férias em Florianópolis e precisei vir a Porto Alegre apenas para a formatura. A viagem foi em grande estilo, de avião, pela falecida Vasp, eu e minhas sandálias franciscanas, uma calça jeans surrada e camiseta.

E foi assim que me apresentei para a formatura numa das salas da Fabico, no final da manhã. Aqui cabe explicar que a turma da faculdade era um tanto alternativa, para não dizer anárquica, naqueles idos dos anos 70 do século passado. Eram uns 30 formandos, grande parte deles já veteranos, só esperando receber o canudo para regularizar a situação profissional. Mas ninguém escaparia ao ritual exigido para as formaturas, mesmo que de forma discreta e em sala de aula. Pelo que lembro, apenas uma colega teve a coragem de convidar a família para a cerimônia.

Os coitados dos familiares ficaram chocados com a algazarra que a turma fazia a cada nome chamado para o juramento profissional. Ao final, o professor Guerreiro, diretor da faculdade e condutor da cerimônia, fez uma fala breve e cumpridora. Em seguida tratou de encerrar o ato, porque um dos gaiatos formandos ameaçava com um discurso e homem não queria correr riscos de ouvir mais bobagens ou alguma critica ao regime ditatorial que vigorava no Brasil de então.

Depois da formatura, aproveitei para filar o almoço na casa da dona Thélia. Foi quando ela teve o choque:

- Veio para a formatura? Que formatura? E por que eu não fui convidada? Menino, isso não se faz com uma mãe!

Dona Thélia sempre prezou que os filhos cursassem a universidade e a formatura era o ápice desse orgulho materno. Acho que eu era o primeiro filho a se formar, não em arquitetura como ela gostaria, porém em Jornalismo que ela apenas tolerava, mas isso pouco importava diante da insensibilidade de não convidá-la para a cerimônia. Era muita desfeita para uma mãe zelosa com o futuro dos seus rebentos. Dona Thélia era uma figura, calabresa na origem por parte de mãe e, até por isso, não media as palavras quando era desfeitada.

- Olha o que este menino me aprontou. Não me convidou para a formatura, eu que sonhei com isso toda a vida.

Estava me sentindo o pior dos filhos e não adiantava explicar a simplicidade da cerimônia ou que eu não dava tanto valor ao ato.

- Pra ti pode não ter valor, mas pra tua mãe era muito importante. Agora o que eu vou dizer para as tuas tias e as amigas da Igreja?

Essa era a chave para compreender o tamanho da frustração da dona Thèlia, que mantinha uma disputa velada com suas irmãs e as amigas devotas, comparando quem tinha mais filhos na universidade. Que curso sem valor era esse que o filho tinha vergonha de levar a mãe para a formatura? Dona Thélia perdia pontos preciosos na competição e isso eu só avaliei durante o sermão naquele indigesto almoço. (Ela dava tanto valor as formaturas que, anos antes, no colégio Rosário pediu ao Irmão José Otão, então reitor da PUC, para que me entregasse o diploma de conclusão do curso ginasial. O bondoso irmão concordou e lá fui eu, todo pimpão, de fatiota, receber o canudo da mais alta autoridade da mesa)

Deve ter sido praga de mãe, e praga poderosa, as torturas a que tenho sido submetido, desde então, em formaturas. Já vi de tudo: formatura com dois paraninfos, vale dizer dois longos discursos, dancinhas no palco, cultos ecumênicos, discursos inflamados, brincadeiras de mau gosto, cornetas e apitos a mil, estapafúrdias seleções musicais dos formandos e muito mais, consumindo pra lá de três horas. Padeci com dois ou três discursos da ex-reitoria da Ufrgs, Wrana Panizzi, que adorava uma formatura e nunca falava menos de 45 minutos. Suportei, certa vez, um paraninfo que relatou o histórico e a evolução da Contabilidade através do tempo. O pessoal batia palmas cada vez que ele trocava de folha, mas o sujeito continuava impávido. Em outra circunstância, o diretor da faculdade esqueceu o barrete na Ulbra, em Canoas, atrasando a cerimônia em uma hora, tempo em que fomos brindados com um concerto de música bate-estaca a todo o volume.

