segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Santa inveja: textos que eu gostaria de ter escrito

Outro dia cometi aqui um texto metido a conto ("A mulher de óculos escuros"), no qual o personagem, com uma vida pregressa de infidelidades, temia a presença de alguma ex em seu velório, o que poderia resultar em escândalo naquele momento de contrição familiar. E alertava seus irmãos para que ficassem atentos no velório às mulheres desconhecidas e de óculos escuros, sinônimo de encrenca na certa. Agora meu companheiro na Confraria da Caveira Preta, o festejado Paulo Sant’Anna, publicou na sua coluna de sábado, 31/10, em ZH, a crônica "Os Óculos Escuros", que vai na mesma linha de desconfiança em relação as pessoas que se escondem atrás das lentes escuras. Não pensem que estou aqui a dizer que este modesto blog esteja a pautar o sempre criativo Sant’Anna, mas pela convergência de opiniões, sinto-me obrigado a reproduzir a crônica do confrade, inaugurando uma nova secção no viadutra.blogspot – Santa inveja: textos que eu gostaria de ter escrito.



Os óculos escuros

Dizem que os olhos são as janelas da alma. Então, os óculos escuros são as venezianas.
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Sempre desconfiei de quem não tira os óculos escuros. Parece que quer esconder dos outros algo que oculta na alma por vergonha.

Se eu não tivesse meu olho esquerdo afetado por antiga paralisia facial, o que impede que suas pálpebras fechem por intuição, só por ato volitivo, nunca usaria óculos escuros. Só os uso para proteger o olho esquerdo do sol ou da luminosidade.

Mas, sempre que alguém se aproxima de mim para conversar, tiro depressa os óculos escuros. Os meus interlocutores não os merecem. ***
Quem usa óculos escuros esconde uma traição: já feita ou que está por vir.

Por sinal, há três profissões em que são intrínsecos os óculos escuros: cantor de rock ou de pop, segurança de casa noturna e general norte-americano ou brasileiro.

E segurança de casa noturna, além de óculos escuros, usa também indefectível traje inteiramente preto.
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Experimente arrancar desses marmanjões possantes os seus óculos escuros. Como Sansão de quem rasparam a cabeleira, ele ficará tonto, sem saber o que fazer, parece que lhe tiraram a força, a energia do utilitário físico que ele representa, enfim, arrancam-lhe a personalidade.

Uma vez perguntei a uma freira por que usava óculos escuros. Ela me disse que para atenuar a visão ofuscante das injustiças do mundo e para lhe parecerem mais sombrios os brilhos que emanam dos rostos dos maus quando eles triunfam diante dos bons.

Outra vez perguntei a um general por que ele usava óculos escuros e ele me respondeu: “Porque não posso suportar o fulgor do meu tenente-coronel diante dos recrutas”.
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Os atores da Globo também usam óculos escuros. Os banqueiros de jogo do bicho também usam óculos escuros. Os atores da Globo, deve ser porque lhes ofusca o próprio brilho. Os banqueiros de jogo do bicho, cogito que usam óculos escuros com medo de se encontrarem na rua com apostador a quem calotearam num prêmio ou com um policial honesto, que não pertence à sua lista de suborno.
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Mas há profissões e situações que não comportam em nenhuma hipótese óculos escuros.

Caso de um casamento a que assisti esses dias, em que o padre oficiava o sacramento de óculos escuros. Parecia ter vergonha da encrenca em que estava metendo o pobre do noivo.

E juro para vocês que no cemitério São Miguel e Almas, em agosto, estava sendo velado em uma capela um defunto de óculos escuros, eu nunca tinha visto algo igual.

Talvez um parente piedoso do defunto tenha lhe colocado os óculos escuros para livrá-lo do rigor das labaredas do inferno com que ele dali a pouco se defrontaria.
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Ocorre-me que só há dois tipos humanos que nunca vi com óculos escuros: os bebês e os hipnotizadores.

E, a uma pessoa que disse a um homem que este parecia um canalha de óculos escuros, o homem respondeu: “Só pareço um canalha? Se você visse meus olhos nuamente, então teria certeza de que eu sou um canalha”.