segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Efeito Boiada no verão


* Publicado nesta data em Coletiva.net

Casas na praia, como sítios em zona rural, proporcionam dois prazeres aos seus eventuais proprietários: quando compra e desfruta ao máximo, e quando vende e passa adiante a encrenca e um monte de despesas. Esse é um princípio bem conhecido por quem já viveu a experiência, entre os quais este que vos fala.
Depois de 10 anos investindo em uma morada em Curasal - a pequena praia da Âncora, entre Curumim e Arroio do Sal - uns gringos de Caxias do Sul arremataram a casa e ficaram bem faceiros, enquanto eu, de saída, livrei-me de um IPTU maior do que o de Porto Alegre, mais taxas de água, energia e demais despesas decorrentes da manutenção de uma casa na praia. Detalhe: nos últimos anos, o máximo que aproveitava era uma semana de veraneio. Ou seja, custo altíssimo para pouco benefício.
Não significa que não goste de praia. Até gosto, já gostei mais, é verdade, e assim parece que estou na contramão em relação ao modo de ser da maioria dos gaúchos, que tem fixação em estar junto ao mar. Para comprovar, pesquisa recente da Fecomércio indica que mais de 6,5 milhões de gaúchos, ou metade da população do Estado, querem ir para as praias neste verão. Outro tanto também gostaria de ir, mas certamente não tem recursos, enquanto apenas 2,5% prefere ficar no caldeirão de Porto Alegre,
Deve ser um atavismo com alguma explicação sociológica que foge a minha compreensão. Ainda lembro de uma charge do Iotti, na edição de ZH da virada do ano em 2012, que ilustra bem essa obsessão: na fila formada por uma boiada, um dos animais pergunta: "Mas, afinal, por que todos temos que ir à praia?". Bingo, efeito boiada, é isso que nos move em direção ao território conhecido no Rio Grande como "as praia". Nosso litoral carece de belezas naturais - exceto Torres, que seria um enclave de Santa Catarina no Rio Grande - enquanto sobram desatrativos, se é que existe o termo. 
E, independentemente do tamanho e da origem dos veranistas, os problemas são os mesmos em todos os balneários: crescimento desordenado, infraestrutura precária, serviços públicos que deixam a desejar, atendimento pouco qualificado e por ai vai. Experimente contratar um pedreiro, um pintor, um encanador e você vai ver o que é bom pra tosse. Primeiro ele precisa aparecer no dia marcado, depois utilizar os materiais nas quantidades que ele mesmo indicou, nem o dobro a mais nem a menos e, por fim, entregar o serviço no prazo e na forma como foi acordado. Experimenta, vai.
Mesmo assim, temos uma atração obsessiva para escapar até o litoral. E aí está o outro problema a ser enfrentado: as estradas entupidas, que não dão vencimento ao volume crescente de veículos, sem contar os Fuscas, os Opalas, as Kombis, legados pelo século passado e cujos donos e suas famílias se consideram também filhos de Deus, com direito a salgar o corpitcho e tomar suas Kaisers e caipirinhas à beira mar, em memoráveis farofadas. Os despossuídos, pelo menos, não estão nem aí para as dificuldades, para o chocolatão do mar e o vento Nordestão, para os mercados lotados e os preços abusivos. Como o macaquinho da velha piada, eles querem é gozar. 
Quem reclama mesmo é aquele pessoal que torce o nariz para as chinelagens do nosso litoral e vai pra Santa Catarina. Houve um tempo em que os catarinas, ardilosamente, erigiram uma barreira na altura de Laguna só para atazanar os chatos dos gaúchos que invadiam suas praias paradisíacas, ao mesmo tempo em que faziam a alegria dos repórteres de rádio com seus boletins repetitivos: "... Neste momento, 10 quilômetros de congestionamento no acesso à ponte de Laguna". Mas até isso acabou com a conclusão da nova ponte.
Os gaúchos que reclamam dos acessos às nossas praias é porque não viveram os veraneios pré Freway, Estrada do Mar, Rota do Sol e outras vias alimentadoras. Até a década de 1970 do século passado funcionava assim: o carro lotado saía cedo para a RS 030, também conhecida como Estrada Velha, que vai de Gravataí a Santo Antônio e Osório, e, dali, acessa Tramandaí.  Ou mais ao Sul, pela estrada que passa por Viamão e vai a Cidreira, a RS 040.  Chegava-se aos outros balneários pela Interpraias e onde ela ficava intransitável, nas praias mais ao Norte, o negócio era seguir pela beira mar, cuidando para não atolar nos inúmeros arroios ou na areia mais fofa.
Em compensação, eram tempos menos corridos e o veraneio podia durar um ou até dois meses, o que é impensável nestes tempos competitivos, de escapadas de fim de semana. Desse jeito, não há quem aproveite ou espaireça de verdade, porque o sujeito mal chega à casa da praia e já começa a sofrer pensando na volta. É por isso que não entendo esse boom de condomínios fechados, disseminados por todo o litoral. Há clientela para tudo isso? E qual a vantagem de sair do aperto da cidade para "desfrutar" do aperto no litoral, com espaços confinados, privacidade às favas e a maioria longe da praia? Como na nossa obsessão pelas praias, aqui também não tenho as respostas. 
Agora devo confessar que a porção praieira que ainda habita em mim clama por uma temporada à beira mar. Se me permitem, vou juntar-me à boiada. Litoral gaúcho, vou lhe usar.


segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Reflexões natalinas


* Publicada originalmente em 23/12/2016

Há uma certa melancolia, quase deprê, neste período de festas. Talvez seja pela obrigatoriedade de mostrar felicidade, enquanto a realidade é desanimadora. Culpa também das revisões que o fim de uma etapa impõe e a conclusão de que muito foi sonhado e pouco concretizado e isso vale tanto para a vida pessoal como para o lado profissional.  Se pelo menos os presentes compensassem as frustrações, mas nem isso tem ajudado.

Foi-se o tempo das cestas de Natal repletas de produtos importados, ou das bebidas finas ou, ainda, dos eletrônicos de última geração oferecidos como mimos por clientes e fornecedores. No Jornalismo tal prática é conhecida como “toco”. Escapa ao meu conhecimento a origem da expressão. Talvez represente coisa pequena e o uso  parece ser exclusivo dos jornalistas gaúchos.

Hoje o recebimento dos regalos é visto com restrições ou tratado como folclore, mesmo porque a operação Lava Jato desnudou o toma lá, da cá em nível bilionário.  E, assim, ofertantes e recebedores foram para a retranca, com os toqueiros bagrinhos, aqueles que recebem um misero espumante moscatel ou um panettone, pagando pelos peixes grandes, pós graduados em mamarem nos recursos públicos.

Não estou aqui para lamentar por nenhum deles. Na verdade, quero deixar meu protesto veemente, em nome de todos os capricornianos que fazem aniversário no Natal ou nos dias próximos. Não são poucos, garanto, mas a maioria alega que é discriminada quanto aos presentes, recebendo um que vale por dois devido a coincidência de datas. Por muito tempo fui vitima dessa sovinice, eis que nasci em 6 de janeiro, dia de Reis (mera coincidência), embora  a data seja referencia a chegada dos reis Magos Melchior, Baltasar e Gaspar à gruta de Belém para presentear o Menino Jesus com ouro, incenso e mirra. No  Uruguai a troca de presentes ocorre nesse dia. Mesmo assim, apesar  de  todo esse respaldo bíblico e de tradição, muitas vezes eu ficava sem o  presente de aniversário.

Nem por isso precisei apelar para o divã dos analistas a fim de curar minha frustração por não ser presenteado  e olha que   nem precisava ser ouro, mirra e incenso, bastava um carrinho, uma bola, um joguinho qualquer.


Não vão faltar línguas maldosas para dizer que estou aqui apelando para o coitadismo e  insinuando  a necessidade de ser presenteado no aniversário próximo -  com vinhos importados, espumantes de boa cepa, cervejas  artesanais, camisas azuis de grife, utensílios para churrascos. Não, gente,  não precisa se incomodar. 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

A República dos Motoristas


* Publicado  nesta data em Coletiva.net
No Brasil, a assertiva do velho Marx de que a história se repete, a primeira vez como tragédia  e a  segunda como farsa, não é bem assim. Aqui se repete como tragédia, drama, comedia  e, sobretudo, como farsa. E como se repete, repete, repete!

