domingo, 14 de maio de 2017

João Santana e eu

*Publicado originalmente em 26/02/2016;  resgatado e atualizado agora diante das revelações da delação premiada de João Santana e sua atual mulher, Mônica Moura.

Conheci o publicitário João Santana em 1998 na campanha para o governo do Estado. Aquela foi uma disputa feroz, voto a voto, entre Antonio Brito e Olívio Dutra. Brito venceu no primeiro turno por pequena diferença, mas Olívio acabou levando no segundo, também por escassa margem, cerca de 87 mil votos, ou 1,5% num universo de 5,6 milhões de votantes.

Brito buscava a reeleição, era favorito, arrancou forte, mas foi perdendo espaço e intenção de votos diante de uma bem sucedida campanha de desqualificação, especialmente na TV, com programas petistas produzidos por Carlos Gerbase e sua turma. Para comandar a sua campanha o governador contratou a Duda Mendonça, que enviou a Porto Alegre um marqueteiro de segundo escalão, o hoje celebrado e encarcerado João Santana. Ele veio em grande estilo, com uma trupe de criativos, produtores, roteiristas, entre os quais sua jovem e arrogante companheira de então, uma lambisgoia chamada Alessandra, que volta e meia levava um corridão de outra parceira nossa.

Apesar de todo o aparato, a campanha proposta pelo esquema Duda/Santana não engrenava. Era muito brilhareco, pouca consistência, soluções usadas em outras campanhas, mas que aqui não funcionavam e programas desconectados do ambiente regional. Enquanto isso, a gurizada à serviço do PT dava lições de como chegar aos corações e mentes dos gaúchos.

Não sei se o Brito não confiava muito em João Santana, o certo é que um dia chamou a Bernardete Bestame e a mim, e pediu que ficássemos de olho no trabalho do marqueteiro. Em seguida nos mudamos para a produtora, que funcionava na rua Luzitana, bairro São João, num prédio locado a um tio do Tarso Genro, que ironia!. Trabalhávamos no núcleo de produção de conteúdos de grandes e pequenos temas que poderiam servir à campanha e deveríamos ser fornecedores desses conteúdos para os programas de TV. Entretanto, quando nos apresentamos ao publicitário, explicando que atendíamos a uma demanda do candidato, fomos recebidos friamente e durante a campanha pouco foi utilizado do rico material armazenado durante todo o mandato do governador.

No segundo turno, depois do susto que foi a vitória apertada no primeiro turno, o então secretário da Fazenda, Cezar Busatto foi praticamente imposto como interventor junto à equipe de João Santana e a campanha começou a dar uma virada, reacendendo a esperança de vitória. Antes disso, na renovação do contrato para o segundo turno, houve uma complicada negociação e o marqueteiro importado acabou mantido. Apesar dos pesares, seria temerária a mudança àquela altura do campeonato.

Mas bem que João Santana merecia um pé na bunda depois de uma inacreditável proposta de programa para abrir a nova fase da campanha. Com pompa e circunstância ele apresentou um piloto de vídeo em que pessoas ligadas a vários segmentos apontavam todas as fragilidades do governo, as mesmas que a turma do PT mostrava em seus programas. A justificativa de João Santana é de que o momento exigia “assumir alguns problemas do governo” e a partir daí garantir que esse quadro seria alterado no novo mandato. Ao assistir ao programa piloto, onde apareciam um colono reclamando da falta de apoio, um jovem clamando por emprego, um trabalhador desempregado criticando as privatizações, todos ferrando o governo, Brito levantou-se e visivelmente contrariado, disparou:

- Desse jeito vou entrar no segundo turno com mãos ao alto, como se já estivesse derrotado. É isso, João Santana?

Santana gaguejou uma explicação, mas teve que mudar toda a sua equivocada estratégia.

O terceiro e último episódio na minha rápida e desprazerosa relação com o baiano ocorreu na antevéspera do dia da eleição. As pesquisas mostravam uma reação da campanha de Brito e uma onda de otimismo percorreu a sede da produtora. Uma festa foi organizada, com dancinhas e tudo. Mal sabíamos que era uma versão moderna e gaudéria do baile da Ilha Fiscal, aquele festerê que precedeu a deposição de dom Pedro II.

Eu havia bebido umas cervejas e resolvi peitar o João Santana, mas procurei ser minimamente civilizado:

- Ô, João, me diz aí. Vamos ou não ganhar esta merda? Afinal, o que vai acontecer?

- Aposto uma garrafa de uísque como a gente ganha -, garantiu ele, com convicção.

