quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O Circo de Petrópolis vai à Praia - parte 1

“Era tanta palhaçada que para virar circo só faltava a lona”.

O campeonato praiano de futebol era a sensação esportiva dos verões gaúchos, nas décadas de 60 e 70 do século passado. O torneio era organizado por uma tal de Federação Gaúcha de Esportes de Praia, mas na prática quem mandava mesmo era o Jair Cunha Filho, editor de esportes da Folha Esportiva e depois da Folha da Tarde, da velha Caldas Junior. Os jornais respaldavam e abriam amplos espaços para os jogos. Na organização, funcionava o Flávio França, um figuraço que era repórter da Folha e técnico de futebol de salão, e avesso ao banho. Naqueles tempos de poucos atrativos no nosso litoral, o Praiano era o grande acontecimento nas tardes de sábado e manhãs de domingo, mobilizando as sociedades de cada praia, veranistas e moradores.

Diferente do futebol de areia de hoje, o Praiano gaúcho era na base de 11 contra 11, com as regras do futebol de campo. Os árbitros vinham da Federação Gaúcha de Futebol, alguns aspirantes ao primeiro nível na época, como Carlos Martins, Rui Canedo, Valdir Louruz. O Praiano dava prestígio aos árbitros, além de uma experiência desafiadora de apitar jogos sem qualquer proteção da torcida, que ficava em cima da quadra de areia, separada apenas por uma corda, gritando e xingando. O detalhe é que a arbitragem sempre era “boa”, pelo menos na ficha técnica do jornal.

Havia rivalidades memoráveis, como a das duas representações de Cidreira, a Sociedade Amigos de Cidreira e a Cidreira Praia Clube, ou destes times contra a Sociedade Amigos de Tramandaí, a SAT, ou ainda da SAT contra Capão, de Capão contra Torres, Torres contra Praia da Cal. A proximidade, como se vê, alimentava a rivalidade. Em certas temporadas, praias menores formavam grandes equipes, recrutando ex-jogadores profissionais, e surpreendiam os balneários tradicionais. Lembro de ter visto os irmãos Cléo e Paulo Souza, do grande Grêmio da década de 60, disputando jogos pela Praia do Barco. O Marino, centroavante de chute forte que atuou na dupla Grenal, também foi visto marcando gols nas areias do litoral norte.

Fiz toda essa introdução para contar que no início da década de 70, o Beto D’Alascio decidiu formar um time em Rondinha Nova para disputar o Praiano. Esguio e habilidoso, o Beto atuava em várias posições, além de ser um empreendedor nato. A Sociedade Amigos de Rondinha Nova (Saron) respaldava com seu nome a iniciativa e só. O resto era por conta da determinação do Beto, dos recursos de cada um e das ajudas mútuas. A casa da família D’Alascio comandada pela dona Teresa em Rondinha, serviria de base para o time. Dona Teresa era mãe do Beto, do amigão Piero e do nosso técnico Luciano. A garagem foi transformada em concentração, agregando cinco ou seis atletas em camas improvisadas.

Em uma das temporadas daqueles anos dourados, o Beto inventou a Femarisco, a pomposa Festa Nacional do Marisco, que consistia num barracão a beira da praia onde as senhoras veranistas comercializavam quitutes à base daqueles bichinhos e de outros frutos do mar. E tinha gente que comprava! Beto levava a sério a rivalidade com a Rondinha Velha, situada dois ou três quilômetros acima e pretendia, com a Femarisco e mais o time praiano, elevar bem alto o nome do balneário, especialmente diante da já decadente rival. Como ambas eram praias de gringos, gente de Caxias, Canela, Bento e arredores, acredito que a rivalidade fosse decorrente da natureza própria da gringalhada. A verdade é que essas iniciativas movimentavam a pequena Rondinha, acolhedora, mas sem outros atrativos.

Chegar às praias do norte naqueles tempos pré-Freeway e sem a Estrada do Mar era uma aventura. A volta não era diferente. Até Capão da Canoa, pela estrada de Santo Antonio e BR 101, demorava, mas tudo bem. O problema era dali em diante. A Interpraias existia mais nos mapas do que na realidade. Por isso, a principal opção era seguir pela beira da praia, buscando os trajetos de areia mais firme, atolando e desatolando, ultrapassando arroios – e como tem arroios naquele pedaço! –, com cuidado para o carro não apagar. Quando isso acontecia era uma mão de obra secar o motor e empurrar o veículo para que pegasse no tranco. Consumia-se quatro ou cinco horas de viagem.

Recordo de uma vez que retornamos debaixo de mau tempo e para evitar os arroios transbordando, arriscamos num comboio de três carros os caminhos da Interpraias. Foi a pior viagem. Até chegarmos a BR 101, atolamos pelo menos meia dúzia de vezes. E a viagem iniciada às 6 da tarde, terminou em Porto Alegre por volta das 4 da manhã, ai incluído o tempo para umas geladas em Arroio do Sal. Depois dessa indiada, o Tadeu, meu irmão, que havia comprado seu primeiro carro, um fuquinha bem ajeitado, desistiu de colocar o veículo a serviço da equipe rondinense. A solução foi apelar para o ônibus pinga-pinga da empresa Santos Dumont, que saia sábado de madrugada completamente lotado. Viajávamos em pé, a maioria tresnoitada, e chegávamos estropiados em Rondinha, depois de o ônibus descarregar gente e apanhar mais gente, por todas as bibocas do caminho.

O que restava de bom dessas viagens era o lado folclórico. O Piero lembra um episódio ocorrido pouco antes do ônibus chegar a Rondinha. O coletivo e um carro com vidros abertos chegaram juntos ao arroio Caniço, acidente geográfico importantíssimo antes do balneário. Na passagem pelo arroio, o ônibus deu um banho geral no pessoal que estava no automóvel. Na chegada a rodoviária de Rondinha, o indignado motorista do carro foi tirar satisfações do motorista do ônibus e acabou brindado com uma frase desaforada:

- Não qué se molhá, manda asfartá a pralha.

Dito isso, entrou no ônibus e arrancou, deixando o outro motorista e família aparvalhados e sem ação.

(continua)