quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Rádio Corredor: como identificar

( Do Manual Para Chefias Intermediárias que Via Dutra Publisher and Books vai lançar)

A Rádio Corredor é um fantástico instrumento informal, presente em todas as organizações, para a difusão de informações, meias verdades, fofocas e boatos, mais boatos e fofocas do que meias verdades e informações. Esse instrumento recebe outros títulos, dependendo da natureza da organização – Rádio Bambu, Rádio Peão, Central de Boatos – mas a finalidade é sempre a mesma, cumprida com eficácia e eficiência: promover o leva-e-traz na local de trabalho.

A Rádio Corredor pode ser um inferno para as chefias. Muitos projetos foram frustrados simplesmente porque informações reservadas vazaram e chegaram à massa trabalhadora totalmente distorcidas. E chegaram via Rádio Corredor, que não tem qualquer compromisso com a realidade dos fatos, mas apenas com o tráfego de informações em si mesmo, de preferência aumentando um ponto em cada conto.

O processo ocorre normalmente em filas de banco, no intervalo para o cafezinho, no refeitório e naquelas conversas de pequenos grupos no pátio da empresa. Os e-mails e os twitters da vida também são usados, mas com cautela, porque deixam rastros que podem desmascarar os maledicentes de plantão.

É fácil perceber quando a Rádio Corredor está em ação: basta aproximar-se de um grupo reunido em um canto qualquer e perceber o constrangimento com a chegada do elemento estranho, a rápida troca de assunto, o olhar inquieto, insincero e o sorriso sem graça dos participantes. Nessas ocasiões, a Rádio Corredor sai do ar por instantes.

E quando voltar, podes crer, a interferência junto ao grupo será assumida como uma confirmação de que aquele boato tem um fundo de verdade. Dez entre dez vezes será ouvida a seguinte frase, após o seu afastamento do grupo: “Viu, o homem está preocupado, então aquele negócio é sério!” .

Na verdade, o efeito perverso da Rádio Corredor pode ser neutralizado e até direcionado a seu favor. A primeira medida é identificar quem são os principais agentes do leva-e-traz. O mais fácil de ser reconhecido é aquele que eventualmente procura a chefia para contar as fofocas envolvendo outros colegas. Esteja certo de que se trata de um agente duplo, que só está esperando você liberar alguma informação para realimentar o processo. Quantas vezes você foi tentado a fazer algum comentário nada elogioso sobre algum colega ou mesmo um superior, como contrapartida a uma informação supostamente privilegiada trazida pelo agente duplo? Você certamente já participou desse jogo e se deu mal. Doravante, resista: tudo o que eles querem é intrigá-lo com a massa ou, o que é pior, com as chefias.

Ouça mais do que fale e mantenha os olhos sempre abertos para identificar os outros participantes da sórdida conspiração. Para saber quem são os outros, basta observar quais são os que sempre repetem suas participações nos grupinhos, seja no encontro informal no pátio, seja na roda do cafezinho. Eles são os potenciais agentes inimigos.

Se você der um flagra num grupo, percebendo que a Rádio Corredor esteve no ar, e mais tarde for procurado por alguém com uma justificativa do tipo “pois é, a gente estava conversando sobre...”, bingo, este é o cara, tentando construir um álibi. Como se trata de um fracote sem caráter, basta um aperto que ele certamente vai vomitar tudo, com riqueza de detalhes.

Outro agente em potencial da Rádio Corredor é aquele sujeito que fala baixinho ao telefone. Das duas uma: ou está namorando no telefone, provavelmente uma colega de outra secção, ou está difundindo informações e boatos. Nos dois casos, merece atenção redobrada. No primeiro caso porque esse negócio de namorar em horário de expediente, ainda mais colegas, pode acabar em confusão; no segundo, para confirmar se o cara é ou não um agente da Rádio Corredor.

(continua)