Como não bebo destilados não aceitei a proposta, até porque preferia que ele ganhasse a aposta. O resto da história é bem conhecido. Olívio ganhou e pro meu discernimento quem perdeu foi o Rio Grande. Quem também ganhou – e muito – foi o João Santana. Deve ter começado lá em 1998 a escalada rumo ao patrimônio que o levará a devolver mais de R$ 70 milhões aos cofres públicos, entre multas e recuperação de recursos mal havidos. .


sábado, 13 de maio de 2017

Pérola Negra



Já  no primeiro encontro que tive com a Indaiá Dillenburg, há  uns bons 12 anos, me quedei de paixão. Não tem como não gostar da  alegria contagiante dela, da risada  gostosa, do carinho esfuziante, enfim, daquele jeito de quem está de bem com a vida, curte as pessoas e as relações. Foi amor à primeira vista, tanto assim que cunhei para ela um  apelido do bem,  pelo qual ficou conhecida em toda a Prefeitura de Porto  Alegre, onde labutávamos: Pérola Negra. 

A orgulhosa negritude, contrastando com o sobrenome alemão, só é superada pelo orgulho da família,  que vive a celebrar nas redes sociais -  o maridão, as duas filhas e o neto  tão lindo  como o meu Augustão . Cidadã viamonense, baita profissional de Comunicação, conseguiu se impor e ser respeitada nos ambientes, sem sempre acolhedores, das plenárias  do Orçamento Participativo, o campo de atuação dela por mais de  10 anos. Com a Pérola não tinha hostilidade porque circulava com desenvoltura e naturalidade, tratando igualmente tanto as lideranças políticas como os despossuídos. Dava gosto ver ela cercada de gente, gargalhando diante de algum episódio ocorrido.  

Essa autêntica força da natureza passou a se dedicar agora à literatura. É uma das DezMioladas,  10 cronistas reunidas no livro com este título lançado recentemente pela  Farol3 Editores. É um momento delícia ler as quatro crônicas, cheias de  vida como  a  Pérola, mas não vou antecipar nada. Vai lá, compra o livro e confere.  

Foi o que fiz e aí caiu a ficha, eu que procurava há longo tempo uma parceira para o próximo livro – o Dueto. É ela, a Pérola, estava na minha cara e eu não enxergava. Bastou uma conversa, regada a cafezinho e tudo ficou acertado, com uma selfie para confirmar.  Dueto chega em setembro e  adianto o seguinte: reina grande expectativa.   


quinta-feira, 20 de abril de 2017

Procura-se uma parceira

Estou me sentindo extremamente rejeitado pelo naipe feminino, inclusive no âmbito familiar. Ocorre que ao tentar dar seguimento a minha incipiente carreira de escritor tenho buscado uma parceira para dividir uma obra que já tem até título – Dueto – mas nenhuma adesão. A rejeição começou com minha filha Mariana, considerada o melhor quadro literário da família, mas, na mesma medida, muito restritiva em dividir espaços e conteúdos, ainda mais com alguém metido a cronista com forte viés politicamente incorreto.
Eu devia pressentir que a negativa dela era  um mau presságio. Se nem os mais próximos confiam, o que esperar do mundo lá  fora?  Vou deserdar a ingrata e, sem esmorecer, continuo com a busca, que segue infrutífera. Até já  anunciei  em programa de TV, todo exibido, que estava bem encaminhada uma nova parceria que,  entretanto, não se consumou porque a talentosa autora está envolvida com outras prioridades no momento. Apelei para outra alternativa que  se mostrava promissora,  mas que não demonstrou muito entusiasmo com a empreitada.
Mais uma tentativa e uma conversa animadora, regada a expressos, e a bela e qualificada quase futura parceira acabou também desistindo por incompatibilidade de estilos, segundo ela própria, que recebe o meu respeito pela decisão.
Ou seja, continuo na estaca zero e com aquele sentimento de rejeição, que nem um tinto encorpado consegue minimizar.
Só me resta a inveja do pessoal da Farol 3 Editores, o Auber Lopes  de Almeida e o Paulo Palombo Pruss,  que conseguiram  não  uma mas dez mulheres, cada uma com quatro crônicas, para o livro DezMioladas, a ser lançado  dia 6 de maio.  Vou lá pra fazer um apelo: não me deixem só

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A pauta da Sexta-Feira Santa

