terça-feira, 25 de maio de 2010

A formatura

Minha santa mãe, a dona Thélia, jamais me perdoou por não ter sido convidada para a minha formatura no Jornalismo da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação, a Fabico da UFRGS. Acho que foi lá pelo ano de 1977, quando retornei ao curso para conseguir me graduar, depois de três anos afastado. À época trabalhava na Rádio Guaíba, já estava casado, passava férias em Florianópolis e precisei vir a Porto Alegre apenas para a formatura. A viagem foi em grande estilo, de avião, pela falecida Vasp, eu e minhas sandálias franciscanas, uma calça jeans surrada e camiseta.

E foi assim que me apresentei para a formatura numa das salas da Fabico, no final da manhã. Aqui cabe explicar que a turma da faculdade era um tanto alternativa, para não dizer anárquica, naqueles idos dos anos 70 do século passado. Eram uns 30 formandos, grande parte deles já veteranos, só esperando receber o canudo para regularizar a situação profissional. Mas ninguém escaparia ao ritual exigido para as formaturas, mesmo que de forma discreta e em sala de aula. Pelo que lembro, apenas uma colega teve a coragem de convidar a família para a cerimônia.

Os coitados dos familiares ficaram chocados com a algazarra que a turma fazia a cada nome chamado para o juramento profissional. Ao final, o professor Guerreiro, diretor da faculdade e condutor da cerimônia, fez uma fala breve e cumpridora. Em seguida tratou de encerrar o ato, porque um dos gaiatos formandos ameaçava com um discurso e homem não queria correr riscos de ouvir mais bobagens ou alguma critica ao regime ditatorial que vigorava no Brasil de então.

Depois da formatura, aproveitei para filar o almoço na casa da dona Thélia. Foi quando ela teve o choque:

- Veio para a formatura? Que formatura? E por que eu não fui convidada? Menino, isso não se faz com uma mãe!

Dona Thélia sempre prezou que os filhos cursassem a universidade e a formatura era o ápice desse orgulho materno. Acho que eu era o primeiro filho a se formar, não em arquitetura como ela gostaria, porém em Jornalismo que ela apenas tolerava, mas isso pouco importava diante da insensibilidade de não convidá-la para a cerimônia. Era muita desfeita para uma mãe zelosa com o futuro dos seus rebentos. Dona Thélia era uma figura, calabresa na origem por parte de mãe e, até por isso, não media as palavras quando era desfeitada.

- Olha o que este menino me aprontou. Não me convidou para a formatura, eu que sonhei com isso toda a vida.

Estava me sentindo o pior dos filhos e não adiantava explicar a simplicidade da cerimônia ou que eu não dava tanto valor ao ato.

- Pra ti pode não ter valor, mas pra tua mãe era muito importante. Agora o que eu vou dizer para as tuas tias e as amigas da Igreja?

Essa era a chave para compreender o tamanho da frustração da dona Thèlia, que mantinha uma disputa velada com suas irmãs e as amigas devotas, comparando quem tinha mais filhos na universidade. Que curso sem valor era esse que o filho tinha vergonha de levar a mãe para a formatura? Dona Thélia perdia pontos preciosos na competição e isso eu só avaliei durante o sermão naquele indigesto almoço. (Ela dava tanto valor as formaturas que, anos antes, no colégio Rosário pediu ao Irmão José Otão, então reitor da PUC, para que me entregasse o diploma de conclusão do curso ginasial. O bondoso irmão concordou e lá fui eu, todo pimpão, de fatiota, receber o canudo da mais alta autoridade da mesa)

Deve ter sido praga de mãe, e praga poderosa, as torturas a que tenho sido submetido, desde então, em formaturas. Já vi de tudo: formatura com dois paraninfos, vale dizer dois longos discursos, dancinhas no palco, cultos ecumênicos, discursos inflamados, brincadeiras de mau gosto, cornetas e apitos a mil, estapafúrdias seleções musicais dos formandos e muito mais, consumindo pra lá de três horas. Padeci com dois ou três discursos da ex-reitoria da Ufrgs, Wrana Panizzi, que adorava uma formatura e nunca falava menos de 45 minutos. Suportei, certa vez, um paraninfo que relatou o histórico e a evolução da Contabilidade através do tempo. O pessoal batia palmas cada vez que ele trocava de folha, mas o sujeito continuava impávido. Em outra circunstância, o diretor da faculdade esqueceu o barrete na Ulbra, em Canoas, atrasando a cerimônia em uma hora, tempo em que fomos brindados com um concerto de música bate-estaca a todo o volume.

A partir dessas experiências, cunhei o termo "formatortura" para expressar meu desagrado com as longas e chatas cerimônias, o que a Reitoria da UFRGS, em boa hora, quer disciplinar, racionalizar e simplificar. Dou força, mas sei que não vai ser fácil. A formatura é rito de passagem, mesmo que seja para uma carreira profissional incerta. Para os pais, representa o resultado final de um investimento, mais do que financeiro, na geração futura. E existe toda uma lucrativa indústria em torno das formaturas, faturando em cima desse momento, de grande apelo emocional porque pode ser único na vida das famílias.

Devo confessar que também fiz minhas macaquices e curti muito as formaturas dos meus filhos mais velhos – Rafael em Educação Física e Flávia em Psicologia. Nas duas cerimônias, foi inevitável a lembrança da mágoa e da frustração da dona Thélia por não ter participado da minha formatura. Ali estava eu, feliz da vida com o sucesso dos meus filhos, mas carregava a culpa de não ter permitido que a dona Thélia realizasse o sonho de ver seu filhinho formado, mesmo que fosse em Jornalismo. Deu nó na garganta. Mãe, como eu gostaria de poder voltar no tempo e reparar aquele equívoco da juventude. (Entendeu Mariana?)

* Mariana, meu nenê, vai se formar este ano em Relações Públicas na mesma Fabico. Aí mora o perigo.