quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Santa inveja: textos que eu gostaria de ter escrito

Quem, como eu, está quase lá, se associa às idéias da escritora Cláudia Tajes, na crônica publicada dia 4/11, na página 2 de Zero Hora:

Balzacas, idosos e anciões

Há algumas semanas, os professores Luís Augusto Fischer e Cláudio Moreno discutiram o novo significado do termo balzaquiana. Na primeira metade do século 19, quando Honoré de Balzac escreveu o romance A Mulher de 30 Anos, a expectativa de vida era baixa e as senhoras chegavam à citada idade com muitos filhos e nenhuma perspectiva. A balzaquiana clássica, portanto, seria aquela já em fim de carreira, definição que não combina com as frescas trintonas atuais. O professor Moreno deu como exemplo de balzaca dos nossos dias a atriz Suzana Vieira. Mas mesmo essa não parece disposta a entregar a rapadura, namorando soldados e mágicos algumas décadas mais moços.

Dentro desse espírito, notícias de todos os dias chamam mais a atenção pelo texto que pelos fatos em si.

“Idosa de 54 anos cai no golpe do bilhete premiado.” Não bastasse ser enganada por um vigarista, a mulher foi chamada de idosa praticamente na flor da idade. “Ancião de 63 anos despenca com o carro no Arroio Dilúvio”. Esse, então, além do desagradável contato com o esgoto de Porto Alegre, ainda recebeu o título de ancião numa altura em que a maioria das pessoas segue trabalhando, saindo, brincando, vivendo.

Não que a classificação etária traga junto alguma ofensa, longe disso. Mas se a gente considerar que as definições do dicionário para idoso e ancião incluem senil, antiquado e fora de moda (embora respeitável e venerável também constem lá), a maior parte da turma de 50, 60, 70 e 80 não pode ser enquadrada assim. Fica difícil chamar de ancião até mesmo o arquiteto Oscar Niemeyer, que acaba de sair do hospital aos 101 anos, e continua na ativa. Dele parece mais correto dizer que está em idade avançada.

Quem também não percebeu que o tempo não passa mais com a mesma crueldade de outras épocas foram alguns dirigentes de futebol, que tacham de velhos os jogadores de trinta e poucos anos. Por isso é tão bom ver matusaléns como Marcelinho Paraíba (34) e Gilberto (32), só para lembrar dois que recentemente se ofereceram para jogar em certo clube da Azenha astutamente administrado, matando a pau pelos campos do país.

Nessas horas, sempre lembro de uma história familiar. Em um jantar, um senhor comentou que faria 69 em abril. Resposta do meu irmão: mas por que deixar para abril o que o senhor pode fazer hoje?

O fim da linha, o fim da carreira, o fim do mundo, oba, não estão próximos.