Publicada originalmente em abril de 2012.
Repórter de plantão na Sexta-feira Santa enfrenta uma pauta obrigatória: a cobertura da encenação da Paixão de Cristo no Morro da Cruz, no Partenon, também conhecida como subida ou procissão do Morro da Cruz. O evento ocorre desde 1960, criado pelo padre Angelo Costa, já falecido, e cresce a cada ano, reunindo preferencialmente atores da comunidade. Lá no final da década de 80 do século passado este que vos fala era repórter de geral da Zero Hora, estava de plantão da Sexta-feira Santa e, claro, foi escalado para acompanhar a encenação.
Lembro bem que era um dia quente no final de março e para escapar das obviedades das coberturas tradicionais, decidi escolher dois ou três personagens interpretados por atores locais para, através deles, montar a minha matéria.  Um dos personagens era balconista de uma ferragem e intérprete do soldado romano que passava toda a encenação surrando, com uma espécie de relho, um dos ladrões, que na vida real era motorista de táxi.  É importante esclarecer que a encenação reproduz a Via Sacra  e suas 14 estações ou etapas do suplício de Cristo naquela sexta-feira, há mais de dois  mil anos. Só que alguns atores imprimem demasiado realismo a suas interpretações e era  caso do soldado romano que, volta e meia, pesava a mão contra o pobre e talvez bom ladrão. O infeliz olhava enfurecido para seu algoz, mas nada podia fazer durante a celebração religiosa, mesmo que o sacana legionário revelasse perversa satisfação em maltratar o companheiro de elenco.  Sei lá se não deu o troco após o evento. O soldadinho, um sujeito atarracado e malvado, bem que merecia.
O mais inusitado ainda estava para acontecer naquela encenação do século passado.  O gran finale seria a ascensão de Cristo, a partir da capelinha existente no platô do Morro da Cruz e onde ocorria o final da procissão.  O espetáculo no fim da tarde previa jogo de luzes, uma trilha épica e aqueles fumacinhas de shows,  que acompanhariam a subida do filho de Deus feito Homem aos céus. Um engenhoso sistema mecânico elevava o ator, com suas vestes brancas, enquanto ele recitava lições de religiosidade. O ator já era o ex-vereador Aldacir Oliboni, considerado a réplica moderna do Cristo, de acordo como mostram as ilustrações que conhecemos.
Pois bem, lá estava o Cristo- Oliboni exortando os fiéis quando, à esquerda do platô, começou uma movimentação frenética. “É ele, é ele, sim!”, repercutia a massa.  Vocês estão autorizados a pensar que era o próprio Cristo redivivo comparecendo ao seu velório, mas na verdade era quase isso, guardadas as proporções e o período histórico. Quem surgia triunfalmente era Sérgio Zambiasi no auge da sua popularidade. O Zamba foi cercado e festejado pela multidão, enquanto Cristo subia ao encontro do Pai,  lentamente e quase de forma incógnita. 
Oliboni ainda tentou atrair a atenção dos infiéis, gritando palavras de ordem pelo sistema de som:  “Cristo está aqui!  Cristo está aqui! Agora é o momento  glorioso da subida aos céus. Venham, venham, é aqui que está o Filho do Senhor! Demos glórias ao Senhor!”, apelava o bom Oliboni. Inúteis apelos.  A massa queria mesmo era confraternizar – e fazer pedidos – a quem mais tinha a oferecer naquele momento.  Entre os consolos espirituais que Oliboni inspirava e os materiais que Zambiasi poderia proporcionar  a escolha do povo pecou pelo pragmatismo, mesmo na Semana Santa.
Confesso que fiquei penalizado com a situação do Oliboni, supliciado durante toda a subida do morro e justo no momento da sua consagração como Cristo e ator o público o abandonava daquela forma, trocando-o por uma situação tão mundana.  De novo, mais de dois mil anos depois, a história se repetia e  o povo renegava Jesus Cristo. 
Insensível público, mas depois fiquei pensando que fatos como o que presenciei talvez expliquem porque Sérgio Zambiasi chegou a senador e Oliboni, mesmo sendo Cristo por um dia, só conseguiu assumir como deputado estadual, ainda assim vindo da suplência. Mas aí já é outra história, nada a ver com a Semana Santa.
Boa Páscoa a todos. Que o coelhinho seja mais generoso que a massa que renegou Cristo-Oliboni.




segunda-feira, 10 de abril de 2017

Bons e mau exemplos

Com sincero pesar fui atender à convocação dos proprietários da Palavraria, aquele simpático espaço cultural incrustado em pleno Bom Fim, para uma prestação de contas dos livros Crônicas da Mesa ao Lado comercializados  e devolução do que sobrou. Isso porque a Palavraria encerrou  suas atividades em 30 de dezembro, depois  de mais de dez anos de resistência promovendo a boa literatura.  Expressei minha solidariedade aos proprietários que explicaram que nos últimos dois anos a crise econômica atingiu em cheio o segmento, já que “cultura é tida  como supérfluo”, lamentam.  Nem os frequentes eventos que promoviam conseguiram segurar a onda contrária.