A partir dessas experiências, cunhei o termo "formatortura" para expressar meu desagrado com as longas e chatas cerimônias, o que a Reitoria da UFRGS, em boa hora, quer disciplinar, racionalizar e simplificar. Dou força, mas sei que não vai ser fácil. A formatura é rito de passagem, mesmo que seja para uma carreira profissional incerta. Para os pais, representa o resultado final de um investimento, mais do que financeiro, na geração futura. E existe toda uma lucrativa indústria em torno das formaturas, faturando em cima desse momento, de grande apelo emocional porque pode ser único na vida das famílias.

Devo confessar que também fiz minhas macaquices e curti muito as formaturas dos meus filhos mais velhos – Rafael em Educação Física e Flávia em Psicologia. Nas duas cerimônias, foi inevitável a lembrança da mágoa e da frustração da dona Thélia por não ter participado da minha formatura. Ali estava eu, feliz da vida com o sucesso dos meus filhos, mas carregava a culpa de não ter permitido que a dona Thélia realizasse o sonho de ver seu filhinho formado, mesmo que fosse em Jornalismo. Deu nó na garganta. Mãe, como eu gostaria de poder voltar no tempo e reparar aquele equívoco da juventude. (Entendeu Mariana?)

* Mariana, meu nenê, vai se formar este ano em Relações Públicas na mesma Fabico. Aí mora o perigo.

sábado, 15 de maio de 2010

O Circo de Petrópolis: o dia em que o Tupy humilhou o Inter



Em 29/10/66, naPraça Tamandaré, mais uma vitória do Tupi sobre o Ararigbóia - 1 x 0. O glorioso time do Tupy: de pé: Fininho, Renato (“cartolas”), Oscar, Flávio, Felipe, Piero, China, Luciano (técnico);Agachados: Geada, Calão, Julinho (mascote), Zé do Burro, Alfredinho, Beto. Detalhe: o time formou com apenas 10 jogadores !?

Já contei aqui alguns episódios esportivos vividos pela turma de Petrópolis na adolescência. Sábados à tarde ou domingos pela manhã e à tarde, ou ainda nos três horários em seqüência porque éramos imortais à época, dedicávamos ao futebol pelo Tupy ou pelo Bagé. A várzea de então era um manancial de times, cada bairro tinha cinco ou seis, rivalizando entre si.

Nosso campo era a praça Tamandaré, entre as ruas Caçapava e a Taquara. O principal rival do Tupy era o pessoal do Ararigbóia, que ficava do outro lado da Protásio Alves e tinha a liderança do Cláudio Furtado, de tradicional família de políticos e gente da comunicação. Pelo Bagé, de azul e branco, a rivalidade era contra o Concórdia, que tinha vermelho na camiseta (algo a ver com a rivalidade grenal?) e que disputava seus jogos num campo após o valão da rua Lavras, onde hoje é a avenida Nilópolis.

Já o pessoal do Ararigbóia era constituído de uma gurizada de boa formação, educada, “bundinhas” como nós desdenhávamos, em contraste com a turma da Tamandaré, um bando de briguentos e arruaceiros, no limite da marginalidade, com exceções, entre as quais me incluo. Jogo entre os times das duas praças era um clássico, cheio de provocações, lances ríspidos, torcidas incentivando a violência e muito trabalho para o coitado do sujeito que se aventurasse a apitar aquela verdadeira guerra. Entretanto, sobrevivemos todos, apesar de alguns jogos terem descambado para a pancadaria, dentro e fora do campo, durante e depois dos jogos.

Pelo campeonato municipal infantil, promovido pela prefeitura, com o Tupy ou representando a Tamandaré, jogávamos em outras praças, diante de adversários bem mais hostis que o Ararigbóia. Ou mais qualificados, como o time do Internacional, treinado pelo grande descobridor de talentos Jofre Funchal. Um dos enfrentamentos ocorreu em novembro de 1967 no campo do Parque 1º de Maio, no IAPI. Foi um jogo duríssimo, que terminou empatado em 1 x 1 no tempo normal, com vitória colorada nos pênaltis, por 5 x 4.

A partida valia uma vaga para a fase seguinte e o Tupy acabou desclassificado. Mas empatar contra o Inter era uma façanha que mereceu muitas comemorações da grande e ruidosa torcida que levamos ao IAPI.

Na época a gurizada do Tupy fazia uma coleta entre todos os simpatizantes e alugávamos um microônibus da Transportes Sentinela para conduzir a delegação e parte da torcida, aí incluída uma banda e seus instrumentos de percussão. E assim chegávamos cheios de bossa, altivos e motivados, nos campos adversários, diferente de tempos atrás quando os deslocamentos eram feitos num caminhão de transporte de adubos (relato já contado aqui).

