quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Faro fino e outras artimanhas

Diga-me o que bebes e te direi quem és. Adapto um velho ditado para relatar a história que me foi contada por uma amiga, ocorrida durante encontro de um grupo de casais. Uma das moças do grupo apresentava seu novo namorado, jovem bem apessoado, e logo nas apresentações surgiram dúvidas sobre a masculinidade do rapaz. Mulher é bicho esperto e logo sente quando algo diferente paira no ar. Foi o sucedido neste episódio. Nas escapadas ao banheiro – mulher sempre vai ao banheiro em bando – a maledicência correu solta:

- Será que ele é? Indagava uma.
- Jeitinho ele tem, completava outra.
- Coitada da fulana, não dá sorte mesmo, solidarizava-se uma terceira.

Do bar ao banheiro, do banheiro à pista de dança, a conversa girava sempre em torno do mesmo assunto. Os olhos femininos não desgrudavam do sujeito e os ouvidos estavam mais aguçados do que nunca, a espera de uma falseta. É bem verdade que as atitudes do rapaz ajudavam. Gestos afetados, olhares fugidios para outros rapazes, pouca interação afetiva com sua parceira, tudo isso contribuía para aumentar as suspeitas do mulherio. Mas o que confirmou mesmo o que elas suspeitavam ocorreu na hora de pedirem a primeira rodada de bebidas. As mulheres preferiram espumante ou refrigerante, os homens cerveja ou vinho. Quando chegou a vez dele, o pedido provocou espanto:

- Pra mim um Cooler. De Pina Colada, please. Adoro bebidinhas alcoólicas adocicadas!

As mulheres se entreolharam e não precisaram dizer mais nada. Era!
Relato a história não para fazer juízo de valor sobre o que seria um comportamento preconceituoso dessa minha amiga e de suas colegas, mas para destacar esse fino faro feminino para distinguir o detalhe que faz a diferença. Entretanto, há outro aspecto que os pretendentes às moças dessas confrarias femininas, devem estar atentos: só com a aval das confrades a relação tem chances de prosperar. É preciso primeiro conquistar as amigas, para depois consolidar o relacionamento com a musa escolhida.

Oferecer caronas a todas, mesmo que cada uma more em extremos da cidade, pagar as contas em bares e restaurantes, interessar-se por aquelas conversas femininas sem nenhum conteúdo, enfim, interagir com o grupo, sem ser muito saliente, são iniciativas apreciadas por esse verdadeiro tribunal de inquisição. Porém, se o ritual não for seguido, recomenda-se uma boa estratégia de contramedidas para as sabotagens que virão, e virão insidiosamente como só as mulheres sabem fazer. Nada será feito às claras, mas a desqualificação da vítima estará implícita em cada gesto, em cada frase. Exemplos: o moço engrena uma conversa e é abruptamente interrompido, com a troca para um assunto nada a ver. Ou, então, o sujeito tenta puxar conversa e a outra parte faz cara de paisagem, como se a pessoa não existisse. Pior são as frases soltas, as indiretas, as histórias que se referem a terceiros, mas que buscam analogia com o alvo escolhido.

- Sabe a Fulana? Flagrou o namorado na saída de um bar gay, aos beijos e abraços com um garotão. Tem mulher que é cega...

- E a Beltrana que me confidenciou que o namorado não dá no couro. Mas não espalha porque ela me contou em segredo.
- Conheço cada casal estranho. Um não tem nada a ver com o outro. Não sei como continuam juntos...

E por aí vai a maledicência, sempre evitando o confronto direto, tanto assim que o moço que caiu em desgraça não terá direito nem a ser nominado, passando a ser tratado por “aquele outro”.

Na verdade, essa ação nefasta tem outra vítima: a moça pretendida, que fica impotente diante do comportamento das amigas. Ela pode estar apaixonada pelo sapo que imagina príncipe, mas jamais vai contrariar o veredicto das confrades, que decretaram que o príncipe é sapo, sem direito a apelação. Caso contrário, vai penar no limbo das relações entre as suas iguais e isso mulher alguma consegue aceitar.

Na maturidade, a situação tende a ser pior. Imaginem um grupo de peruas descasadas sendo apresentadas para o novo namorado de uma delas, que depois de muita batalha conseguiu desencalhar e está convencida que encontrou finalmente sua alma gêmea. Acompanhem agora as impressões das amigas sobre o cidadão;

- Tem todo o jeito de ser casado e cheio de filhos.
- Sei não, acho que é gay.
- Tem cara de pé rapado.
- Xiii, é parecido com o meu ex, que era uma boa porcaria.

E lá se vai mais uma alma gêmea para o purgatório, senão para o inferno.
Nada contra o sujeito. É que mulher mal-revolvida e carente detesta a felicidade alheia e parte do pressuposto que cada uma que se emparceira de novo, é uma a menos na confraria. E aí é que vem o grande temor, a maldição das maldições: será que vou sobrar só eu?

Publicado originalmente em Coletiva.net, em julho de 2009