Feito o acerto de contas (sou um dos  mais de 400 listados para isso) fui ter  com outra guerreira, a  Lu Vilela, que há  20 anos mantém a Bamboletras no Centro Comercial Nova Olaria, na Cidade Baixa. A L u foi a primeira a aceitar comercializar o Crônicas, sem muita burocracia e devo reconhecer que o livro teve boa procura, tanto assim que fiz uma reposição e agora fui  receber o resultado das vendas.  Não deu para enriquecer, mas foi o suficiente para trocar por dois livros  infantis (Passarinhos  do Brasil , Poemas que voam, de Lalau e LauraBeatriz e o clássico Um  Menino Daltônico,  do inesquecível Carlos Urbim), que serão presenteados à Maria Clara e à Rafaela.  Grande Lu, as gurias agradecem.
Faço esses registros, positivos ambos, embora melancólico no primeiro caso, para contrastar com os procedimentos da Livraria Cultura, gigante  do setor que, além de não prestar contas dos  livros comercializados, também não dá  retorno aos pedidos de informações. Tenho conhecimento de que pelo menos sete exemplares foram vendidos na filial de Porto  Alegre, uma vez que fui chamado  para retirar 13 livros restantes, do lote de 20 que deixei em  consignação. Por ocasião da  retirada a informação é de que em  três meses  seria feito o repasse da grana. Já  se passaram seis meses e nada, apenas o silencio da administração em São Paulo.
O dinheiro é  o  que menos importa, até  porque a Cultura, diferente das outras parcerias que ficam com 20% a 30% do preço de capa, cobra 50%.  A gente  se submete porque quer ver a obra ser exposta numa grande livraria, facilitando para os eventuais interessados,  mas o mínimo que se exige é retorno que significa respeito.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Meu mundo caiu

Cada vez que vejo a cara contristada dos envolvidos na Lava Jato sendo levados pela Policia Federal lembro daquela música da imortal Maysa: Meu Mundo Caiu.  Vale o mesmo quando avalio os recentes casos  de celebridades  acusadas de assédio ou agressão à  mulheres e deixo  claro que não estou fazendo condenação prévia.  O fato é que, quando o assunto vem a público  e ganha manchetes na mídia,   o sujeito deve se sentir muito miserável. Tinha tudo, inclusive o sentimento de impunidade e daqui a pouco não tem mais chão, não tem mais nada, exceto a execração pública. Ah, se pudessem voltar atrás!


De início,   fico  sinceramente compadecido porque penso sempre na família dos envolvidos,  que é a outra vítima mais próxima dos malfeitos, embora, muitas vezes, também beneficiária no caso dos  desvios de dinheiro público. Passo a imaginar como os  filhos vão encarar  e ser recebidos pelos colegas na escola, ou o que vai dizer a esposa dos indiciados as suas amigas, o que não  vale evidentemente para a mulher do Sérgio Cabral. “Meu mundo caiu”, devem pensar.
Mas chega a hora em que o que cai é a ficha e  me dou conta de quem são as verdadeiras vítimas: todos  nós espoliados pela corrupção e todos aqueles que enfrentam as variadas formas de  preconceito e violência. E aí, diante  da magnitude e da perversidade dos  episódios, fico penalizado por mim e por todos,  porque foi meu mundo que caiu.
Pra compensar, feche os olhos e  imagine a maravilhosa Maysa interpretando "Meu mundo caiu":  
Meu mundo caiu
E me fez ficar assim
Você conseguiu
E agora diz que tem pena de mim

Não sei se me explico bem
Eu nada pedi
Nem a você nem a ninguém
Não fui eu que caí

Sei que você me entendeu
Sei também que não vai se importar
Se meu mundo caiu
Eu que aprenda a levantar
https://letrasweb.com.br/maysa/meu-mundo-caiu.html

terça-feira, 4 de abril de 2017

Prova de vida

-Vem cá, deixa eu te dar um abraço.
Quem pede é o Vitor  Hugo, tri secretário estadual (Cultura, Turismo e Esporte),  que  encontrara no subsolo da agencia central Banrisul, tratando, como eu, de burocracias bancárias.
-  Ué, pra quê tanto abraço ? - indago.
-  Porque sou a primeira pessoa a testemunhar que tu realmente está vivo.
Vitor  Hugo fazia referência ao  motivo que me  levara  ao banco : fazer prova de vida, convocado que sou, todos os anos, pela Previdência Social, sob pena de deixar de receber os magros proventos  da aposentadoria.   O bom tri secretário, amigo de longa data, parceiro de outras jornadas e recente prefaciador do livro DezMiolados, cometeu, porém, um equívoco, já  que a primeira testemunha de que eu sou eu mesmo - e bem vivinho -  foi a gerente de conta.
Nesse caso, a burocracia que nos exige prova de vida, certamente para combater  fraudes, revelou-se  uma dádiva para este que vos  fala.  Antes, meu gerente de conta era um rapaz  simpático, agora é uma moça simpática e muito bonita.
Fico  até com vontade de fazer prova  de vida todas as semanas, ou até que ela descubra que sou um despossuído financeiramente e me remeta para a vala comum  dos outros  correntistas. Seria muita chinelagem dessa interesseira. 

