quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O Circo de Petrópolis: Sessão da tarde no Ritz

"Era tanta palhaçada que para virar circo só faltava a lona".

O cinema Ritz, em frente a Igreja São Sebastião, no bairro Petrópolis, faz parte das minhas mais caras lembranças da infância e da juventude. Com seu estilo vagamente ‘art noveau’, o Ritz tinha a magia dos cinemas antigos, com suas duas grandes fileiras de poltronas estofadas e um mezanino. À espera das sessões ouvia-se uma trilha de músicas clássicas e o início era precedido de um gongo, com três batidas que pareciam sincronizadas com a seqüência de luzes a se apagar. Fazia parte do circuito do R – Rio, Ritz, Rosário e Rival, os cinemas da mesma rede que exibiam, em bairros distintos, os mesmos lançamentos.

A sessão começava com os complementos: as Atualidades Francesas com as notícias do mundo, as antológicas edições do Canal 100, especialmente os jogos cariocas, com narração do Cid Moreira, às vezes um desenho animado e sempre os ‘trailers’ dos próximos filmes a serem exibidos.

Foi no Ritz que assisti aos filmes mais antigos de um de meus diretores preferidos, o inglês David Lean, os épicos A Ponte do Rio Kwai e, o melhor de todos, Lawrence da Arábia que devo ter visto uma dúzia de vezes. Sucesso mesmo faziam os filmes do Elvis Presley, que lotavam as matinés. Filmes do Elvis seguidos de quermesse no Colégio Santa Inês, a meia quadra do cinema, significavam um domingo glorioso.

O velho cinema se prestava também para encontros amorosos e foi numa sessão de domingo que venci a timidez e dei o primeiro beijo numa namorada. Pelo jeito ela não gostou, pois retesou o corpo. De minha parte foi um gesto inocente perto dos amassos contados pelos amigos e sei de histórias mais picantes, mas vou preservar os nomes porque hoje são todos cidadãos da maior respeitabilidade.

Foi no Ritz que assisti também ao meu primeiro filme pornô. Calma que eu explico. Tratava-se de um drama europeu em que havia uma cena de nudez: a protagonista saia da banheira para apanhar a toalha e expunha uma bunda branca por dois ou três segundos. Foi o suficiente para que a turma assistisse a todas as sessões daquela semana, aguardando a excitante cena. Mas esse filme era fichinha perto de “E Deus criou a mulher”, exibido dois ou três anos antes e que escandalizou as devotas e devotos da Igreja São Sebastião, entre os quais se incluíam meus familiares, de forte tradição religiosa. O saudoso padre Alfredo fez um duro sermão, condenando a pornografia do filme de Roger Vadim, que apresentava cenas de Brigitte Bardot, na exuberância da juventude (o filme é de 1956), completamente nua. Como eu era “de menor” não tinha assistido ao filme, mas depois das reações que provocou, fiquei excitadíssimo para conferir – o que só vim a fazer anos mais tarde.

Na verdade, as relações do cine Ritz com a paróquia em frente sempre foram problemáticas. Ocorre que uma geração anterior a minha tinha por hábito afrontar o rebanho católico, trocando os letreiros que anunciavam os filmes por mensagens sacanas. Na época, o título dos filmes era composto, letra a letra até formar as palavras, com tipos de metal, numa estrutura que ficava acima dos cartazes. Na madrugada, os bandalhos providenciavam uma escada e refaziam os títulos, sempre adicionando um palavrão. Quando isso acontecia, o sermão das missas dominicais era de condenação a “esses enviados do demônio, que não respeitam a casa de Deus”. Os autores da safadeza, agora sessentões, estão todos vivos e não me deixam mentir.

Sei não se o fechamento do Ritz para reformas e a reabertura depois como agência bancária não foi um castigo dos céus, enquanto o templo católico está lá, firme e forte e acolhendo os fiéis.

Amanhã: O Sequestro do bonde Petrópolis