quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Fetiches e fantasias

Fui ao Google e constatei assombrado: existem mais de 780 mil verbetes sobre Fetiches, objeto da minha pesquisa. Confesso que o meu assombro nem foi tanto pelo volume de informações, mas pelos conteúdos, alguns absolutamente inéditos para mim e olha que não cozinho na primeira fervura. Vi coisas do arco, de oferta de produtos para a exaltação do prazer a estudos acadêmicos sérios, de conselhos médicos a sites fartamente ilustrados.

Descobri até um grupo de pressão, inspirado no modelo americano, que ensina como tratar publicamente do BDSM, que é a sigla para Bondage & Disciplina, Dominação/Submissão e Sadomasoquismo. Bondage tem a ver com a imobilização parceiro, pelo que entendi. Depois de tudo, cheguei a conclusão de que a perversão vai dominar o mundo – é a nova onda.

Mesmo assim, aprofundei a pesquisa e, entre outras coisas, fiquei sabendo que fetiche vem do francês fétiche, que por sua vez vem do português feitiço e este do latin facticius – artificial, fictício. Êta, erudição.

Pois bem, de posse dessas informações e ainda atordoado com o que vi no Google, decidi acionar o DataDutra, meu instituto particular de pesquisa, para saber o que passa pela cabeça do homem moderno em termos de fetiches e fantasias. A pesquisa não tem valor científico, mas a amostra é consistente: ouvi quase todos os meus amigos, que não são poucos.

As informações colhidas apontam como campeoníssima dos fetiches a calcinha preta, seguida da vermelha e da branca, estas bem abaixo na cotação. Ninguém conseguiu me explicar com clareza o porquê da preferência. Afinal, preto é ausência de cor, mas como não estamos aqui para explicar nem para entender, ficaremos somente no registro do fenômeno, sem enveredar pelas interpretações possíveis.

E um registro que vale a pena fazer e que dá uma idéia da dimensão que esse fetiche assumiu é que até comunidades virtuais foram criadas, entre elas a que se intitula "Pretinha Básica", com milhares de membros, ou melhor, integrantes, grupos de discussão e links para assuntos relacionados.

Durante a pesquisa ouvi outras histórias interessantes. Um dos entrevistados, por exemplo, tinha tanta devoção pela peça íntima preta que invariavelmente carregava uma sobressalente em compartimento da mochila em que acondicionava o laptop. Se a parceira se apresentava com a peça de outra cor, ele ordenava: "Tira essa daí e coloca a preta". E só depois desse ritual é que ele entrava em campo, despindo lentamente o adorno que determinara, momentos antes, que sua companheira usasse.

Outro amigo contou que evitava gastos supérfluos consultando antecipadamente anamorada. Se a calcinha não estivesse de acordo com a grade de cores do fetichismo, ele dava um jeito de transferir o encontro;

- Amor, tô usando aquela calcinha bege, tipo fio dental.

- Bege!!! Nem pensar. Sinto muito, mas hoje não vai rolar.

Não foram poucas as vezes que a moça teve que trocar a peça para satisfazer seu exigente amado.

Em termos de fantasias é recorrente o desejo de transar em público, com uma infinidade de variações - nas praças, na praia, nas festas - desde que haja muita gente em volta. Não se trata propriamente de exibicionismo, porque todos afirmam que não querem ser vistos em plena prática, mas da alta dose de adrenalina que a situação limite proporciona diante da possibilidade de serem descobertos.

(continua)