terça-feira, 14 de abril de 2015

O poder da palavra

Sou verdadeiramente fascinado pela pregação dos evangelizadores dessas igrejas pentecostais.  Fico boquiaberto com a capacidade deles de transmitirem suas mensagens em nome do Senhor.  São máquinas de falar, equipadas com o que há de mais eficaz em termos de convencimento.  Experimentem assistir aos cultos na TV: os caras conseguem dominar qualquer plateia e fazê-las até mesmo acreditar que  os supostos milagres ali apresentados são reais., que o paralitico voltou a  andar, que o cego recuperou a visão, que a doença abandonou o corpo do sofredor.  A força da imagem,  todo o colorido dos cenários e a movimentação durante o culto se curvam quando o verbo se impõe.  

Há que se respeitar e temer esse processo, porque não interessa o que as pessoas estão vendo, mas o poder da palavra, a capacidade de persuasão. Nossos missionários  provavelmente aprenderam com os tele evangelistas dos Estados Unidos que são mestres na oratória e na expressão corporal, embora sejam mais sutis na arte de arrancar contribuições dos fiéis, diferente dos tele pastores tupiniquins, excessivamente agressivos na dita arte.

No Centro de Porto Alegre eventualmente cruzo com algum pregador a brandir, Bíblia na mão e sempre engravatados,  contra os pecados e os pecadores.  Nesse caso, o que me impressiona é o volume da voz, sempre grave e sonoramente impositiva, enquanto o olhar se dirige ao infinito, onde talvez esteja recolhido seu deus.  Pouca gente presta atenção ao matraquear  dessas pregações, porque falta a mística dos templos,  mas eles não esmorecem e no dia seguinte voltam para imprecar contras os males deste mundo pecaminoso.

Concorrência - Acredito mesmo que o crescimento da cruzada evangélica está diretamente vinculado à força da palavra que emana dos seus cultos. E assim se espraia uma onda de conservadorismo, ao mesmo tempo em que outros sinais de poder terreno de sobressaem, como a formação de uma verdadeira bancada evangélica nos parlamentos, o investimento em templos salomônicos e em veículos de comunicação ou  em horários nobres nas redes comerciais.  Aqui vale a observação do professor de sociologia da religião da PUC-SP, Edin Abumanssur, que li na Zero Hora de 12/04: “Antes a gente era católico por herança, agora existe concorrência”. E que concorrência, acrescento eu.

A rigor, não estou sendo original no reconhecimento do poder do discurso evangélico.  Silvio Santos, dono do SBT e um dos mais festejados  animadores da TV, chegou a afirmar há alguns anos que gravava em fitas os cultos do líder da Igreja Universal, o bispo Edir Macedo, para ouvir no carro. “O Edir Macedo me chama a atenção pela forma como fala”, explicou o homem do Baú.  Vale recordar que o bispo Edir é o proprietário da Rede Record, concorrente do SBT.

Que fique claro que não estou fazendo juízo de valor sobre a ação das igrejas evangélicas pentecostais e neo pentecostais, se tem doutrina ou não, mas apenas constatando uma verdade:  seus líderes são bons de goela.  Eu mesmo acabei  sendo envolvido por um deles. Foi assim: tempos atrás, depois de uma reunião em que tratamos assuntos profissionais,  sugeri que o pastor com o qual conversava que me incluísse  nas orações dele. Estava querendo ser cordial, mas foi a senha para que ele pegasse minha mão e começasse a reza, invocando os céus numa voz tonitruante:

-   Vamos pedir bênçãos ao senhor Deus agora mesmo! Senhor, protegei este teu filho, que precisa muito de tuas bênçãos, do teu amor.  Estendei, ó Senhor, tua proteção e tuas graças aos familiares deste teu filho,  a nossa cidade e a seu povo para que nada de mal lhes aconteça...

E emendou, sem uma pausa sequer, mais uma dezena de pedidos de bênçãos,  enquanto segurava firmemente meus braços como se quisesse transmitir uma corrente de fé ao ateu  que habita em mim. Apesar de tudo, portei-me civilizadamente e o generoso pastor saiu convencido de que eu fora tocado por suas rezas.  O que ele não sabe é que eu estava preocupadíssimo em que alguém entrasse na sala e visse aquela cena pra lá de estranha. Precisaria de uma oratória de pastor para poder explicar e convencer.