Pois ocorre que após o embate contra o Inter, de volta para Petrópolis, encontramos seu Jofre, humildemente cuidando do saco do uniforme, e mais alguns jogadores colorados à espera do ônibus numa parada do IAPI.

- Para, para, para o ônibus que nós vamos dar uma carona para esses maloqueiros do Inter, alguém gritou.

O microônibus já estava lotado de jogadores e torcedores, a batucada e as bebidas corriam soltas, mesmo assim abrimos espaço para os caronas, que entraram sestrosos. Era a hora da desforra. Logo começaram as provocações:

- Agora vocês vão levar um pau, ouviu-se lá do fundo.
- Vocês não vão sair vivos desta, ameaçou outro.
- Ganharam no jogo, mas vão perder na briga, prometeu mais alguém.

Seu Jofre sorria amarelo e os guris colorados arregalavam os olhos, assustados, cada vez que um dos nossos gritava alguma coisa ou ameaçava partir para a agressão. Na verdade, tudo não passou de uma brincadeira agressiva, de muitas ameaças e nenhuma ação. E a delegação colorada foi levada até seu destino sem maiores percalços. Estávamos por demais eufóricos com o resultado para provocar confusões. A carona, com toques de humilhação ao grande Inter, era a melhor revanche para os brancaleones de Petrópolis.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O Circo de Petrópolis: um gol para a história

Na várzea de antigamente era comum se formarem times de veteranos, reunindo os trintões e quarentões, gente relativamente em forma, mas que não agüentava o tranco contra a gurizada do primeiro quadro ou dos aspirantes. As manhãs de domingo ficavam reservadas aos jogos dos veteranos diante de similares de outras equipes e havia muitas para intercambiar. A vantagem é que depois dos duros embates a turma master podia encher a cara de cerveja e traçar um churrasco de carne gorda, sem outros compromissos a não ser dar explicações à patroa em casa.

Também não havia muita preocupação com a forma física e os veteranos, com a dieta de cerveja e costela gorda, exibiam abdomens cada vez mais arredondados. Mesmo assim não lembro de lesões graves em qualquer dos jogos a que assisti e foram muitos no campo da Praça Tamandaré.

Lá pelo final dos anos 60 resolvemos montar um time de veteranos no Tupy. A idéia continha uma estratégia maliciosa: como não tínhamos dinheiro para renovar nossos fardamentos, imaginávamos que os mais velhos poderiam de alguma forma contribuir generosamente para manter o time da gurizada. Um detalhe é que os nossos “veteranos” estavam na faixa dos 25, no máximo 30 anos, mas todos trabalhavam, alguns ganhavam bem e eram potenciais mecenas.

Marcamos o jogo de estréia dos veteranos para um domingo pela manhã. Disciplinados e motivados, todos chegaram no horário e o que se viu, quando o time entrou em campo na Tamandaré, foi de dar dó. Os veteranos simplesmente não sabiam se posicionar em campo e, tal como em jogo de crianças, corriam todos atrás da bola. Naquele dia foi criado o esquema 10-1. A simples cobrança de um lateral virava uma ação dramática. Troca de passes, nem pensar. Saída de bola representava perigo de gol. Tentativas de parar os adversários com faltas era tiro pela culatra: nossos atletas é que ficavam prostrados no chão depois de quedas espetaculares, senão risíveis. O goleiro soltava todas as bolas que vinham a gol, pulava antes ou depois de a bola passar, uma trapalhada atrás da outra.

O almirante Tamandaré, que empresta seu honrado e glorioso nome à praça, deve ter se revirado na cova com as cenas patéticas que se desenrolaram no gramado. (Aliás, uma das lendas urbanas da época é que o almirante teria direito a um busto na plataforma de concreto construída na parte mais alta da praça, mas o Tamandaré e seu busto ficaram a ver navios, com o perdão do trocadilho marítimo). O adversário, formado por gente mais nova, não entendia bem o que estava acontecendo, mas começou a empilhar gols aproveitando a fragilidade da nossa defesa, a desarticulação do nosso meio campo e a inoperância do nosso ataque.

