domingo, 8 de outubro de 2017

Se Curasal fosse um país


O texto abaixo não é inédito: foi publicado em janeiro de 2013 e reeditado em outubro de 2014, mas ficou mais atual do que nunca diante do movimento “O Sul é o meu Pais”, que quer separar RS, SC e PR do Brasil. Nada como uma brincadeira para contrapor a uma grande bobagem! Curasal, se fosse um pais, certamente pediria para se separar do Brasil e formar uma federação com o Sul. Mas antes seria necessário constituir esse novo estado soberano. Assim:

Um plebiscito vai propor a independência de Curasal do Brasil.  A ideia é inspirada na Revolução Farroupilha, uma vez que a futura capital, a próspera Âncora, nasceu com o nome de Bento Gonçalves e as seis ruas da localidade ganharam nomes de vultos históricos dos farrapos, como Anita Garibaldi, Antônio Neto, Davi Canabarro.

O novo país será dividido em dois territórios bem definidos: Curasal do Sul e Curasal do Norte, separados pela principal rodovia da região, a Interpraias, que certamente receberá um novo nome. Outros territórios de menor importância serão  Marambaia, Bom Jesus e Curumim na fronteira com Arroio Teixeira, e Figueirinha e Raiante na fronteira com Arroio do Sal.  As duas fronteiras serão fortemente vigiadas porque Curasal já nasce com pretensões expansionistas e tem ocorrido atos de beligerância nos limites com os dois vizinhos.

Movimentos radicais se preparam para propor ações bélicas visando a anexação de Arroio do Sal e depois Rondinha e Torres, isso litoral acima, e Arroio Teixeira, Capão Novo, Praia do Barco e toda a Capão da Canoa, litoral abaixo, preservando apenas Xangri-lá porque isso não é nome que se dê a uma localidade.  O critério para anexação será o étnico:  praias com pessoal predominantemente da região serrana correm riscos.  Existe até quem advogue que o novo país se chame Gringolândia.

O problema para o enfrentamento com os vizinhos é que as forças armadas de Curasal se resumem a meia dúzia de salva-vidas que serão nacionalizados, tornando-se cidadãos curasalenses. A verdade é que os futuros adversários estão mais bem equipados e provavelmente o governo de Curasal será obrigado a recorrer a mercenários, a exemplo do que fizeram os farroupilhas com Giuseppe Garibaldi.

A Constituição do novo país validará um regime inédito, que será conhecido como Rodízio Democrático, pronunciado com carregado sotaque de gringo. Funciona assim: de seis em seis meses um dos comerciantes da região assume o executivo, enquanto os outros compõem a Câmara de Representantes, que seria uma espécie de legislativo. É a forma engenhosa de valorizar o empreendedorismo e evitar que se eternizem nos cargos. Só não está definido como esse pessoal será eleito, mas aí já é detalhe.

 A Carta Magna, para reforçar o patriotismo da população, vai exigir que todos os órgãos públicos e grandes empresas agreguem o nome do país.  Assim, teremos a Air Curasal (um teco-teco e dois paragliders),  a CurasalNet (distribuidora de sinal de TV), a Olá Curasal (operadora de telefonia celular), a TeleCurasal (principal rede de TV), a RMC (Rede de Metrôs de Curasal), a Loide  Curasal (marinha mercante à serviço dos pescadores) e por aí vai.

Difícil dizer se daria certo, mas que seria divertido, ah,seria!


domingo, 24 de setembro de 2017

O animal que se tornou um deus




“Alguns livros marcam a vida da gente de forma definitiva. São aqueles que vale a pena ler de novo e que levaríamos  para uma ilha deserta junto com nosso bem querer, ou que provocaram grande mudanças nas nossas vidas.  Amigos mais intelectualizados adoram citar Guimarães Rosa, Joyce, quanto mais indecifráveis melhor, ou Borges , que tem meu voto, ou ainda aqueles russos chatos. “

Cometi essa abertura em um texto de maio de 2013  (A guerra das imaginações e outras obras primas) quando registrei minhas leituras para sempre preferidas, entre elas O Macaco Nu, de Desmond  Morris, um dos livros indicados pelo mestre Marcelo Casado de Azevedo, na Fabico da Ufrgs, lá no início dos anos 70 do século passado. Zoólogo, Morris produziu um instigante ensaio antropológico, que  nos levava a entender melhor sobre o atual estágio da civilização e do comportamento humano. Para esse entendimento, uma  frase  da obra bastaria: “Apesar de se ter tornado tão erudito, o Homo Sapiens não deixou de ser um macaco pelado”.

