1932. Estava prestes a iniciar a batalha de Itararé. Ninguém ignorava que ela seria decisiva. Cresciam o vozerio e a barulheira das armas, em expectativa, no acampamento das tropas avançadas do Rio Grande, contra a Revolução Paulista, que reclamava a imediata constitucionalização do País, indefinidamente protelada por Getúlio.
De repente, o silencio: irrompia no horizonte um avião, arma desconhecida pelos gaúchos. Às ordens de comando, todos atiram-se ao chão. Todos, menos um cadete de 16 anos.
De pé, advertido sobre o perigo, Dastro respondeu:
- Pois que venha esse aviãozinho! Eu é que não vou sujar minha farda por causa dele.
E continuou de pé.
E de pé, se manteve a vida inteira.
Na Academia de Polícia Militar. E no serviço ativo, em Livramento, em Rio Grande, em Santa Maria e Porto Alegre. Contra todas as ameaças e adversidades ele permaneceu, invariavelmente de pé. Tal como aos 16 anos, na iminência da batalha. De pé sempre, para o que desse e viesse.
Naquele tempo, era generalizada – dogmaticamente generalizada – a convicção de que o sacerdote, o juiz e o soldado devem contar apenas com o estritamente indispensável para sobrevivência espartana.
E Dastro enfrentou, de pé, as agruras da severa pobreza que a Brigada Militar oferecia a seus oficiais e soldados. Ele e Thélia, também admirável, com seus nove filhos.
Chamado ao cargo de Diretor do Departamento de Limpeza Pública de Porto Alegre – hoje DMLU -, Dastro logo se impôs ao respeito e admiração gerais. Respeito pela eficiência que imprimiu ao serviço. Admiração pelas iniciativas inesperadas, com que soube conquistar a cooperação entusiástica dos subordinados.
Assim, organizou uma padaria, cujos produtos eram entregues a preço de custo, aos funcionários do DLP. E uma farmácia, cujos medicamentos eram fornecidos a preço de custo. E um refeitório, com as refeições servidas, também elas, a preço de custo, aproveitando-se os legumes e hortaliças cultivadas na área do DLP.
Ele fez do seu Departamento uma grande família, com tais iniciativas, implantadas sem qualquer acréscimo de despesa, pois o pão, o medicamento e as refeições, tudo, tinham o preço rigorosamente apurado, sem deixar lucro e nem prejuízo. Era natural, pois, que os servidores trabalhassem, em sistema de rodízio, sem qualquer remuneração, pelos serviços prestados nessas organizações, em vista dos benefícios obtidos.
Até com máquinas de lavar roupa Dastro conseguiu presentear as mulheres dos seus funcionários, máquinas de madeira, construídas conforme plantas que obteve da Organização dos Estados Americanos.
Para muitos, está claro que a atividade desse brigadiano, Diretor do Departamento de Limpeza Pública, era desconfortável, demasiadamente incômoda: quais seriam as verdadeiras intenções dele? Onde pretendia chegar?
E, inesperadamente, Dastro foi substituído, para espanto e desconsolo de quantos tinham trabalhado sob suas ordens.
Mas é claro que ele continuou de pé. E foi chamado para a direção do Presídio Central, onde se repetiram os êxitos alcançados no DLP, até ser demitido pelas manhas e artimanhas dos muitos ofendidos com o trabalho incansável e os sucessos de Dastro.
Basta lembrar que, ao saberem da substituição de Dastro, os presos, no mesmo instante, se rebelaram exigindo o imediato retorno dele ao cargo! Não, não se sabe de ninguém, nem mesmo por ouvir dizer, não se sabe de um só diretor de presídio no mundo inteiro, cujos detentos tenham se amotinado, para mantê-lo no cargo.
Mais admirável ainda é que o motim só tenha terminado mediante a intervenção de Dastro, junto aos presos, a pedido do próprio Governador do Estado e do Cardeal Vicente Scherer.
Sim, Dastro manteve-se de pé, fossem quais fossem as ameaças e circunstâncias. 90 anos de pé.
Nunca sujou a farda.
Nunca sujou o coração.
Nunca sujou a alma.
Homem de fé, exemplar daquela velha raça, desgraçadamente em extinção, a dos cavaleiros sem medo e sem mancha - “sans peur e sans reproche” -, honra e glória da humanidade.
* Trecho do prefácio de Justino Vasconcellos para o livro “90 anos de histórias”, que a família Dutra editou em 2005 por ocasião dos 90 anos do nosso pai, coronel Dastro de Moraes Dutra. Ontem, poucos meses depois de celebrarmos seus 95 anos, o velho guerreiro nos deixou. Só a doença e o peso da idade conseguiram vergar o Coronel, que cumpriu plenamente sua missão entre nós, legando principalmente valores e um exemplo de vida.