O mais difícil era fazer os veteranos reagirem. Havia uma inversão de papéis, porque o time estava sendo comandado fora do campo pelos jovens, enquanto os mais velhos simplesmente não atendiam às ordens e orientações. Foi impossível evitar algumas cenas dignas de comédia pastelão. O Zezinho, meu cunhado e craque perto dos outros, levou um drible, tentou se recuperar e foi driblado de novo. O revide foi uma ameaça:

- Olha aqui, guri, me respeita. Mais um “paninho” desses e eu te parto ao meio, avisou.

O Zezinho era do tipo miúdo, mas como a maioria dos baixinhos, metido a invocado. O guri parece que se assustou com a ameaça e trocou de posição para evitar novos enfrentamentos.

Durante todo o jogo chutamos apenas uma bola a gol. O autor da façanha foi meu irmão mais velho, o Luiz Vicente, que conseguiu bater de direita, de fora da área, sem perigo para o goleiro. A conclusão saiu depois de, pela enésima vez, ele retirar os filhos pequenos, Márcio e Pedro, de dentro do campo – os guris com quatro e cinco anos insistiam em participar do jogo, correndo atrás da bola junto com o bando de veteranos. E a corneta da torcida funcionando a mil à beira do alambrado.

- Estes teus parentes não jogam nada. Tá esperando o que para substituir?

O chute solitário do Luiz Vicente me autorizou a tentar substituí-lo. Era o clamor da torcida e, afinal, ele ia sair em alta, com dignidade. Mas a reação dele me forçou a mudar de idéia.

- Não saio, não. Eu dei grana pro time e não vou sair

Mas o pior estava reservado para o final. Num ataque do adversário, a bola foi alçada para a área, subiu, descreveu uma trajetória em arco e começou a descer. Foi quando o Telmo, outro irmão e teoricamente zagueiro central, berrou para os companheiros:

- Pode deixar, que esta é comigo.

A maldita da pelota caiu exatamente onde estava o beque, na entrada da área, só que bateu na canela dele, quando fazia um movimento de meia puxeta. Com isso, a bola subiu novamente, desviou em direção ao gol numa trajetória caprichosa, encobriu o atarantado goleiro Chico e morreu nas redes. Foi um dos mais belos gols já marcados em toda a história da Praça Tamandaré. Um gol de placa, só que contra...

Ao final da desastrada e única experiência dissolvemos a equipe de veteranos. Não havia futuro para eles, a não ser como um Íbis varzeano. E o time da gurizada continuou sem grana, mas a salvo das gozações e de novos vexames.

(O histórico gol contra do Telmo correu o mundo nos relatos feitos pelo Luiz Vicente às pessoas que visitava nas suas viagens ao exterior. Só que o lance era descrito de forma ligeiramente exagerada e cruel para o infeliz zagueiro, qualificado como um autêntico perna- de- pau – que de fato era, mas, enfim, a gente precisa preservar no estrangeiro a imagem do país e dos conterrâneos, ainda mais em se tratando de um irmão. Ursada internacional do Luiz Vicente.)

terça-feira, 11 de maio de 2010

sábado, 8 de maio de 2010

O Circo de Petrópolis: célula subversiva na casa do Coronel

* Recomenda-se ler postagem anterior de O Circo de Petrópolis

Durante a experiência radiofônica da Rádio Vanguarda, certo dia um amigo da família apareceu com um pequeno transmissor, montado de forma rudimentar sobre uma plataforma de alumínio. Era um equipamento de baixíssima potência, atingindo cerca de 50 a 100 metros. Mas a coisa funcionava, utilizando freqüências no dial selecionadas por algum dispositivo que escapava a nossa compreensão. Tratava-se do bisavô dos atuais equipamentos das rádios piratas, que hoje interferem nas transmissões legalizadas.

O Rogério Morganti, hoje empresário e sempre voluntarioso, candidatou-se a testar o real alcance do aparelho e saiu às ruas, com um rádio portátil colado ao ouvido, enquanto o Telmo,irmão mais velho e conhecido por Alemão, locutava pelo transmissor. Quando imaginou que o Rogério estava na altura da 8ª Delegacia, na Protásio Alves, a quadra e meia da nossa casa, o Telmo começou a berrar na transmissão:

- Ladrão, subversivo! Prendam esse sem-vergonha! Ladrão, subversivo!

Atônito e apavorado, Rogério tratou de voltar apressadamente à base, eis que a Oitava era conhecida pelo seu temível porão, um depósito de ladrões e outros meliantes, além do quê vivíamos em plena ditadura e a pecha de subversivo não era recomendável naqueles anos de chumbo. De volta a casa, esbaforido, olhando para todos os lados para certificar-se que não estava sendo seguido, Rogério desabafou, diante da gargalhada geral da turma

- Pó, Alemão, sacanagem, né. E se os “ratos” ouvissem a transmissão!?

