segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Solidariedade entre iguais

A verdade verdadeira é que nós, homens, só pensamos naquilo. Então, é natural que as conversas no cafezinho, na mesa de bar e em outros encontros com predominância masculina, o assunto gire em torno daquilo. Essa nuança do comportamento dos machos só é igualada por outra em que as mulheres passam ao largo: a solidariedade. Você jamais vai ver parceiro dedurando parceiro e existe grande respeito pelas mulheres dos amigos, que assumem status de não-cantáveis, sejam elas oficiais ou não.

A espécie se protege e se ajuda, confirma álibis, cede local, carro e grana nos momentos de aperto e é capaz de estabelecer relações de amizade tanto com a titular do amigo como com a outra. É, digamos, uma ética singular nesse contexto. A introdução vem a propósito de história contada pelo jornalista Clóvis Heberle em seu blog (www.clovisheberle.blogspot). Como também fui testemunha dos acontecimentos, um case exemplar de solidariedade masculina, me permito reproduzi-lo, conforme relato do Heberle.

El templo de la perdición

Trabalhávamos muito na sucursal de verão de Zero Hora, instalada no hotel Beira Mar, em Tramandaí, nos anos 90-. Certamente tanto como agora. Pelo menos 12 horas por dia, isto quando não éramos acordados de madrugada para cobrir algum rolo policial. Mas também nos divertíamos bastante. Depois de enviar a última matéria, íamos jantar juntos e depois dar uma circulada pela cidade. Naquela época os argentinos vinham a Tramandaí em ônibus de Turismo e se hospedavam em nosso hotel, geralmente por uma semana. À noite ficávamos batendo papo, e naturalmente nos tornávamos amigos deles. Cada despedida era uma festa, e as vezes lágrimas rolavam nos rostos de hermanas enfeitiçadas por algum repórter da sucursal. O contrário também acontecia. Um dos nossos ficou enlouquecido por uma argentina, muito bonita na flor dos seus trinta e poucos anos. Ela parecia corresponder, mas havia um problema: o marido estava junto, e não desgrudava dela. Solidários, tentamos vários estratagemas para separá-los, pelo menos algumas horas, para que os dois pudessem, digamos, se entender. Tudo em vão. Decidimos jogar pesado: embebedar o maridão, para que ele, entregue a morfeu, deixasse a esposa e nosso apaixonado colega à vontade. Bate-bate era um boteco de madeira escondido entre duas dunas, cerca de um quilômetro depois da plataforma de pesca. Lá só se serviam batidas, todas de altíssimo teor alcoólico. O bar estava na moda – a moçada enfrentava a areia da beira da praia para passar algumas horas lá, bebendo e ouvindo música. Casais se perdiam nas dunas, motoristas tinham dificuldade em achar a trilha depois de provar coquetéis de cachaça. Alguns dias antes, no Carnaval, a turma do Bate-Bate havia desfilado na avenida Emancipação, um garçom vestido de padre à frente. Conferimos se a batina ainda estava por lá, e combinamos que no dia seguinte voltaríamos com um grupo de turistas argentinos, com a condição de que fossem recebidos pelo falso padre. O Bate-Bate mudou de nome: passou a ser El Templo de la Perdición. Convidados, os argentinos adoraram a idéia. Estavam loucos para conhecer o templo. Lotamos três carros (o meu e dois do jornal – a Núbia Silveira que me perdoe) e nos mandamos. O padre esperava na frente do barracão, e junto com a benção entregava a cada um de nós um copo daquelas batidas. Discretamente, todos olhávamos o copo do maridão, mas ele era o que menos bebia. Lá pelas tantas, decidimos voltar. Jantamos no Carlão, um restaurante à beira do rio, no Imbé e depois viemos até a minha casa. Bebemos, cantamos, conversamos, e o maridão, sóbrio. O dia amanhecia quando o grupo, exausto e conformado com mais uma derrotas, retornou ao hotel. A esposa continuou intocada até seu retorno à Argentina. Sim, ela chorou na despedida.

Agora me digam com sinceridade: é ou não é uma comovente história de solidariedade entre iguais?