terça-feira, 3 de novembro de 2009

Receitas antiflagrantes

Existem duas frases clássicas para justificar um flagra. A saída do motel, você e sua parceira são descobertos pelo marido dela, por exemplo. O sujeito se dirige pra vocês com caras de poucos amigos, quando a frase é disparada:

- Não é o que você está pensando.

Em outra situação é a sua mulher que dá o flagrante e só lhe ocorre dizer:

- Eu posso explicar.

As duas frases combinadas também são de uso comum, com o mesmo efeito de convencimento se empregadas em separado: nenhum.

O repertório lingüístico dos amantes é bem mais amplo e não é com a conotação que vocês estão pensando. Recentemente descobri a expressão “bife” usada para designar o parceiro que só serve para aquilo, sem outros envolvimentos. Bife, carne, comestível, acho que o significado é esse, sei lá. A moça liga, marca hora e local e depois do encontro é beijinho, beijinho, até a próxima e nada mais. Para o meu gosto, um processo muito burocrático. Um relacionamento legal impõe uma comunicação diferenciada e, na maioria dos casos, o casal estabelece códigos para se fazer entender sem ficar exposto. A primeira providência é batizarem um ao outro com apelidos carinhosos, quando não escorregam para o ridículo. Aí vale tudo e reinam os diminutivos: fofurinha, bijuzinho, morzinho, neguinha, tchutchuquinha. Os mais sofisticados preferem expressões em outro idioma: Cherry, Amore Mio, Honny, Darling. É um dengo só e homem vira piegas nessas circunstâncias.

Como ocorre com todos os idiomas, a linguagem da infidelidade também é um processo em constante mutação. O termo amante, por exemplo, caiu em desuso. Ou como diria aquele empresário bem de vida e algo preconceituoso: “Amante é coisa de pobre. Rico tem namorada”. Preconceitos à parte, a verdade inescapável é que dificilmente você vai ouvir, hoje em dia, alguém dizer que vai ao encontro “da amante”. O termo ficou chulo e brega. Visitar a “outra” ou “aquela outra” até passa. Ouço eventualmente a expressão “pessoa” e sua variação “aquela pessoa” e implico com isso, sei lá porque. Talvez porque existam eufemismos mais apropriados para o caso. Um deles é designar a pessoa em questão pelo realce profissional. Observe o exemplo e constate como fica elegante na frase: “Com licença, mas preciso sair porque tenho um encontro com a Doutora”. Vocês já sacaram quem é a doutora, que pode ser aplicado tanto para profissionais da área médica como do direito. Outro exemplo na mesma linha: “A professora me espera”. No caso, pode ser realmente uma mestra do saber ou uma homenagem do homem aos conhecimentos da parceira, por assim dizer, em outra matéria.

A tribo dos infiéis é criativa e inventa toda a sorte de artimanhas para escapar de questionamentos incômodos. Conhecido repórter, por exemplo, só escreve os telefone de suas novas conquistas em linhas verticais. Para todos os efeitos é uma operação de somar, se a anotação cair em mãos indevidas. Um sistema simples e eficaz.

Os códigos mereceriam um capítulo à parte. S. operador da bolsa de valores, certamente influenciado pela sua atividade, só marcava encontros com a companheira por meio de mensagens codificadas, enviadas por telefone ou por e-mail. “Cotação: MA-1830”. Tradução: Encontro às 18h30 no Motel A. Ou: “Índice Bovespa: RB-2100+MC”. Tradução: jantar no restaurante B às 9 da noite e depois esticada ao motel C. A cada letra correspondia um motel ou restaurante já conhecidos, então ficava fácil decodificar a mensagem. A resposta da parceira vinha na mesma linha. Se estava disponível avisava: “É hora de comprar”. Caso contrário, informava: “Venda as ações”. O único receio deles é que viesse a mensagem, previamente combinada, significando que tinham sido descobertos: “Crack da Bolsa!”

J, desportista, também utilizava linguagem apropriada a sua área de atuação. A mensagem “Hoje, 100 metros rasos”, significava disposição para uma rapidinha. Já “Amanhã Maratona” era a forma de dizer que estava preparado para uma grande noitada. As respostas às vezes eram desestimulantes, tipo “100 metros com barreiras”, quando a parceira dava conta de que ele podia pedir o que quisesse, mas não levaria tudo. O policial M. cifrava suas mensagens à namorada igualmente com as expressões que estava acostumado a usar no dia a dia. Exemplo: “Hoje acareação, 19, local do crime”. Tradução: encontro às 7 da noite no mesmo motel de sempre. Quando não podia comparecer aos encontros, avisava: “Elemento fugou” era a senha.

Por fim, quero fazer algumas considerações sobre um verbo em particular. É o verbo lidar, recorrente nas relações amorosas e usado preferencialmente pelas mulheres para justificar qualquer situação desconfortável. Elas bem que poderiam empregar o verbo suportar ou o agüentar, mas o lidar tem mais abrangência, sem contar que é mais elegante. Experimente usar em uma frase completa: “Não estou conseguindo lidar com isso...”. “Não suporto mais essa situação”. Existem diferenças. O suportar dá idéia de estresse é quase um desabafo, enquanto o lidar tem nuanças que atenuam o motivo que leva a sua utilização. Já naipe masculino é direto e apelativo: “To de saco cheio com essa situação”. Se vale como alerta, os homens não sabem lidar com mulheres que não sabem lidar com...