Por via das dúvidas, nunca mais nos aventuramos a usar o transmissor da sacanagem. Mesmo porque o chefe da casa, o mítico Coronel Dastro Dutra (na verdade, tenente-coronel da Brigada, mas ele nunca recusou o tratamento hierárquico superior), era conhecido e respeitado pelos delegados e policiais da DP e não ficaria bem uma “célula subversiva” nas barbas da Oitava, ainda mais na casa de um milico.

Sexo e hipertensão

Olha aí um dos resultados da declaração midiática do ministro Temporão:

terça-feira, 4 de maio de 2010

Nicolelis, pertubador e encantador

Foi perturbadora, para dizer o mínimo, a conferência do médico e cientista Miguel Nicolelis na abertura da edição 2010 do Fronteiras do Pensamento. Perturbadora porque não tinha idéia do alcance do trabalho desenvolvido à frente do Instituto Internacional de Neurociência de Natal-RN, nem maginava o avanço das pesquisas realizadas na Universidade de Duke-EUA e seu potencial de melhorias para a raça humana. A grande mídia parece não se interessar sobre os experimentos e os projetos do dr. Nicolelis.

As experiências com macacos - aos quais Nicolelis se refere amorosamente e não como simples cobaias -, trazem esperança de devolver a mobilidade a portadores de necessidades especiais, por meio das chamadas próteses neurais – equipamentos eletrônicos que podem ser acionados por sinais cerebrais. Igualmente, as pesquisas buscam apontar caminhos para os portadores de doenças degenerativas, como o Mal de Parkinsom - no caso as experiências são com camundongos.

Nicolelis, 49 anos, palmeirense fanático, não se limitou ao relato de cases, mas mostrou macacos e camundongos em ação, durante as experiências, com resultados visíveis. É impressionante o vídeo em que uma de suas macacas preferidas (seria a Aurora?) joga videogame, comandando por estímulos cerebrais um braço mecânico localizado em outra sala. Detalhe importante: a macaca várias vezes tenta trapacear no jogo, como se fosse um humano qualquer. É isso que também me leva a considerar perturbadora a exposição de Nicolelis. Ao assistir aos vídeos a relação obrigatória foi com a obra O Planeta dos Macacos, na qual os símios, de evolução em evolução, acabam dominando a Terra, transformando em escravos os decadentes humanos. Prefiro pensar que as experiências dos neurocientistas vão trazer novas e boas perspectivas para futuro da humanidade. Certamente é isso que move o dr. Nicolelis e suas equipes, nos EUA e aqui.

A conferencia foi também encantadora quando Nicolelis revelou a grande dimensão social do trabalho realizado em Natal, não apenas nos bem aparelhados laboratórios, mas envolvendo crianças e jovens da periferia em uma das áreas mais carentes do país. Um trabalho de iniciação científica e inclusão social de valor incalculável, por meio da Fundação Alberto Santos Dumont que empresta seu apoio a todo o projeto.

A escolha de Santos Dumont para batizar a Fundação não é aleatória. O “Pai da Aviação” é inspiração para Nicolelis. O cientista se emociona quando vincula a obra do brasileiro que tornou realidade o sonho de Ícaro com o trabalho desenvolvido em Natal. Santos Dumont sonhou e foi atrás da realização de seu sonho. E é disso que Nicolelis fala e destaca: de gente que sonha e realiza, que promete e entrega, que projeta e faz acontecer; na crença na energia humana a serviço do bem-comum.

Trata-se de um Paulo Coelho da Ciência, questiona alguém? Devagar com o andor, porque o misticismo passa ao largo das argumentações do pesquisador, seus conteúdos têm sólida base científica e resultados demonstráveis para reforçá-los.

Nicolelis foi aplaudido de pé pelo público que lotou o Salão de Atos da Ufrgs, segunda-feira à noite. Acredito que seja a primeira vez que isso acontece no Fronteiras. O nosso Santos Dumont da neurociência já merece o Prêmio Nobel de Medicina para o qual está sendo cogitado

sábado, 1 de maio de 2010

O Circo de Petrópolis II: Vanguarda, a rádio da Jovem Guarda

*Recomenda-se ler a postagem anterior.