Invoco Marx a propósito da interferência repetitiva dos motoristas na vida brasileira, especialmente no período  da redemocratização. Valeria certamente um estudo acadêmico mais  aprofundado sobre estes profissionais  e a influência deles no curso da história. Não falo dos caminhoneiros  que derrubaram a economia  com a paralisação em maio – foram protagonistas também, apesar  do desserviço prestado -,  mas dos motoristas que tem a responsabilidade do leva e traz  das autoridades.

Um caso notório é  do ex-motorista de Fernando Collor, Eriberto França, que  denunciou  pagamentos indevidos ao  então presidente e isso foi decisivo no processo que resultou no impeachment.



Só que a realidade, às vezes, é cruel, tanto assim que Eriberto, conhecido como “ o motorista que derrubou Collor”, amargou o desemprego por um bom tempo, enquanto o ex-presidente voltou ao Senado e às maracutaias, e tem sido citado com assiduidade na Lava Jato.



Não é motorista, mas mesmo assim merece o registro pelas atitudes que tomou, o caseiro Francenildo  Costa em meio ao escândalo do Mensalão. Ele denunciou os contatos de Antonio Palocci, então ministro da Fazenda de Lula,  com lobistas desejosos de “negociar” com o governo ,  teve seu sigilo bancário quebrado, o que acabou servindo para tornar insustentável a permanência do denunciado no cargo.  



Francenildo  também enfrentou o desemprego, mas, se serve de consolo, Palocci, diferente de Collor, foi encarcerado, se bem que acabou beneficiado agora, depois da delação premiada, com prisão  domiciliar.



Mais recentemente, denúncias de dois motoristas complicam a posse como ministra do Trabalho da deputada  Cristiane Brasil, que descumpriu a legislação trabalhista na relação com os profissionais. A deputada violou uma regra básica: os motoristas, que tudo ouvem e a tudo assistem, são cargos de confiança por excelência e como tal devem ser tratados.



E ganha as manchetes agora a suspeita envolvendo o motorista de Flávio Bolsonaro, filho do presidente eleito. O sujeito, morador de uma casa modesta na periferia do Rio, movimentou mais de R$ 1,2 milhão na sua conta bancária, conforme revelação do atento COAF. Um cheque de R$ 24 mil para a futura primeira dama aproximou  ainda mais Jair Bolsonaro do imbróglio. Até agora as explicações dos envolvidos  revelam um tanto de amadorismo e outro tanto de desfaçatez.



O principal personagem – o motora – até domingo ainda não tinha aparecido para se explicar.  Dependendo dos desdobramentos, o episódio pode ter como inédito efeito na política brasileira uma fragilidade do governo antes mesmo de  assumir. E nem dá pra culpar o motorista, que parece ser mero intermediário nessa malsucedida operação.



Por fim, poderia falar também do papel desempenhado por ex-mulheres, ex-namoradas e ex-amantes nos grandes escândalos nacionais, mas aí é outra história, que também se repete, repete, repete.


domingo, 16 de dezembro de 2018

Identidade seminal


* Publicado em Coletiva.net em 26/11/2018
-Bom dia, seu Júlio.

O cumprimento do rapaz que  circula de bicicleta todas as manhãs em Ipanema é tão previsível como as minhas caminhadas pelo calçadão.  O rapaz era amigo do meu filho, já frequentou minha casa, mas acho que por não desempenhar outra atividade, a não ser pedalar  o dia todo e  todos os dias, criou na sua cabeça, ornada por dreadlocks, uma identidade que não corresponde a do caminhante.

Respondo a ele  como a mesma civilidade, ora com “bom dia”, ora  com um gesto de positivo. É que já estou acostumado a ser vítima e agente de  trocas de nomes.  A cozinheira da firma, por exemplo, pede desculpas  cada vez que me chama de ”seu Sérgio”. Tempos atrás quando trabalhava como comprador de uma instituição, um veterano e formal vendedor de material de escritório alternava, na mesma negociação, propostas ao “senhor  Jorge”, “senhor Cláudio”, “senhor Valter”, além dos  senhores “Júlio”, “Sérgio” e até “Flávio”.  Achava aquilo  tão fantástico que não me atrevia a corrigi-lo.