Pois, agora me vejo na satisfatória contingencia de incluir entre os  livros que considero imprescindíveis uma obra em tudo convergente e complementar à de Morris. Refiro-me a Sapiens-  uma breve história da humanidade,  de Yuval Noah Harari, doutor em História pela Universidade de  Oxford,  lançada originalmente  em 2011, e que agora figura há 46  semanas   na lista dos mais vendidos da Veja. Entretanto, foi em um comentário da Tânia Carvalho que tomei conhecimento da obra. Grande Tânia, e grande lance da nossa L&PM, responsável pela edição brasileira.

Sapiens é fascinante e perturbadora. Harari tenta  lançar luzes sobre as nossas origens e, muitas vezes, reconhece não ter respostas para o mais provocativo dos  questionamentos: por que entre pelo menos seis espécies de humanos que habitavam a Terra há 100 mil anos só os homo sapiens, ou seja, nós, sobrevivemos e conquistamos o planeta?

Com uma prosa agradabilíssima, o autor combina ciência, história e filosofia e, assim, se aventura pelas três importantes revoluções que definiram o curso da história:  a Revolução Cognitiva, que deu início à história, há 70 mil anos; a Revolução Agrícola, que acelerou a história, por volta de  12 mil  anos  atrás; e a recentíssima Revolução Científica, que começou há apenas 500 anos. Nessa viagem através do tempo, Harari dá trânsito a teorias, aparentemente prosaicas, como a disposição para fofocar dos nossos antepassados e sua contribuição para a evolução humana ou a capacidade para a ficção, que distinguia o homo sapiens das outras espécies, e o que isso significou para que se impusesse sobre as demais , ou, ainda, porque a ficção jurídica “empresa de responsabilidade limitada” está entre as invenções mais engenhosas  da humanidade.

Ao final, o autor lança um preocupante alerta sobre o futuro que espera o “animal que se tornou um deus”, como prefere tratar o moderno homo sapiens, muito mais poderoso que os nossos ancestrais, embora provavelmente não mais feliz. Porém, não vou antecipar. Vai lá e confere.

Particularmente, Sapiens teve outro mérito. Fiquei tão envolvido com a obra  que imprimi um ritmo frenético  na leitura, voltando aos tempos em  que era  um leitor  voraz  e consumia pelo menos um livro por semana.   Em compensação, deixei de lado os outros sete livros que leio alternadamente e de forma, digamos, despacita. A explicação para esse comportamento errático talvez possa ser encontrada lá na Revolução Cognitiva.

domingo, 10 de setembro de 2017

Cinismo à brasileira


O eterno pais do futuro transformou-se na pátria  do cinismo.  Um cinismo escrachado praticado em todos os níveis, contaminando a sociedade, se bem que os piores exemplos vem de cima, de um bando de canastrões que infestam a vida brasileira.  Um cinismo desavergonhado, explicito, com justificativas de corar gigolô  a cada denuncia publicizada.

A JBS seguramente  vai para o pódio do cinismo. Responsável pelo maior escândalo de corrupção jamais visto no Pais, a empresa dos  Batistas pretendia contratar o ex-procurador federal Marcelllo Miller, então braço direito de Rodrigo Janot, para uma diretoria anticorrupção que seria criada. Vale o mesmo para Aldemir Bendine que assumiu a Petrobras com a  missão de recuperar a estatal, deu declarações incisivas contra o esquema de corrupção na empresa, tipo   “A gente está com sentimento, diríamos até de vergonha, por tudo isso que a gente vivenciou. Eu faço um pedido de desculpa em nome dos empregados...”.  No entanto, no mesmo período, Bendine mordia uma propina de pelo menos R$ 3 milhões da Odebrecht, isso enquanto as investigações da Lava Jato já estavam bem adiantadas.

Mas o lugar mais alto do pódio do cinismo é do Geddel, que emalocou R$ 51 milhões no apartamento de um amigo em Salvador, grana certamente originária de grossa corrupção. A PF levou 14 horas para contar toda a dinheirama. Geddel, convém lembrar, frequenta os noticiários sobre corrupção desde o episódio que ficou conhecido como a Máfia dos Anões do Orçamento.  Isso não foi impedimento para que ocupasse altos cargos nos governos FHC, Lula, Dilma e Temer. Pois esse sujeito teve a cara de pau de participar dos movimentos que resultaram na queda de Dilma, justificando que saia às ruas porque “ninguém aguenta mais tanto roubo”, criticando o “assalto aos cofres públicos”, além de detonar como “incompetente” o governo do qual havia participado e que permitiu que exercitasse na CEF  sua já consagrada vocação para a corrupção.

