sábado, 1 de maio de 2010

O Circo de Petrópolis II: Vanguarda, a rádio da Jovem Guarda

*Recomenda-se ler a postagem anterior.

Já na adolescência e mesmo na infância, eu gostava mesmo era de rádio. Tomei gosto pelas transmissões manuseando o potente rádio Philips da família, o principal bem dos Dutra na era pré TV. O aparelho sintonizava as emissoras locais de ondas médias (OM ou AM) e cinco ou seis freqüências de ondas curtas (OC), o que me permitia acompanhar programações de todo o Brasil e do mundo inteiro. (Acreditem ainda não existiam emissoras de FM na época, idos dos anos 60). Para o guri ainda imberbe, aquilo era um entretenimento e tanto.

O rádio Philips foi um dos equipamentos indispensáveis para a montagem do segundo empreendimento em que me envolvi na área da comunicação: a Rádio Vanguarda (“A Rádio da Jovem Guarda, de Petrópolis para o mundo”). O estúdio da emissora funcionava no porão que também era o quarto dos filhos homens na morada dos Dutra na Rua Ivo Corseuil.

O sistema todo consistia em um amplificador Telefunken – sucata do espólio do diretório petropolitano do Partido Democrata Cristão (PDC) extinto pela Revolução de 64 -, ao qual se ligava um toca-discos de três rotações e um microfone antigo. Um cabo de áudio ligava o amplificador aos potentes alto-falantes do radião instalado na garagem, cerca de 10 metros além do “estúdio”. Essa era a nossa rádio.

A programação era errática, naturalmente mal-estruturada, mas suficiente para infernizar a vida da vizinhança nos horários em que a rádio operava. Mas tínhamos ouvintes fiéis, como a dona Gecy, a empregada da família e minha comadre, uma negra volumosa e retinta, que deixava os afazeres domésticos para fazer parte, solitária, do auditório da Vanguarda. As gostosas gargalhadas da dona Gecy serviam de emulação para nós porque davam conta de que o programa estava agradando.

O Telmo, vulgo Alemão, irmão mais velho que tivera uma experiência na precocidade dos 17 anos como locutor na Rádio Jaraguá, de Jaraguá do Sul (SC), bem que deu uma mão para que a brincadeira funcionasse. Com sua voz anasalada não foram poucas as vezes em que ele se entregou ao fascínio daquela experiência, locutando e participando de programas de debates. Outro “comunicador” habitual era o Antonio Luis, amigo dos irmãos mais velhos, que lia artigos da revista Seleções, expondo as idéias como se fossem suas, inclusive uma severa condenação ao tabagismo que ele apresentou com voz grave enquanto fumava seu Hollywood sem filtro.

De alguma forma a Vanguarda foi uma rádio inovadora ao introduzir a figura do comunicador executivo, que apresentava o programa ao mesmo tempo em que operava os equipamentos, duplicidade de funções muito comum hoje em dia. A discoteca era composta de não mais de 10 lps, entre os quais um do talentoso grupo vocal americano The Platters, e outro dos mexicanos do Tijuana Brás, uma orquestra de metais que fazia muito sucesso na época. Havia alguns compactos de MPB e meia dúzia de discos em 78 rotações que obrigavam a rápidas manobras para troca de rotação e, é claro, volta e meia a emissão saia distorcida pelo esquecimento do operador em retornar à posição correta. Pelo que lembro, não havia um disco sequer da Jovem Guarda, para fazer jus ao slogam da rádio, mas isso é detalhe.

O acervo continha ainda um disco de marchas militares americanas, que serviam de abertura para os noticiários, porque rádio que se prezasse tinha que manter seus ouvintes bem informados... com as notícias que copiávamos da Folha da Tarde. Os comerciais eram baseados nos anúncios publicados pela Seleções e um dia alguém apareceu com um disco onde estavam gravados jingles do Sonrisal (“É melhor e não faz mal”), que passaram a ser rodados em todos os intervalos. Era a rádio Vanguarda atingindo sua maioridade operacional.

A Rádio Vanguarda não durou mais de duas temporadas de férias, substituída por outros interesses ditados pela maioridade que nos pressionava. E assim frustrou-se mais uma tentativa de iniciar meu império de comunicação e desisti do sonho de me tornar um empreendedor, um verdadeiro barão da mídia ( afinal, não foi num serviço de alto falantes em Passo Fundo que o Maurício Sirotsky começou?) Ficou a certeza, porém, que meu futuro profissional passaria, mais dia menos dia, pelo apaixonante veículo rádio.

(continua)