Sei lá o que Jorge, Cláudio, Valter, Júlio e  Sérgio tem em comum com Flávio.  Talvez porque  sejam nomes curtos, no máximo sete letras, alguns com o mesmo acento na primeira sílaba  e a mesma divisão silábica.  Mas isso não  é salvo conduto para sair por ai trocando o nome que  a dona Thelia, minha santa  mãe,   escolheu para seu querido sexto  filho e cujo significado é singelo, mas tem história: o nome Flávio tem origem a partir  do latim Flavius, que se originou na palavra flavus, que quer dizer “amarelo”, “dourado” ou “louro”, em referência a cor  dos cabelos. O surgimento do nome tem  como base o de uma  família romana, de onde saíram três imperadores, a partir de Tito Flavio Sabino Vespasiano, que deu origem a dinastia conhecida  como “flaviana”. Origem dinástica, por essa nem eu esperava!



O histórico do nome não impede, entretanto, as trocas a que tenho sido submetido e que podem ser castigos para  as que tenho cometido. Um exemplo clássico é saudar o produtor cultural  Esdras Rubin como Wesley Cardias, especialista em marketing, que nem parecidos são. Menos mal que ambos já  revelaram que  não é exclusividade minha essa troca.



Só utilizo o nobre espaço proporcionado pelo Coletiva.net  para tratar de uma questão aparentemente banal e  pessoal porque defendo que reconhecimento e respeito à identidade seminal, no caso o nome de registro,  tem -  ou deveria ter - valor de cláusula pétrea para todos. A  legislação brasileira    prevê a adoção do nome social por travestis e transexuais em substituição ao nome de registro, porque é ao novo nome que a pessoa  se identifica,  uma vez que corresponde ao gênero a que ela aderiu. Porém, daqui a pouco surgirá um movimento para o reconhecimento a algo como Nome Ideológico para satisfazer os que agregaram Lula ou Bolsonaro ao seus nomes. Valeria também para os Guarani-Kaiowa. A Justiça Eleitoral já admite registro de candidaturas com tais composições. Só que essa turma tem mais apreço ao voto do que as suas identidades.



No meu caso, tão grave como a trocas, que não faço por maldade ou desrespeito,  é o branco que me acomete diante de conhecidos, cujo nome me escapa. Chamaria a situação de “Mal da Fila de Autógrafos”, pois se acentua nos lançamentos de livros. Você divisa aquele velho conhecido chegando cada vez mais perto  para receber os seus garranchos no livro que ele gentilmente adquiriu e o nome não vem à memória.  Na recente sessão de autógrafos de “A Maldição de Eros”  ocorreu uma situação  dessas com uma figura  querida e conhecidíssima e nada de lembrar o nome. Fui  providencialmente socorrido por um  casal amigo  que teve a feliz ideia de cumprimentá-lo pelo nome, antes que  aportasse  em mim.



Agora  estou me policiando  e criando estratégias para não cometer mais gafes ou esquecimentos. Garanto  que vou mudar ou não me chamo mais Júlio Sergio Claudio Valter Jorge Flávio Vieira Dutra,.



*Por curiosidade  registro do significado dos outros nomes aqui mencionados. Jorge, na origem, significava agricultor;  Valter, poderoso guerreiro; Júlio, pessoa jovem: Claudio, coxo, manco, daí o termo “claudicante”; Sérgio, protetor. Olha, confesso que só trocaria meus dourados pela juventude do Júlio, o que talvez absolva o rapaz da bicicleta. Vá que ele ache o veterano aqui nem tão veterano!


sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Chama o Papa


* Publicado em Zero Hora em 10/12/2018

A violência dos vândalos do River contra o ônibus  do Boca, que resultaram no adiamento  da decisão da Copa Libertadores, preocupou mais os dirigentes da Conmebol pela presença do presidente da Fifa no  estádio do que pelos prejuízos causados a uma das equipes ou porque era mais  um vexame envolvendo a  instituição que dirige o futebol sul-americano. Gianni Infantino, o homem da FIFA, até pela posição  que ocupa, certamente deve saber que os hermanos são desordeiros  contumazes e mega reincidentes em confusões dentro e fora do campo.

Só para recordar, uma dos maiores vergonhas ocorreu na Copa de 1966, no jogo entre Inglaterra e Argentina. O capitão argentino, Antonio Rattin se descontrolou, discutiu com o juiz, acabou expulso, mas demorou quase 20 minutos para deixar o campo e ao sair, cometeu a descortesia de amassar uma bandeirola inglesa. Foi saudado com vaias estrepitosas e gritos de “animais, animais”.

