segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

A FESTA DA FIRMA - primeira parte

Fim de ano é tempo de confraternização nos locais de trabalho. Conhecidas vulgarmente como “a festa da firma”, essas confraternizações estão a merecer um estudo sociológico sobre suas implicações, que vão além das afinidades funcionais. Na verdade, o estudo precisaria ser mais amplo por conta das relações perigosas que se estabelecem no ambiente de trabalho, em níveis inferiores e superiores.

Se fosse transformado em uma série de TV americana o título apropriado para tal estudo seria "Sex and the Office". Se fosse escolhido um patrono para a causa seria, sem dúvida, o ex-presidente Bill Clinton, que quase perdeu o cargo mais poderoso do mundo por causa do envolvimento com aquela estagiária bem nutrida, tendo como cenário o Salão Oval da Casa Branca.

Em outro episódio da série, mais recente, o governador do estado americano de Nova Jersey, gay assumido, confessou que traia a mulher com um assessor. A primeira-dama veio a público para revelar que também praticava adultério...com o mesmo assessor, na mesma cama, todos juntos. Togheter! Depois veio a público mais um escândalo, desta vez envolvendo o prefeito de Detroit, acusado de promover orgias em seu gabinete. Uma endemia de sacanagens oficiais!

O puritanismo americano, com seu viés hipócrita, julga com severidade esses casos e determina o fim de muitas carreiras políticas. (Renan Calheiros deve se considerar um homem de sorte por não ter vivido na América). Prevenindo-se contra revelações futuras, o sucessor do destituído governador de Nova Iorque - flagrado esbanjando dólares com prostitutas de alto quilate -, saltou na frente. Ao assumir o cargo, foi logo declarando que tivera um caso com uma assessora, durante uma crise matrimonial anos antes, mas que agora estava tudo bem em casa. Soube-se depois que a mulher do novo governador também pulara a cerca no mesmo período. Deve ser terrível viver num país com uma classe política dessa estirpe...

Vamos combinar que a prática de sexo no escritório, seja público ou privado, não é coisa nova. Deve ser tão antiga quanto os escritórios e por certo teve início quando homens e mulheres passaram a conviver boa parte do dia no mesmo ambiente. Só que se acentuou com a liberação dos costumes e os confortos proporcionados pelos escritórios modernos, climatizados e com aqueles sofás convidativos. O cinemão hollyodiano se ocupa do tema com freqüência e "Atração Fatal" talvez seja o exemplo mais conhecido.

Mas o que chama a atenção é o fetiche que o ambiente de trabalho significa para determinados funcionários e funcionárias. Tive acesso a inúmeros depoimentos de gente que se imagina transando em cima das mesas, entre grampeadores e computadores, relatórios e agendas e, às vezes, a foto de uma cena de família a espreitar os amantes. E conheço também alguns casos em que esse sonho foi realizado e todos garantem que é um momento único, pelo que representa de transgressão. E se for na sala do chefe, melhor ainda. Sei do caso de um contínuo que para se vingar da tirania do chefe transava no escritório dele com a faxineira, que era a garantia que tudo ficaria limpo e em ordem no final.

Mas o nosso foco é essa circunstância que predispõe às relações perigosas, coleguismo à parte, nos escritórios - " a festa da firma". Os congraçamentos servem para liberar alguns desejos sufocados no dia a dia da empresa, que impõe exigências cada vez maiores de produtividade, gerando insegurança quanto ao futuro e muito estresse. A verdade é que nesse contexto fica mais difícil a libido aflorar.

Aí vem o dia da grande festa de fim de ano e um frisson perpassa o ambiente de trabalho. As mulheres se produzem, marcam hora no cabeleireiro ou lançam mão da chapinha e à noite surgem resplandecentes com suas melhores roupinhas. Amigas sinceras me confidenciaram que estréiam peças íntimas, recém adquiridas, nessas ocasiões. Os homens não chegam a tanto, mas também se preocupam em dar um trato no visual.

(continua)