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sexta-feira, 15 de outubro de 2010
sábado, 8 de maio de 2010
O Circo de Petrópolis: célula subversiva na casa do Coronel
* Recomenda-se ler postagem anterior de O Circo de Petrópolis
Durante a experiência radiofônica da Rádio Vanguarda, certo dia um amigo da família apareceu com um pequeno transmissor, montado de forma rudimentar sobre uma plataforma de alumínio. Era um equipamento de baixíssima potência, atingindo cerca de 50 a 100 metros. Mas a coisa funcionava, utilizando freqüências no dial selecionadas por algum dispositivo que escapava a nossa compreensão. Tratava-se do bisavô dos atuais equipamentos das rádios piratas, que hoje interferem nas transmissões legalizadas.
O Rogério Morganti, hoje empresário e sempre voluntarioso, candidatou-se a testar o real alcance do aparelho e saiu às ruas, com um rádio portátil colado ao ouvido, enquanto o Telmo,irmão mais velho e conhecido por Alemão, locutava pelo transmissor. Quando imaginou que o Rogério estava na altura da 8ª Delegacia, na Protásio Alves, a quadra e meia da nossa casa, o Telmo começou a berrar na transmissão:
- Ladrão, subversivo! Prendam esse sem-vergonha! Ladrão, subversivo!
Atônito e apavorado, Rogério tratou de voltar apressadamente à base, eis que a Oitava era conhecida pelo seu temível porão, um depósito de ladrões e outros meliantes, além do quê vivíamos em plena ditadura e a pecha de subversivo não era recomendável naqueles anos de chumbo. De volta a casa, esbaforido, olhando para todos os lados para certificar-se que não estava sendo seguido, Rogério desabafou, diante da gargalhada geral da turma
- Pó, Alemão, sacanagem, né. E se os “ratos” ouvissem a transmissão!?
Por via das dúvidas, nunca mais nos aventuramos a usar o transmissor da sacanagem. Mesmo porque o chefe da casa, o mítico Coronel Dastro Dutra (na verdade, tenente-coronel da Brigada, mas ele nunca recusou o tratamento hierárquico superior), era conhecido e respeitado pelos delegados e policiais da DP e não ficaria bem uma “célula subversiva” nas barbas da Oitava, ainda mais na casa de um milico.
Durante a experiência radiofônica da Rádio Vanguarda, certo dia um amigo da família apareceu com um pequeno transmissor, montado de forma rudimentar sobre uma plataforma de alumínio. Era um equipamento de baixíssima potência, atingindo cerca de 50 a 100 metros. Mas a coisa funcionava, utilizando freqüências no dial selecionadas por algum dispositivo que escapava a nossa compreensão. Tratava-se do bisavô dos atuais equipamentos das rádios piratas, que hoje interferem nas transmissões legalizadas.
O Rogério Morganti, hoje empresário e sempre voluntarioso, candidatou-se a testar o real alcance do aparelho e saiu às ruas, com um rádio portátil colado ao ouvido, enquanto o Telmo,irmão mais velho e conhecido por Alemão, locutava pelo transmissor. Quando imaginou que o Rogério estava na altura da 8ª Delegacia, na Protásio Alves, a quadra e meia da nossa casa, o Telmo começou a berrar na transmissão:
- Ladrão, subversivo! Prendam esse sem-vergonha! Ladrão, subversivo!
Atônito e apavorado, Rogério tratou de voltar apressadamente à base, eis que a Oitava era conhecida pelo seu temível porão, um depósito de ladrões e outros meliantes, além do quê vivíamos em plena ditadura e a pecha de subversivo não era recomendável naqueles anos de chumbo. De volta a casa, esbaforido, olhando para todos os lados para certificar-se que não estava sendo seguido, Rogério desabafou, diante da gargalhada geral da turma
- Pó, Alemão, sacanagem, né. E se os “ratos” ouvissem a transmissão!?
Por via das dúvidas, nunca mais nos aventuramos a usar o transmissor da sacanagem. Mesmo porque o chefe da casa, o mítico Coronel Dastro Dutra (na verdade, tenente-coronel da Brigada, mas ele nunca recusou o tratamento hierárquico superior), era conhecido e respeitado pelos delegados e policiais da DP e não ficaria bem uma “célula subversiva” nas barbas da Oitava, ainda mais na casa de um milico.
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