quarta-feira, 29 de março de 2017

Fui ao Fundo

Sou um dos felizes beneficiários da liberação das contas inativas do FGTS, até agora a melhor iniciativa do governo Temer. Nascido em janeiro, tive o benefício adicional de poder acessar a grana já na primeira leva. Dito isso, logo que saíram as primeiras informações sobre o processo tratei de pesquisar e descobri que existia um saldo do meu Fundo vinculado a uma fundação estatal, último emprego que tive no regime CLT.  
Passei e me ligar em todos os informes e entrevistas à respeito, que davam conta de que no caso de correntistas da CEF o depósito seria feito automaticamente em conta corrente ou de poupança. Era o meu caso e, finalmente, descobri pelo menos uma vantagem de  ter conta  na Caixa.
Ledo engano. Busquei os extratos pelo menos três vezes e nada do depósito da  grana que o Temer  me prometera.
Na primeira ida ao Centro (no período sabático que estou gozando evito ao máximo ir ao Centro) aproveitei para consultar  uma das gerentes de conta.  Perdi meu tempo.
- Lamento, mas o sistema está fora  do ar -, alegou a moça.
Já desenvolvi a tese que O Sistema é  que domina o mundo (http://viadutras.blogspot.com.br/2013/12/o-sistema.html ), mas isso é outro  papo. Continuei pesquisando os extratos e nada do dinheiro inativo virar ativo na minha conta.
Nova ida ao Centro e nova consulta à mesma gerente da Caixa, que pede um documento de identidade e passa pelo  menos cinco minutos digitando no seu computador e interagindo com O Sistema.
-  Realmente, está  aqui -, informou triunfalmente o que eu já sabia, e acrescentou:
- Trouxe a Carteira do Trabalho?
Tive que explicar que nas fundações estatais, como no serviço público em geral, as nomeações e exonerações ocorrem via Diário Oficial, não havendo, portanto, registro na Carteira do Trabalho. Seguiu-se um diálogo beirando o nonsense
- Então vou verificar quais os documentos que o senhor vai precisar trazer-, avisou a gerente.
- Como assim? Documentos? Moça, sou correntista. O dinheiro  deve ir direto  para a conta, ouvi isso nas entrevistas do próprio presidente da Caixa.
- Mas o senhor  não trouxe  a carteira -, insistiu ela.
- Não  trouxe  porque não é preciso  e, além disso, a conta está vinculada a uma fundação que não faz registro em carteira.
-  Vou ver qual é o procedimento correto -, escapuliu ela para um  espaço envidraçado, provavelmente em busca de socorro com um superior. 
Foi quando pude notar que a moça era bem apanhada, eu diria mesmo que se enquadrava como caldável. Decidi, então, que fosse qual  fosse a resposta não me exaltaria com ela. Poderia ser firme, mas haveria de ser cordato,  quase meigo, no trato com a musa bancária. Que voltou sorridente:
- Está resolvido. Não precisa trazer documento e em cinco dias úteis o dinheiro estará na sua  conta.
Agradeci, afetando entusiasmo e me despedi com elogios à presteza e eficácia  do atendimento.
O que a gente é obrigado a fazer por R$ 18,36!

