quinta-feira, 2 de abril de 2015

Casos de familia

Tive o privilégio e fui atormentado pelo fato de  nascer e crescer numa família de muitos irmãos, nove no início e oito na maior parte do tempo. Não há contradição entre os dois sentimentos, quem viveu situação semelhante sabe disso, família grande  é sempre uma relação intensa, mas garanto que o resultado é mais positivo do que negativo.

Entre todas as manifestações que resultam desse convívio o que me chama a atenção é uma espécie de código familiar que acaba se estabelecendo naturalmente - expressões, frases, atitudes, estilos.  Nossa mãe, Dona Thelia, por exemplo, usava um subterfúgio quando queria apoio para uma tese ou proposta,  dirigindo-se preferencialmente às noras e as mulheres visitantes:  “Fulana, tu que és uma pessoa esclarecida, o que tu achas de...?”  Não registro caso de pessoa esclarecida que não aderisse ao que propunha a matriarca. Pior é quando ela fazia alianças de ocasião com as noras para algum tipo de cobrança aos filhos, o que nos levava  a lembrá-la :

- Mãe, nos é que somos teus filhos...

Ocorria também de assumir as queixas dos netos que reclamavam das restrições ou cobranças dos pais e, é claro, era adorada pelos pimpolhos – estamos falando de mais de  uma dezena de pequenos traquinas,  masculinos e femininos.

Dona Thelia era uma figura, um tanto debochada,  acho que por herança de seu pai, o cafuso alagoano vô Bastião misturado com a carcamana vô Amália , o que talvez explique muita coisa do passado e das gerações futuras.  Num veraneio em Arroio Teixeira descobrimos que ela tinha afinidades com Iemanjá, ou outra entidade do gênero, pois era a única pessoa que conseguia resgatar das águas uma moça que ficava em transe cada vez que entrava no mar. Ali pelos 50 anos começou a trabalhar na empresa de cortinas do meu irmão, e se encontrou como estilista.  Passou a fumar nessa época, começou a viajar pelo Brasil e no fim da vida, já doente, aprendeu a gostar de cerveja para combater as aftas que a atormentavam.

- Coisa bem boa,  agora entendo porque vocês gostam tanto de cerveja, regozijava-se enquanto saboreava sua bebida bem gelada.

Já o coronel Dastro (na verdade, tenente-coronel brigadiano, mas ele não recusava o título superior), nosso pai, era o oposto.  Sisudo, virou um católico fervoroso depois de uma juventude de devassidão, sobre o qual evitava falar, inclusive sobre como e quando ocorreu sua epifania. Consta que em Santa Maria (lá estudava no colégio Marista), quando removeram as gurias da “zona” na região central ele e o irmão Tarso seguiram juntos, em solidariedade, no caminhão que transportava as moças. Tantas  fez que seu pai, Vicente Dutra,  médico e prefeito de Iraí, decidiu alistá-lo nas tropas que combaterem os paulistas na Revolução Constitucionalista de 1932. Ele tinha apenas 16 anos!

O velho era um ambientalista nato, sabia tudo de plantas, isso antes que o termo sustentabilidade fosse inventado.  Nos pomares e hortas que cultivava o adubo sempre era orgânico, resultado do reaproveitamento do lixo doméstico.  As futuras noras e genros só ganhavam acesso livre à morada dos Dutras se o coronel os convidasse para conhecer sua produção agrícola. Os candidatos a genro tinham ainda as placas dos seus carros anotadas e lá ia ele buscar informações sobre o sujeito. Quando o assunto era sensível, advertia : “Assunto escabroso” ou então desviava a conversa afirmando “as mulheres gaúchas são muito bonitas”,  o que até hoje estamos sem entender o que queria dizer.

Assim, com esse DNA viramos uns tipos rústicos, tudo virou folclore e é lembrado com uma ponta de melancolia na confraria que reúne os irmãos. Agora somos seis, mas as histórias são sempre as mesmas, isso quando não estamos levantando assuntos escabrosos dos ausentes, aqueles que certamente não são pessoas esclarecidas.