O histórico de violência dos argentinos contra  os europeus  marcou o mundial de clubes, especialmente na década de 70, quando o título era decidido em jogos lá e cá entre os campeões continentais.  Naquela década, dos dez torneios em sete os campeões europeus  se recusaram a jogar na América do Sul  ou não houve  competição pelo mesmo motivo.

Vale lembrar ainda, entre outras ocorrências, a Batalha de La Plata , o jogo Estudiantes  x Grêmio em 1983, que colocou em risco a vida dos representantes brasileiros. E, mais recentemente, pela  Libertadores de 2015, foi a torcida do Boca que lançou spray de pimenta contra os  jogadores do Boca no intervalo  da  partida. O Boca acabou punido com a desclassificação. O episódio do último sábado seria o revide pela agressão de 2015, só que a Conmebol perdeu toda a autoridade para agir com o rigor necessário e por fim a essa bagunça que privilegia o extra  campo  em detrimento do futebol.

Se me permitem a sugestão, acho que está na hora de o papa Francisco, argentino e aficionado torcedor  do San Lorenzo, entrar em campo e rogar pela pacificação das hinchadas do vizinho país e por ações confiáveis, disciplinares  e competentes dos diretivos. Se nem isso resolver, lamentavelmente acabará de vez aquela derradeira possibilidade de solução: a de  se queixar pro Papa. Aí será a vitória definitiva da barbárie.

Chatices de fim de ano



* Editado do original e publicado no Coletiva.net em 10/12/2018

Está aberta a temporada de chatices de fim de ano. Com isso é cada vez maior o número de pessoas que se deprimem, ficam melancólicas nesta época  e admitem publicamente que detestam as chamadas festas natalinas.  A estatística de desgostosos cresce na proporção direta em que o comércio antecipa suas campanhas de Natal, com o objetivo de vender mais e quanto mais cedo melhor.  Os shoppings, esses templos do consumo, se enfeitam como se disputassem um campeonato  de ornamentação natalina.

Particularmente já curti menos o Natal, mas voltei a me entusiasmar por causa das netas e neto, Maria Clara, Rafaela, Lívia e Augusto. Natal é a grande festa da criançada que  adora as tais casas do Papai Noel nos shoppings , mesmo que os pequeninos ainda se assustem com o velho gordo, de barbas brancas e vestido de vermelho. Mas, como diz minha faceamiga Monica Goulart,  acabar com a fantasia das crianças é crime inafiançável.

Eu prefiro olhar as assistentes do personagem,  mas não pensem que é um olhar  de más intenções, apenas um gesto fraterno de solidariedade, creiam-me,  às moças que lidam com crianças irrequietas ou assustadas e pais ansiosos.  Pois é  assim que se estabelece o ciclo que vai impulsionar ao consumo: atraindo a criança para o ambiente repleto de ofertas de produtos e serviços é inevitável que os mais velhos sejam levados ao ato da compra.  Os números variam conforme a pesquisa, mas de 50 a 60% dos brasileiros admitem fazer compras por impulso.  E a roda da economia anda.

Frequentar os shoppings nessas circunstâncias não é a pior chatice do período.  Tem coisas que nem o CD natalino da Simone (ainda existe?) ou o show do RC conseguem bater em termos de malice.  O noticiário esportivo, por exemplo, se esmera em nos torturar com teses sobre o bom ou mau desempenho dos nossos clubes, o futuro incerto nas competições que virão e as especulações sobre reforços e dispensas.  E as retrospectivas repletas de pequenos e grandes dramas; e as previsões para o próximo ano, repletas de obviedades.  E os comerciais piegas;  e a programação de fim de ano das TVs. Ah, e tem a festa da firma e o inevitável  Amigo Secreto,  que por si só já mereceriam uma boa dose de Prozac.

É quando sobrevém aquele sentimento de impotência e incompetência pelo que foi planejado e não realizado. Sempre fica algo para trás, inconcluso, desafiador, a debochar da nossa capacidade de entrega, como se os 12 meses  passados não fossem mero recorte de um tempo que prossegue, um tempo  em que nem tudo precisa ser renovação, mas sim um espaço para continuidades e retomadas. 

Relaxemos, pois, porque há vida após o Natal . O ciclo recomeça logo adiante, na passagem para mais um ano, uma etapa que, como as outras anteriores e as que virão, nada mais é do que representação  de uma convenção.   Perdão pelo reducionismo, mas é simples assim. Portanto, não precisa forçar a alegria.