sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Circo de Petrópolis: O Fim da Várzea

“Era tanta palhaçada que para virar circo só faltava a lona”

Nem só de momentos gloriosos foi construída a nossa carreira de atletas amadores nos campos de Petrópolis. Lembro que em determinada época fazíamos parte dos aspirantes do Grêmio Esportivo Bagé, treinados pelo Silvio Carroceiro. A sede ainda existe ali junto a Praça Tamandaré, entre as ruas Caçapava e Taquara. Os aspirantes faziam a preliminar dos jogos do campeonato amador da cidade, normalmente às duas da tarde, logo depois do lauto almoço dominical. Pior que isso: éramos reservas de um time que só levava goleada. Um Íbis versão varzeana. O vexame mesmo era enfrentar a gozação da torcida adversária:.

- Vocês devem ser muito ruins para ficar na reserva deste time, provocavam junto à tela no banco de reservas.

Passávamos outros vexames, como o de ser levados para jogos em campos mais distantes de Petrópolis na carroçaria de um caminhão de transporte de adubo. Constrangidos, ficávamos agachados quando retornávamos ao bairro, enquanto o caminhão disseminava seu odor por onde passava.

Duro mesmo era jogar no campo do Vila América, em pleno Mato Sampaio. Atrás de uma das goleiras havia um barranco e, depois dele, a vila. Bola caída no barranco não voltava, até porque ninguém se arriscava a recuperá-la.

Outro campo terrível era o do Bonsucesso ali atrás da extinta Gaúcha Car, na Vila Jardim. O campo era em declive, coisa de um metro ou mais de diferença entre uma goleira e outra. Foi no campo do Bonsucesso que outro companheiro de zaga, o Sertão – este sim um diabo de tão tosco – prensou um atacante adversário contra a cerca que separava o campo da sanga que corria atrás de uma das goleiras. Descendo a ‘lomba’, o cara perdeu o tempo da jogada e saiu pela linha de fundo, com o Sertão atrás. O choque dos dois contra a cerca provocou um estrondo, algumas costelas quebradas no atacante e quase degenerou em conflito generalizado. Prudentemente deixamos o adversário ganhar a partida. Era questão de sobrevivência. O Bonsucesso tinha uma particularidade: o goleiro do time titular era maneta, mesmo assim era competente na sua função.

O campo do Universal, onde hoje está instalado o Bourbom Shopping da Ipiranga, era mais ajeitadinho. Mesmo assim, os jogos precisavam ser suspensos temporariamente para a passagem de uma vara de porcos, eis que ao lado do campo funcionava um chiqueiro. O Clarão da Lua jogava num campo ali na área ocupada hoje pelo Parcão. Era um campo sem alambrado e jamais esqueço que via os adversários tomarem boleta durante o jogo, a beira do gramado. Tinha doping na várzea, sim, mas aí já é outra história.

Já o campo do Concórdia, onde hoje é a avenida Nilópolis, era um verdadeiro alçapão. O acesso era através de uma pinguela sobre um arroio – bola caída no arroio parava o jogo - e havia poucas rotas de fuga em caso, muito comum, de brigas entre jogadores ou torcidas ou todos contra todos. A única saída era correr morro acima no que seria hoje a praça da Encol. Nossa vingança, cada vez que sofríamos hostilidades, era profetizar que logo aquele campo seria trespassado por uma avenida e “adeus Concórdia”. Isso de fato aconteceu, mas anos depois, e o Concórdia ficou na saudade.

(continua)