domingo, 26 de março de 2017

DezMiolados e desmiolados

Éramos nove (o Paulo Motta foi desfalque sentido de última hora) feito guris que vão sair pela primeira  vez com a namorada, consumidos pela ansiedade.  Os mais ansiosos eram o  Auber Lopes de Almeida, já por natureza agitado,  e o Paulo Pruss, normalmente a tranquilidade em pessoa. Afinal eles eram os  principais responsáveis pelo motivo que nos reunia no Centro Municipal de Cultura num sábado à tarde (25/03) -  o lançamento do livro DezMiolados.
A grande ansiedade dizia respeito a uma única questão: Será que vai aparecer gente?  Vale repisar que DezMiolados foi uma sacada do Auber e do Paulo, que conseguiram reunir gente que gosta de escrever e se expressava especialmente nas redes sociais. Gente de variados  perfis profissionais – engenheiro, arquiteto, médico, administrador, publicitário  e sobretudo jornalistas. Os textos, quatro por autor, tem predominância de crônicas, mas são oferecidos  também contos e resgates de personagens e instituições de Porto Alegre. Ou seja, uma obra atraente.
“Mas será que vai aparecer  gente?, ”, insisti com o Pedro Chave, companheiro jornalista de outras jornadas, que tive o prazer de reencontrar graças ao DezMiolados.  “Tem que ser muito desmiolado para vir aqui”, alguém, talvez eu mesmo, fez a graça óbvia, mas ninguém riu porque persistia no ar aquela tensão da espera.
O lançamento fora bem  divulgado, com entrevistas  no programa do Felipe Vieira na TV Urbana, no Estação Cultura da TVE, como Newton Silva, no programa do Bibo Nunes, na FM Cultura, com o Luiz Dill  e no Show de Bola, da Rádio Gáucha, com o Zé Alberto Andrade, além de alentadas notas nas bem frequentadas colunas do Roger Lerina na ZH e do Fernando Albrecht, no JC. Isso sem contar as redes sociais que, afinal, foram a origem do projeto que estava se materializando.
“Mas será que vai aparecer gente?”,  cada um se perguntava.
As cinco da tarde em ponto abrimos os trabalhos e o povo foi chegando aos  poucos. A cada autógrafo a tensão diminuía.  Fiquei entre o Pedro Chaves, mais o Serginho Araújo e o Carlos Leão (o arquiteto) e contabilizávamos ao longe a pilha de livros  diminuindo.  A cada leva que chegava, comentávamos, Pedro e eu, entre reminiscências e propostas para reformar o jornalismo e a civilização ocidental:
- Mais um ônibus chegando do Interior! Assim que baixar a ponte do Guaíba vem mais...
Depois dos ônibus vieram as  kombis, e na sequencia os  carros médios e pequenos, motos, bicicletas,  até que o Pedro, impaciente, vaticinou:
- Só está faltando o skatista.
E não é que, de repente, surgiu no recinto  um garoto com seu skate na  mão, mas parece que não estava interessado no nosso livro e sim  num espetáculo de dança que logo começaria no Teatro Renascença. Diferente dele, foi saudada com entusiasmo a última compradora, a sobrinha do escritor Josué Guimarães, cujo nome me escapa e que conseguiu reunir  novamente os dispersos  dezmiolados para o derradeiro autógrafo e uma foto coletiva.
Foi quase uma centena de presenças entre compradores e prestigiadores. Acho que levei alguma vantagem sobre os outros confrades porque a família é grande e esteve presente com força no evento, incluindo os netos, além de amigos e amigas de fé.  
Participar da coletânea foi uma experiencia e tanto, mesmo que metade dos parceiros de livro eu só viesse a conhecer em função da obra, ou por isso mesmo.  E, embora não  nos  mova ficar rico com o livro,  o lançamento já garantiu o retorno do investimento.
Valeu Anderson Cerva,  Auber Lopes de Almeida, Carlos Dreyer, Carlos  Leão, Paulo Motta, Paulo Pruss, Pedro Chaves, Ronaldo Bastos e Sergio Araújo.
Agora, que venham as DezMioladas, próximo desafio literário da Farol 3 Editores.


sábado, 11 de março de 2017

Contos da Mesa ao Lado: A Mulher de Óculos Escuros

*Publicado originalmente em 19/10/2009 e não custa alertar: é ficção.

Sivaldo, funcionário público, meia idade, era muito preocupado com o que escreveriam no seu obituário, se é que mereceria algumas linhas destacando sua trajetória pessoal e profissional. Sabia que não haveria muito a dizer, além dos registros obrigatórios, sua preferência clubística, onde trabalhou, um ou outro projeto em que esteve envolvido, talvez a opinião generosa de algum ex-colega ou familiar. Não, certamente ele não mudara o mundo nem influenciara pessoas.

O que Sivaldo temia, na verdade, era a possibilidade de eventos com potencial de escândalo no seu enterro. Traduzindo: presenças femininas indesejáveis. Por isso, tratou de se prevenir e foi enfático na recomendação a seus irmãos e a um amigo de fé:

- Se aparecer alguma mulher de óculos escuros, que vocês não conheçam, façam o que for necessário para tirar ela do recinto. Não quero escândalo no meu velório.

A preocupação se justificava. Queria preservar a família, a futura viúva e os filhos, de um vexame na hora da dor. Ele não estaria lá para se explicar, a não ser amorfamente como defunto, incapaz de reagir a um potencial barraco. Por isso, insistia com os irmãos.

- Não quero escândalo no meu velório. Cuidado com as mulheres de óculos escuros.

Tinha uma implicância com mulher de óculos escuros em velórios e enterros. Achava que os óculos encobriam olhares irônicos, cínicos ou ressentidos, próprios de uma ex, em relação ao morto e os presentes no ato fúnebre. Olhares do tipo “eu sei que vocês sabem quem sou e o que sei”.

Ainda estava vivo na sua memória o acontecido com um parente, encontrado morto em circunstâncias suspeitas – numa cama de motel, dentro do carro, jogado na rua, eram as versões, mas sempre ressalvando que ostentava um último esgar de satisfação.

Sucede que no dia do enterro do parente, um primo distante, apareceu a outra, calça jeans apertada,com os temíveis óculos escuros, dos bem grandes, e um filho no colo, exigindo seus “dereitos”. Não dava para negar a descendência: a criança, com dois ou três anos, era a miniatura do defunto, o mesmo cabelo encaracolado, o nariz levemente achatado e os olhos vigilantes do ex-parente. E a mãe ainda batizara-o de Junior, agregado ao nome do “pai”. Cildo, de Oracildo, Junior.

