quarta-feira, 12 de maio de 2010

O Circo de Petrópolis: um gol para a história

Na várzea de antigamente era comum se formarem times de veteranos, reunindo os trintões e quarentões, gente relativamente em forma, mas que não agüentava o tranco contra a gurizada do primeiro quadro ou dos aspirantes. As manhãs de domingo ficavam reservadas aos jogos dos veteranos diante de similares de outras equipes e havia muitas para intercambiar. A vantagem é que depois dos duros embates a turma master podia encher a cara de cerveja e traçar um churrasco de carne gorda, sem outros compromissos a não ser dar explicações à patroa em casa.

Também não havia muita preocupação com a forma física e os veteranos, com a dieta de cerveja e costela gorda, exibiam abdomens cada vez mais arredondados. Mesmo assim não lembro de lesões graves em qualquer dos jogos a que assisti e foram muitos no campo da Praça Tamandaré.

Lá pelo final dos anos 60 resolvemos montar um time de veteranos no Tupy. A idéia continha uma estratégia maliciosa: como não tínhamos dinheiro para renovar nossos fardamentos, imaginávamos que os mais velhos poderiam de alguma forma contribuir generosamente para manter o time da gurizada. Um detalhe é que os nossos “veteranos” estavam na faixa dos 25, no máximo 30 anos, mas todos trabalhavam, alguns ganhavam bem e eram potenciais mecenas.

Marcamos o jogo de estréia dos veteranos para um domingo pela manhã. Disciplinados e motivados, todos chegaram no horário e o que se viu, quando o time entrou em campo na Tamandaré, foi de dar dó. Os veteranos simplesmente não sabiam se posicionar em campo e, tal como em jogo de crianças, corriam todos atrás da bola. Naquele dia foi criado o esquema 10-1. A simples cobrança de um lateral virava uma ação dramática. Troca de passes, nem pensar. Saída de bola representava perigo de gol. Tentativas de parar os adversários com faltas era tiro pela culatra: nossos atletas é que ficavam prostrados no chão depois de quedas espetaculares, senão risíveis. O goleiro soltava todas as bolas que vinham a gol, pulava antes ou depois de a bola passar, uma trapalhada atrás da outra.

O almirante Tamandaré, que empresta seu honrado e glorioso nome à praça, deve ter se revirado na cova com as cenas patéticas que se desenrolaram no gramado. (Aliás, uma das lendas urbanas da época é que o almirante teria direito a um busto na plataforma de concreto construída na parte mais alta da praça, mas o Tamandaré e seu busto ficaram a ver navios, com o perdão do trocadilho marítimo). O adversário, formado por gente mais nova, não entendia bem o que estava acontecendo, mas começou a empilhar gols aproveitando a fragilidade da nossa defesa, a desarticulação do nosso meio campo e a inoperância do nosso ataque.

O mais difícil era fazer os veteranos reagirem. Havia uma inversão de papéis, porque o time estava sendo comandado fora do campo pelos jovens, enquanto os mais velhos simplesmente não atendiam às ordens e orientações. Foi impossível evitar algumas cenas dignas de comédia pastelão. O Zezinho, meu cunhado e craque perto dos outros, levou um drible, tentou se recuperar e foi driblado de novo. O revide foi uma ameaça:

- Olha aqui, guri, me respeita. Mais um “paninho” desses e eu te parto ao meio, avisou.

O Zezinho era do tipo miúdo, mas como a maioria dos baixinhos, metido a invocado. O guri parece que se assustou com a ameaça e trocou de posição para evitar novos enfrentamentos.

Durante todo o jogo chutamos apenas uma bola a gol. O autor da façanha foi meu irmão mais velho, o Luiz Vicente, que conseguiu bater de direita, de fora da área, sem perigo para o goleiro. A conclusão saiu depois de, pela enésima vez, ele retirar os filhos pequenos, Márcio e Pedro, de dentro do campo – os guris com quatro e cinco anos insistiam em participar do jogo, correndo atrás da bola junto com o bando de veteranos. E a corneta da torcida funcionando a mil à beira do alambrado.

- Estes teus parentes não jogam nada. Tá esperando o que para substituir?

O chute solitário do Luiz Vicente me autorizou a tentar substituí-lo. Era o clamor da torcida e, afinal, ele ia sair em alta, com dignidade. Mas a reação dele me forçou a mudar de idéia.

- Não saio, não. Eu dei grana pro time e não vou sair

Mas o pior estava reservado para o final. Num ataque do adversário, a bola foi alçada para a área, subiu, descreveu uma trajetória em arco e começou a descer. Foi quando o Telmo, outro irmão e teoricamente zagueiro central, berrou para os companheiros:

- Pode deixar, que esta é comigo.

A maldita da pelota caiu exatamente onde estava o beque, na entrada da área, só que bateu na canela dele, quando fazia um movimento de meia puxeta. Com isso, a bola subiu novamente, desviou em direção ao gol numa trajetória caprichosa, encobriu o atarantado goleiro Chico e morreu nas redes. Foi um dos mais belos gols já marcados em toda a história da Praça Tamandaré. Um gol de placa, só que contra...

Ao final da desastrada e única experiência dissolvemos a equipe de veteranos. Não havia futuro para eles, a não ser como um Íbis varzeano. E o time da gurizada continuou sem grana, mas a salvo das gozações e de novos vexames.

(O histórico gol contra do Telmo correu o mundo nos relatos feitos pelo Luiz Vicente às pessoas que visitava nas suas viagens ao exterior. Só que o lance era descrito de forma ligeiramente exagerada e cruel para o infeliz zagueiro, qualificado como um autêntico perna- de- pau – que de fato era, mas, enfim, a gente precisa preservar no estrangeiro a imagem do país e dos conterrâneos, ainda mais em se tratando de um irmão. Ursada internacional do Luiz Vicente.)