Esses corruptos e corruptores  certamente desconhecem que cinismo, na origem histórica, era uma doutrina filosófica grega, que prescrevia a felicidade de uma vida simples. Eles optaram pela corruptela do cinismo, nascida no  século 19, cujo significado já  está explícito no próprio substantivo:  aquilo capaz de corromper (alterar, perverter, adulterar, falsificar ou subornar) algo ou alguém; desfaçatez, descaramento. Tudo a ver com os exemplos citados. E olha que nem falei dos extraclasse Lula e Temer.

domingo, 14 de maio de 2017

João Santana e eu

*Publicado originalmente em 26/02/2016;  resgatado e atualizado agora diante das revelações da delação premiada de João Santana e sua atual mulher, Mônica Moura.

Conheci o publicitário João Santana em 1998 na campanha para o governo do Estado. Aquela foi uma disputa feroz, voto a voto, entre Antonio Brito e Olívio Dutra. Brito venceu no primeiro turno por pequena diferença, mas Olívio acabou levando no segundo, também por escassa margem, cerca de 87 mil votos, ou 1,5% num universo de 5,6 milhões de votantes.

Brito buscava a reeleição, era favorito, arrancou forte, mas foi perdendo espaço e intenção de votos diante de uma bem sucedida campanha de desqualificação, especialmente na TV, com programas petistas produzidos por Carlos Gerbase e sua turma. Para comandar a sua campanha o governador contratou a Duda Mendonça, que enviou a Porto Alegre um marqueteiro de segundo escalão, o hoje celebrado e encarcerado João Santana. Ele veio em grande estilo, com uma trupe de criativos, produtores, roteiristas, entre os quais sua jovem e arrogante companheira de então, uma lambisgoia chamada Alessandra, que volta e meia levava um corridão de outra parceira nossa.

Apesar de todo o aparato, a campanha proposta pelo esquema Duda/Santana não engrenava. Era muito brilhareco, pouca consistência, soluções usadas em outras campanhas, mas que aqui não funcionavam e programas desconectados do ambiente regional. Enquanto isso, a gurizada à serviço do PT dava lições de como chegar aos corações e mentes dos gaúchos.

Não sei se o Brito não confiava muito em João Santana, o certo é que um dia chamou a Bernardete Bestame e a mim, e pediu que ficássemos de olho no trabalho do marqueteiro. Em seguida nos mudamos para a produtora, que funcionava na rua Luzitana, bairro São João, num prédio locado a um tio do Tarso Genro, que ironia!. Trabalhávamos no núcleo de produção de conteúdos de grandes e pequenos temas que poderiam servir à campanha e deveríamos ser fornecedores desses conteúdos para os programas de TV. Entretanto, quando nos apresentamos ao publicitário, explicando que atendíamos a uma demanda do candidato, fomos recebidos friamente e durante a campanha pouco foi utilizado do rico material armazenado durante todo o mandato do governador.

No segundo turno, depois do susto que foi a vitória apertada no primeiro turno, o então secretário da Fazenda, Cezar Busatto foi praticamente imposto como interventor junto à equipe de João Santana e a campanha começou a dar uma virada, reacendendo a esperança de vitória. Antes disso, na renovação do contrato para o segundo turno, houve uma complicada negociação e o marqueteiro importado acabou mantido. Apesar dos pesares, seria temerária a mudança àquela altura do campeonato.

Mas bem que João Santana merecia um pé na bunda depois de uma inacreditável proposta de programa para abrir a nova fase da campanha. Com pompa e circunstância ele apresentou um piloto de vídeo em que pessoas ligadas a vários segmentos apontavam todas as fragilidades do governo, as mesmas que a turma do PT mostrava em seus programas. A justificativa de João Santana é de que o momento exigia “assumir alguns problemas do governo” e a partir daí garantir que esse quadro seria alterado no novo mandato. Ao assistir ao programa piloto, onde apareciam um colono reclamando da falta de apoio, um jovem clamando por emprego, um trabalhador desempregado criticando as privatizações, todos ferrando o governo, Brito levantou-se e visivelmente contrariado, disparou:

- Desse jeito vou entrar no segundo turno com mãos ao alto, como se já estivesse derrotado. É isso, João Santana?

Santana gaguejou uma explicação, mas teve que mudar toda a sua equivocada estratégia.

O terceiro e último episódio na minha rápida e desprazerosa relação com o baiano ocorreu na antevéspera do dia da eleição. As pesquisas mostravam uma reação da campanha de Brito e uma onda de otimismo percorreu a sede da produtora. Uma festa foi organizada, com dancinhas e tudo. Mal sabíamos que era uma versão moderna e gaudéria do baile da Ilha Fiscal, aquele festerê que precedeu a deposição de dom Pedro II.

