quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Situações extremas

È dura a vida dos homens de vida dupla. O pior momento é ter que enfrentar a mulher na volta ao lar, depois de uma sessão de adultério. Acredito que com as mulheres aconteça o mesmo quando elas são agentes e não vítimas, mas não tenho elementos suficientes para julgar. Entre os homens, fica sempre aquela expectativa de que vai ser desmascarado e que ao chegar em casa encontrará as malas depositadas na sala como um veredito. “Pega tuas tralhas e some daqui, seu cafajeste”.

É uma situação extrema, mas existe coisa pior. Foi o que aconteceu com um jornalista, da área de artes gráficas, que saiu de casa no meio da tarde de um sábado de Carnaval para comprar pão, leite e frios para prover sua numerosa prole. No trajeto de volta da padaria para a casa, não mais do que quinhentos metros, nosso amigo acabou envolvido pelo baticumbum de uma banda que, na vizinhança, se aquecia para o Carnaval. Deu meia volta e se entregou para a folia. A batucada era irresistível e o time de mulatas um convite à perdição. A partir daí, sob as bênçãos de Momo, Baco e Eros, ele pintou e bordou durante os quatro dias de Carnaval, sempre acompanhado de uma bela passista que correspondeu as suas investidas.

Na quarta-feira de Cinzas, todo estropiado, lá estava ele de volta ao lar, após o meio dia. Carregava ainda, zelosamente, a sacola com os pãezinhos, o leite e a mortadela para a filharada. Ao entrar em casa, já levou o primeiro susto. A mulher o esperava, sentada no sofá da sala, armada com uma reluzente faca. Uma faca dessas de churrasco que ele mesmo havia afiado na semana anterior. Ele bem que tentou contornar a situação com um diálogo, que reproduzimos ligeiramente dramatizado:

- Pára com isso, mulher. Eu posso explicar.

- Não quero saber de explicação. Eu vou é cortar aquilo.

- Não faz isso, eu só tenho esse. Deixa eu explicar...

- Chega de conversa. Te prepara que eu vou cortar.

- Pô, eu to cansado, deixa eu dormir e depois a gente fala.

- Se dormir, vai acordar sem.

Em pânico, nosso amigo conseguiu sentar numa cadeira e ficou ali, com as mãozinhas gorduchas protegendo seu bem anatômico mais precioso. Às vezes, vencido pelo sono, ele dava uma cochilada, mas acordava em seguida com os berros da mulher e a faca rebrilhando.

- Olha que eu vou cortar.

Fiquem tranqüilos, infiéis. O cara escapou dessa. Num descuido da mulher, ele saiu porta a fora e foi se homiziar em casa de amigos até a poeira baixar. Acabou voltando ao lar pelo clamor dos filhos, que sentiam falta, não tanto do pai trêfego, mas do pão, leite e frios de todo o dia. Mas, por precaução, desde então abandonou a prática de afiar as facas de churrasco.

(continua)