Então, aconteceu a cena clássica e patética. A mulher se debruçou sobre o caixão, com o Cildinho chorando no colo e gritava:

- Me leva junto, mor. A vida não tem mais sentido pra mim e pro Junior. Nós queremos estar contigo para sempre. Leva a gente, mor! assim mesmo, na forma reduzida de amor.

Não se viu uma lágrima derramada pela moça, talvez por causa daqueles enormes óculos de camelô, certamente um presente do falecido. Mas a dramatização era convincente.

- O que vai ser de mim e do Junior agora que ele nos deixou, choramingava a moça.

O velório virou um fuzuê. A viúva teve um faniquito e os filhos do ex-parente, já taludos, queriam partir para a agressão à incômoda visitante. Como mais alta autoridade presente no recinto, foi chamado a intervir.

- Minha senhora, permita que eu lhe explique algumas coisas, mas fora daqui, abordou jeitoso.

- O senhor não entende. O que aconteceu foi uma desgraceira. O que será de mim e do Junior agora, insistia a inconveniente.

O burburinho do ambiente já tomava proporções incontroláveis e ele negociando com a moça.

- Minha senhora, vamos lá fora conversar. O Oracildo falava muito bem da senhora e deixou instruções para que a gente cuidasse do caso, se ele viesse a faltar, continuou cerimonioso, insinuando providências prévias que nunca foram tratadas.

- Ah, é? Ele falou de mim e do Junior? O que ele disse? O que ele pediu?

A moça agora estava acesa com a possibilidade de algum legado deixado pelo falecido.

(continua)
Não se conhecem os desdobramentos futuros do caso, mas o fato é que a moça se acalmou e se retirou do ambiente fúnebre, com o Junior a tiracolo. Assim a família e os amigos puderem prantear seu ente querido sem outras interferências. A família, na verdade, estava vexada com o incidente. Todos sabiam que o falecido não era o que se poderia classificar de cidadão e chefe de família exemplar, mas daí a constituir outro lar no paralelo passava das medidas. Certamente o ocorrido já estava na boca do povo e seria motivo de muitas conversas entre as comadres e nas mesas de bares, uma situação insuportável. Já os amigos, testemunhas ou companheiros de algumas farras do falecido, não estavam nem aí para o constrangimento da família. Nessa hora é que a gente sabe quem são os verdadeiros amigos, pensou Sivaldo, com uma ponta de amargura.

Todas essas preocupações não saiam da cabeça do bom Sivaldo cada vez que imaginava como seria sua passagem para outra dimensão. Tinha claro que a família seria a principal vítima se houvesse algum escândalo como o ocorrido com o parente. Coitados, teriam que administrar um legado inconveniente e indesejado. Foi então que começou a fazer uma retrospectiva das vezes em que pulou a cerca, tentando identificar potenciais fatores e pessoas de risco.

Ele tinha certeza de que não apareceria nenhuma ex com filho no colo, a não ser que fosse armação, que um simples exame de DNA desmentiria, embora não evitasse o vexame e o diz-que-diz no velório. “Afasta-te de mim, pensamento diabólico”, dialogava internamente. Sivaldo sabia que uma ex, no oficial ou no paralelo, era encrenca para a vida toda, inclusive na hora da passagem para a vida eterna.

Ao passar a limpo a vida pregressa, registrou poucas transgressões, mas algumas foram bem escabrosas e outras bizarras. Ele lembrava bem o caso com uma contorcionista de um circo mambembe, que conhecera num boteco após a matiné. A moça atuava também como ‘partner’ do domador das feras e nas horas vagas fazia contorcionismos na cama e ronronava como um felino. O caso durara exatos 15 dias, o tempo de permanência do circo na cidade, mas suficiente para encontros diários num hotelzinho barato perto de onde as lonas circenses estavam instaladas. Não, pensou, essa não vai dar trabalho, o circo já deve ter sido desfeito e a moça provavelmente está exercitando seu sotaque castelhano, com viés catarinense, em outras plagas.

Depois veio o caso com aquela ex-freira, carente de afeto e de sexo, que decidiu descontar com ele os atrasados. O caso não prosperou por muito tempo porque a moça, ainda apegada aos preceitos religiosos, recusou-se a atender um fetiche dele para comparecer a um encontro vestida com o hábito de freira. Achava, entretanto, que a ex-freira, até pela sua formação, não se prestaria a um escândalo, mesmo porque agora dividia seus lençóis, devidamente casada, com um ex-seminarista.

