quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Histórias da mesa ao lado: A senha

Encontro na mesa ao lado aquele amigo que sempre tem uma história para contar, vivida por ele mesmo ou repassada em segunda mão.  Como de hábito, resolvi indagar:

- E aí, alguma novidade?

- Nem te conto, apressou-se em dizer, como se estivesse esperando a pergunta.

E de imediato passou a contar detalhes da sua última conquista amorosa, iniciada com uma conversa despretensiosa pelo Facebook, inbox, é claro.  Ela se apresentou como publicitária, tinham amigos em comum e aí ele se animou a convidá-la para um happy.  Ela aceitou de imediato, mas no dia e hora marcados ele não pode comparecer. Uma semana depois, ela cobrou a renovação do convite e se agendaram para o dia seguinte. 

Cheio de expectativas ele se dirigiu cedo para o pub perto da casa dela, que mesmo assim, estava atrasada. Segue um relato prenhe de detalhes, um das características dos casos contados pelo nosso amigo:

“De repente surgiu ela, estacionando junto à mesa em que eu  esperava. Tinha me distraído com o vai e vem do trânsito na avenida a frente e foi quase uma surpresa o aparecimento daquela mulher esguia e alta.

 - É tu mesmo? Foi tudo o que e consegui dizer, enquanto oferecia lugar a ela, numa posição mais protegida na mesa, como convém a um cavalheiro. De início, ela não entendeu a pergunta (“Ué, não estavas me esperando?”, indagou). Ocorre que eu não a conhecia, nem por foto, e o que poderia ser uma manifestação de espanto era, na verdade, uma exaltação à presença e à imponência dela.

Ainda impactado pela situação, sugeri que bebêssemos e comêssemos algo, e pra impressioná-la escolhi um  clericot e ela os petiscos.  Foi quando comecei a recuperar a confiança e tomei a iniciativa da conversa, dando conta de quem era e o que esperava do encontro.  Medi bem as palavras, fiz muitas perguntas para manter a iniciativa,  mas ela estava receptiva e o bate papo fluiu, até que chegou a hora de dar o bote e ai  fui mais direto do que devia, um pouco devido a ansiedade e outro tanto porque a bebida fizera efeito:

- Queria que a gente continuasse essa conversa num motel? O que achas?

Ela olhou sério, no fundo dos olhos, fez uma pausa que pareceu uma eternidade e com um sorriso e um aceno de cabeça concordou.  De imediato senti que estava com uma ereção em andamento.”

Sempre detalhista,  nosso amigo contou o  que podia do entrevero  no motel que ela já conhecia de outras incursões.  Não é o caso de reproduzir aqui a pegação.

No final da primeira transa, naquele momento de relaxante aconchego, o  parceiro foi surpreendido com uma exigência dela, cláusula pétrea  para continuarem a relação, que, aliás,  já dura dois anos:

- Preciso saber de duas ou três pessoas a quem possa telefonar caso te aconteça um piripaque aqui no motel.  Sabe como é, a gente  excedeu...

Faltou esclarecer que ele era bem mais velho do que ela e ao dizer que excederam  estava implícito um elogio ao desempenho  dele numa quadra da vida em que a natureza conspira e baixa, por assim dizer,  as vontades  e as expectativas.  Mesmo assim o pedido dela era insólito, constrangedor para dizer o mínimo, e capaz de perturbar a elogiada performance do nosso amigo.  Contrariado com o pragmatismo da moça, ele acabou nomeando  dois parentes e um colega de serviço, garantindo que eram gente da maior confiança, que saberiam como agir e preservariam a reputação dela e a memória dele.

- Outra coisa, caso aconteça o pior, avisa ao pessoal que quando eu ligar a senha será  ‘o Sol apagou’, não esquece, ‘o Sol apagou’...

Mais do que uma senha, a menção ao  astro rei foi recebida como uma homenagem, mesmo em se tratando de uma situação limite, e  deixou nosso amigo  reconfortado, cheio de vaidade e ai mesmo é que excedeu, atuando com brilho cada vez maior, como se sua energia fosse inesgotável.