quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Só não me chamaram de bonito

Será que morri e não fiquei sabendo? Calma que posso explicar, como diria o infiel apanhado em flagrante. Sucede que ao despedir-me da repartição, passei a receber elogios dignos de um necrológico, daqueles que os jornais publicam quando partimos desta vida. Deixei de ter defeitos, passei a ser uma pessoa maravilhosa e um chefe sem igual. Meu bom humor é destacado, minha competência profissional enaltecida, a generosidade reconhecida. Sou doce e meigo; inspirador e motivador; irônico e debochado, aqui incluídos também como elogios. Bobagens que um dia pronunciei viraram mantras. Concedi benefícios, fiz favores e estendi a mão para mais pessoas do que imaginava. Recebi, inclusive, telefonemas de solidariedade, que não se aplica ao momento. Fui atento nas atividades profissionais e sensível nas questões pessoais. Um exemplo de cidadão. O cara!


Acredito na sinceridade de todas as manifestações, que massagearam o meu ego, o que não representa tanta vantagem, porque ele não é muito grande. De coração agradeço. Fiquei comovido, admito, mas peço reservas para preservar minha couraça de durão. Se fiz bem a alguns ou a muitos é isso o que importa.

Elogio sempre é bem-vindo, mesmo que às vezes não corresponda à realidade. Percepção é tudo e vale a versão, mas é preciso lembrar que Dr. Jeckyll e Mr. Hyde convivem na mesma persona, e nem sempre é possível diferenciar a personalidade boa da má. Antes que seja mal interpretado, até porque Dr. Jeckyl e Mr. Hyde entraram neste texto como Pilatos no Credo, devo acrescentar que não me identifico nem com um nem com outro. Sou apenas aquele que faz suas escolhas, erra, acerta e continua aprendendo.

Agora, se me dão licença, permitam-me gozar as delícias do ócio e me enfarar de tédio. Acho que mereço.