quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Judas em forma de mulher na versão de ES

Encontro no shopping meu bom camarada ES, que, antes mesmo do cumprimento, dispara: “Aquela história do teu amigo que virou corno de uma ideologia está mal contada”. Figura renomada das artes visuais, ES é um observador da cena quotidiana, como eu, mas muito mais talentoso para adornar os fatos e a prova está no complemento da primeira intervenção, ainda antes do cumprimento: “A tal pessoa que colocou os chifres no teu amigo só pode ser um travesti”, sentenciou. Quedei-me pasmo.

ES estava se referindo ao texto “Judas em forma de mulher”, aqui publicado no início da semana, dando conta do desabafo de um amigo que levou um pé na bunda da parceira de anos, sob a alegação de que as idéias que ela passara a comungar não combinavam com as dele. Esse amigo estava sucumbido em tristeza, um tanto pela perda da amada e outro tanto pela forma como foi rejeitado. “Sou um corno, um corno de uma coisa imaterial. Ainda se fosse outra pessoa, talvez até me conformasse, mas ser trocado por uma ideologia, aí já é demais. Fui traído por um Judas em forma de mulher”, relembro as palavras textuais.

ES pegou o gancho e seguiu na sua tese: “Se é Judas, só pode ser homem e homem em forma de mulher só pode ser traveco”. Juro que não havia pensado nisso. Talvez ES tivesse razão.

Divagando e associando idéias, ES puxou do fundo do baú um filme de Neil Jordan (Traidos pelo Desejo, de 1992) estrelado por Forest Whitaker, que interpreta um soldado inglês sequestrado pelo IRA. O guerrilheiro (Stephen Rea) encarregado de vigiar o soldado desenvolve uma certa amizade pelo refém. O soldado acaba morrendo e o guerrilheiro vai comunicar sua morte à namorada dele, por quem acaba se apaixonando. Mas esta paixão lhe provocará um choque inesquecível, quando ele descobre que a moça é na verdade... um travesti. Como havia assistido ao filme, lembro bem da cena da descoberta, ousada para a época, com o nu frontal do travesti.

“A historia do teu amigo nada mais é do que a vida imitando a arte”, provocou ES. E antes que eu pudesse opinar e sem uma pausa sequer, afirmou categórico:

“Nesse caso, teu amigo foi duplamente enganado: pela parceria e por si mesmo ao não admitir o relacionamento com um travesti”. A ser verdade as conjecturas de ES, há mais um enganado no episódio, no caso este relator da história, ao qual teria sido sonegada a verdade por inteiro.

Pilhado por ES, consumido em dúvidas, fui atrás da verdade. Indaga daqui, indaga dali, acabei descobrindo que meu dileto e sofrido amigo tivera realmente um relacionamento recente com uma tal de Andressa Suellen ( com dois “eles”), Andi ou Su para os íntimos, ou Andrigo na sua versão masculina. Os informantes juraram, entretanto, que a pessoa era feminina ao extremo, uma baixinha bem jeitosa, só que ligeiramente estrábica e um pouco dentuça, defeitinhos de fabricação que, na verdade, lhe conferiam um charme especial e talvez fossem a chave que explicava a entrega amorosa do meu amigo. (Lembro agora que, na juventude, ele sempre procurava esses diferenciais nas suas parceiras).

Sou rodado e mesmo assim fiquei surpreso com as revelações acerca do relacionamento aqui relatado. Mas fazer o quê diante das ciladas do amor? Compreender e aceitar é preciso.

Só que, diante do episódio, tomei uma decisão para não mais ser surpreendido: chega de dar trela para velhos amigos, chega de histórias à Nelson Rodrigues.