Já na adolescência e mesmo na infância, eu gostava mesmo era de rádio. Tomei gosto pelas transmissões manuseando o potente rádio Philips da família, o principal bem dos Dutra na era pré TV. O aparelho sintonizava as emissoras locais de ondas médias (OM ou AM) e cinco ou seis freqüências de ondas curtas (OC), o que me permitia acompanhar programações de todo o Brasil e do mundo inteiro. (Acreditem ainda não existiam emissoras de FM na época, idos dos anos 60). Para o guri ainda imberbe, aquilo era um entretenimento e tanto.

O rádio Philips foi um dos equipamentos indispensáveis para a montagem do segundo empreendimento em que me envolvi na área da comunicação: a Rádio Vanguarda (“A Rádio da Jovem Guarda, de Petrópolis para o mundo”). O estúdio da emissora funcionava no porão que também era o quarto dos filhos homens na morada dos Dutra na Rua Ivo Corseuil.

O sistema todo consistia em um amplificador Telefunken – sucata do espólio do diretório petropolitano do Partido Democrata Cristão (PDC) extinto pela Revolução de 64 -, ao qual se ligava um toca-discos de três rotações e um microfone antigo. Um cabo de áudio ligava o amplificador aos potentes alto-falantes do radião instalado na garagem, cerca de 10 metros além do “estúdio”. Essa era a nossa rádio.

A programação era errática, naturalmente mal-estruturada, mas suficiente para infernizar a vida da vizinhança nos horários em que a rádio operava. Mas tínhamos ouvintes fiéis, como a dona Gecy, a empregada da família e minha comadre, uma negra volumosa e retinta, que deixava os afazeres domésticos para fazer parte, solitária, do auditório da Vanguarda. As gostosas gargalhadas da dona Gecy serviam de emulação para nós porque davam conta de que o programa estava agradando.

O Telmo, vulgo Alemão, irmão mais velho que tivera uma experiência na precocidade dos 17 anos como locutor na Rádio Jaraguá, de Jaraguá do Sul (SC), bem que deu uma mão para que a brincadeira funcionasse. Com sua voz anasalada não foram poucas as vezes em que ele se entregou ao fascínio daquela experiência, locutando e participando de programas de debates. Outro “comunicador” habitual era o Antonio Luis, amigo dos irmãos mais velhos, que lia artigos da revista Seleções, expondo as idéias como se fossem suas, inclusive uma severa condenação ao tabagismo que ele apresentou com voz grave enquanto fumava seu Hollywood sem filtro.

De alguma forma a Vanguarda foi uma rádio inovadora ao introduzir a figura do comunicador executivo, que apresentava o programa ao mesmo tempo em que operava os equipamentos, duplicidade de funções muito comum hoje em dia. A discoteca era composta de não mais de 10 lps, entre os quais um do talentoso grupo vocal americano The Platters, e outro dos mexicanos do Tijuana Brás, uma orquestra de metais que fazia muito sucesso na época. Havia alguns compactos de MPB e meia dúzia de discos em 78 rotações que obrigavam a rápidas manobras para troca de rotação e, é claro, volta e meia a emissão saia distorcida pelo esquecimento do operador em retornar à posição correta. Pelo que lembro, não havia um disco sequer da Jovem Guarda, para fazer jus ao slogam da rádio, mas isso é detalhe.

O acervo continha ainda um disco de marchas militares americanas, que serviam de abertura para os noticiários, porque rádio que se prezasse tinha que manter seus ouvintes bem informados... com as notícias que copiávamos da Folha da Tarde. Os comerciais eram baseados nos anúncios publicados pela Seleções e um dia alguém apareceu com um disco onde estavam gravados jingles do Sonrisal (“É melhor e não faz mal”), que passaram a ser rodados em todos os intervalos. Era a rádio Vanguarda atingindo sua maioridade operacional.

A Rádio Vanguarda não durou mais de duas temporadas de férias, substituída por outros interesses ditados pela maioridade que nos pressionava. E assim frustrou-se mais uma tentativa de iniciar meu império de comunicação e desisti do sonho de me tornar um empreendedor, um verdadeiro barão da mídia ( afinal, não foi num serviço de alto falantes em Passo Fundo que o Maurício Sirotsky começou?) Ficou a certeza, porém, que meu futuro profissional passaria, mais dia menos dia, pelo apaixonante veículo rádio.

(continua)