sábado, 8 de maio de 2010

O Circo de Petrópolis: célula subversiva na casa do Coronel

* Recomenda-se ler postagem anterior de O Circo de Petrópolis

Durante a experiência radiofônica da Rádio Vanguarda, certo dia um amigo da família apareceu com um pequeno transmissor, montado de forma rudimentar sobre uma plataforma de alumínio. Era um equipamento de baixíssima potência, atingindo cerca de 50 a 100 metros. Mas a coisa funcionava, utilizando freqüências no dial selecionadas por algum dispositivo que escapava a nossa compreensão. Tratava-se do bisavô dos atuais equipamentos das rádios piratas, que hoje interferem nas transmissões legalizadas.

O Rogério Morganti, hoje empresário e sempre voluntarioso, candidatou-se a testar o real alcance do aparelho e saiu às ruas, com um rádio portátil colado ao ouvido, enquanto o Telmo,irmão mais velho e conhecido por Alemão, locutava pelo transmissor. Quando imaginou que o Rogério estava na altura da 8ª Delegacia, na Protásio Alves, a quadra e meia da nossa casa, o Telmo começou a berrar na transmissão:

- Ladrão, subversivo! Prendam esse sem-vergonha! Ladrão, subversivo!

Atônito e apavorado, Rogério tratou de voltar apressadamente à base, eis que a Oitava era conhecida pelo seu temível porão, um depósito de ladrões e outros meliantes, além do quê vivíamos em plena ditadura e a pecha de subversivo não era recomendável naqueles anos de chumbo. De volta a casa, esbaforido, olhando para todos os lados para certificar-se que não estava sendo seguido, Rogério desabafou, diante da gargalhada geral da turma

- Pó, Alemão, sacanagem, né. E se os “ratos” ouvissem a transmissão!?

Por via das dúvidas, nunca mais nos aventuramos a usar o transmissor da sacanagem. Mesmo porque o chefe da casa, o mítico Coronel Dastro Dutra (na verdade, tenente-coronel da Brigada, mas ele nunca recusou o tratamento hierárquico superior), era conhecido e respeitado pelos delegados e policiais da DP e não ficaria bem uma “célula subversiva” nas barbas da Oitava, ainda mais na casa de um milico.