Eu havia bebido umas cervejas e resolvi peitar o João Santana, mas procurei ser minimamente civilizado:

- Ô, João, me diz aí. Vamos ou não ganhar esta merda? Afinal, o que vai acontecer?

- Aposto uma garrafa de uísque como a gente ganha -, garantiu ele, com convicção.

Como não bebo destilados não aceitei a proposta, até porque preferia que ele ganhasse a aposta. O resto da história é bem conhecido. Olívio ganhou e pro meu discernimento quem perdeu foi o Rio Grande. Quem também ganhou – e muito – foi o João Santana. Deve ter começado lá em 1998 a escalada rumo ao patrimônio que o levará a devolver mais de R$ 70 milhões aos cofres públicos, entre multas e recuperação de recursos mal havidos. .


sábado, 13 de maio de 2017

Pérola Negra



Já  no primeiro encontro que tive com a Indaiá Dillenburg, há  uns bons 12 anos, me quedei de paixão. Não tem como não gostar da  alegria contagiante dela, da risada  gostosa, do carinho esfuziante, enfim, daquele jeito de quem está de bem com a vida, curte as pessoas e as relações. Foi amor à primeira vista, tanto assim que cunhei para ela um  apelido do bem,  pelo qual ficou conhecida em toda a Prefeitura de Porto  Alegre, onde labutávamos: Pérola Negra. 

A orgulhosa negritude, contrastando com o sobrenome alemão, só é superada pelo orgulho da família,  que vive a celebrar nas redes sociais -  o maridão, as duas filhas e o neto  tão lindo  como o meu Augustão . Cidadã viamonense, baita profissional de Comunicação, conseguiu se impor e ser respeitada nos ambientes, sem sempre acolhedores, das plenárias  do Orçamento Participativo, o campo de atuação dela por mais de  10 anos. Com a Pérola não tinha hostilidade porque circulava com desenvoltura e naturalidade, tratando igualmente tanto as lideranças políticas como os despossuídos. Dava gosto ver ela cercada de gente, gargalhando diante de algum episódio ocorrido.  

Essa autêntica força da natureza passou a se dedicar agora à literatura. É uma das DezMioladas,  10 cronistas reunidas no livro com este título lançado recentemente pela  Farol3 Editores. É um momento delícia ler as quatro crônicas, cheias de  vida como  a  Pérola, mas não vou antecipar nada. Vai lá, compra o livro e confere.  

Foi o que fiz e aí caiu a ficha, eu que procurava há longo tempo uma parceira para o próximo livro – o Dueto. É ela, a Pérola, estava na minha cara e eu não enxergava. Bastou uma conversa, regada a cafezinho e tudo ficou acertado, com uma selfie para confirmar.  Dueto chega em setembro e  adianto o seguinte: reina grande expectativa.   


quinta-feira, 20 de abril de 2017

Procura-se uma parceira

Estou me sentindo extremamente rejeitado pelo naipe feminino, inclusive no âmbito familiar. Ocorre que ao tentar dar seguimento a minha incipiente carreira de escritor tenho buscado uma parceira para dividir uma obra que já tem até título – Dueto – mas nenhuma adesão. A rejeição começou com minha filha Mariana, considerada o melhor quadro literário da família, mas, na mesma medida, muito restritiva em dividir espaços e conteúdos, ainda mais com alguém metido a cronista com forte viés politicamente incorreto.
Eu devia pressentir que a negativa dela era  um mau presságio. Se nem os mais próximos confiam, o que esperar do mundo lá  fora?  Vou deserdar a ingrata e, sem esmorecer, continuo com a busca, que segue infrutífera. Até já  anunciei  em programa de TV, todo exibido, que estava bem encaminhada uma nova parceria que,  entretanto, não se consumou porque a talentosa autora está envolvida com outras prioridades no momento. Apelei para outra alternativa que  se mostrava promissora,  mas que não demonstrou muito entusiasmo com a empreitada.
Mais uma tentativa e uma conversa animadora, regada a expressos, e a bela e qualificada quase futura parceira acabou também desistindo por incompatibilidade de estilos, segundo ela própria, que recebe o meu respeito pela decisão.
Ou seja, continuo na estaca zero e com aquele sentimento de rejeição, que nem um tinto encorpado consegue minimizar.
Só me resta a inveja do pessoal da Farol 3 Editores, o Auber Lopes  de Almeida e o Paulo Palombo Pruss,  que conseguiram  não  uma mas dez mulheres, cada uma com quatro crônicas, para o livro DezMioladas, a ser lançado  dia 6 de maio.  Vou lá pra fazer um apelo: não me deixem só