Teve ainda aquele caso com aquela garçonete que precisava tomar um longo banho após a lida no restaurante e antes da lida sexual para minimizar o cheiro de fritura impregnado no corpo dela. Mesmo assim, às vezes ele achava que estava transando com uma batata frita ou um filé à parmegiana. Mais tarde, descobriu que ela dividia seus favores sexuais também com o marido de uma amiga, conforme confissão do próprio, o que conduzia a situação a um dilema: quem era o outro da outra? A garçonete talvez viesse a incomodar, mas ele torcia para que o marido da amiga fosse importunado em seu velório antes do que ele.

Registrava, com um misto de saudade e preocupação, o caso com aquela socialite casada, que lhe dava boa vida e todos os prazeres sexuais imagináveis. Foi o único caso com mulher casada e o escabroso da história é que o marido sabia e aparentemente não se importava com o relacionamento extraconjugal da mulher, tanto assim que os encontros eram na bela cobertura do casal. O caso terminou no dia em que o marido invadiu o quarto onde transavam e quis participar da brincadeira, insinuando-se mais para o amante do que para a mulher. Aí já era muita devassidão e Sivaldo tinha valores a preservar. A socialite, com sua coleção de óculos escuros de todas as grifes, era um perigo em potencial.

Começou a pensar em casos mais recentes e as preocupações aumentaram. Entre outros, houve aquele envolvimento com uma colega mais moça, que ele lutou muito para conquistar e depois viver uma relação de mais de três anos. Foi um relacionamento intenso e tumultuado. Intenso porque se permitiam tudo e tumultuado porque eram muito diferentes em quase tudo e só convergiam mesmo na hora do sexo. O rompimento fora traumático e isso deveria acender o alerta, mas conhecia bem o estilo da moça e ficava mais tranqüilo. Era uma dissimulada e se comparecesse ao enterro o faria com muita discrição e um belo óculos escuros, só para ter certeza de que estava mesmo morto.

Puxa, tão poucos casos e tanta angústia. Mas só de pensar no assunto, começou a sentir fortes dores no peito. “Será que chegou a minha hora?”, apavorou-se. “Vou ter que ligar para os meus irmãos para alertar sobre a mulher de óculos escuros...”


domingo, 5 de março de 2017

Coisas de mulher

O competente repórter Matheus Schuch, atualmente exilado em Brasília, postou outro dia uma análise sobre a obsessão das mulheres na sua relação com os potinhos, aqueles recipientes de plástico que servem para  acondicionar desde sobras  de comida  a quitutes que alguém preparou com carinho para nos agradar. Os tais  potinhos envolvem rituais de extremo rigor , sendo o mais importante o ato de devolvê-lo à proprietária. “Vocês podem esquecer de devolver qualquer coisa, mas a displicência com um potinho vai trazer consequência graves”, adverte o Matheus.  Pelo jeito, o jovem repórter deve ter enfrentado algumas broncas por  causa  de potinhos esquecidos  ou  extraviados.
Choveram comentários  na  postagem do repórter, a maioria de moças e senhoras, que confirmaram a constatação  dele e reforçaram a importância crucial da devolução, acrescentando que é  de bom tom não devolver a embalagem vazia, retribuindo  com alguma guloseima. Ah,  essas interesseiras, sempre exigindo reciprocidade.
Sei bem da utilidade dos potinhos nas lides domésticas, aqui em  casa não é diferente.  Mas o que me encanta mesmo é -  e atentamente observou o Matheus no caso dos  potinhos -  a dedicação do  naipe feminino  à determinados processos ou a certas formas de agir que podem levar a nós, os ansiosos masculinos, à  loucura.  O melhor exemplo é o manuseio da bolsa, aquele frenético ato em busca do molho de chaves, da carteira e, na pior das hipóteses, do celular que fica berrando para ser atendido. O mexe, remexe parece durar  uma eternidade até o encontro do  que procuram. A situação adquire contornos de dramaticidade quando a busca da carteira ocorre junto ao terminal eletrônico dos bancos, enquanto a fila de marmanjos resmungões vai crescendo atrás. E nada de surgir o cartão de crédito.  

Porém, não  quero passar a ideia de execração às mulheres pela devoção aos potinhos ou pelas atrapalhações com as bolsas. Não mesmo, ainda mais agora que se aproxima o Dia Internacional da Mulher. Na real, até mesmo as duas situações tem lá seu charme e é na simplicidade dessas ações cotidianas que se sobressai o valor feminino.  Ou, como já escrevi num momento de arroubo, reafirmo  que hoje e sempre gostaria que fosse realçado o lado divino, a porção celestial das mulheres, aquilo que elas tem de sublime e que nos leva a amá-las com toda a nossa energia e cometer loucuras de apaixonado em nome desse sentimento que, com certeza, merece as bênçãos da divindade. Mesmo que as vezes sejamos atazanados por causa de um potinho e de qualquer coisa perdida numa bolsa.