quinta-feira, 21 de maio de 2015

Sobre os chatos, de novo

Já escrevi e reeditei pelo menos uma vez um texto que trata das minhas agruras com os chatos. Agora decidi revisitar o tema diante de uma frase  da minha amiga Raquel, numa troca de mensagens com outro companheiro,  o  Evaldo, a propósito de uma terceira pessoa que o parceiro dizia não lembrar.  Uma frase simples, definidora: “Tu não lembra porque não  era um chato. Os chatos marcam mais”.

É isso, o chato está sempre presente na nossa memória justamente pela inconveniência de sua presença.  O chato é repetitivo, detalhista, invasivo, inoportuno e vou parar por aqui porque os atributos negativos são muitos. O chato é reconhecido na primeira mirada ou na primeira frase que pronuncia. Outra característica relevante: como no caso dos gays, não existe ex-chato.  Chatice é incurável. 

Particularmente convivo civilizadamente com os chatonildos, mais do que isso, eu os atraio   e, assim,  até coleciono algumas histórias,  engraçadas ou não, mas sempre interessantes, sobre essa relação.  Muitas delas aconteceram na redação de Esportes de Zero Hora lá pela década de 80 do século passado. A equipe da editoria era da pesada, sob o comando do saudoso Emanuel Mattos e depois do meu outro guru, o Nilson Souza, que está bem vivinho para confirmar os causos.

Na época, as redações de jornais e a editoria de Esportes em particular exerciam um fascínio indescritível sobre o malario de todos os matizes - boleiros em fim de carreira, técnicos desempregados, gente dos esportes amadores pedindo espaço, mães e pais de atletas promissores, uma fauna, enfim.

A presença dos chatos proporcionava momentos hilários também. O queridíssimo Nilson Souza era vítima recorrente de uma brincadeira. O mala aparecia na porta da editoria e perguntava quem era o chefe. O pessoal apontava o Nilson, calvo e com tufos laterais de cabelos brancos, fazendo uma advertência;

- Fala alto porque ele é meio surdo.

E lá se ia o chato ancorar na mesa do Nilson, aos berros:

- O SENHOR É QUE É O CHEFE?

 Concentrado no trabalho, nas primeiras vezes o Nilson sempre levava um susto.

 - Não precisa gritar, meu amigo, que eu não sou surdo.

 Imaginem a cena: toda a redação parada, contendo o riso e esperando o desfecho da abordagem.

Porém, mais do que o Nilson, eu era vítima constante dos chatos de redação. O cara adentrava à sala, sem cerimônia, percorria todas as mesas e parava na minha, nos momentos mais inoportunos, trazendo as questões mais estapafúrdias e que não me diziam respeito.

Isso sem contar a minha coleção particular de chatos, que não é pequena. Acredito que tenho um temperamento afável  e, como já disse,  não hostilizo os vocacionados para a chatice, o que lhes passa a idéia de que sou receptivo aos seus papos e vou resolver seus problemas. Cria-se, então, um circulo vicioso: chato bem tratado vira reincidente e nunca mais larga do teu pé, aumentando gradativamente sua freqüência e suas demandas. O chato te adota.

Houve um período em que era visitado com assiduidade na repartição onde atuava por um sujeito com o qual trabalhei anos atrás. Não importa o que eu estava fazendo, ela sentava na minha frente e começava um diálogo, que respondia educadamente mas por monossílabos, sem que ele parasse de matraquear. Certa vez ele  se superou e, quase aos berros, me avisou da porta de entrada:

 - Tem um maluco aqui na porta querendo reformar o mundo. Como tem chato nesta vida, tu não achas?

 Era só o que me faltava: o chato criticando o mala amalucado.

O que me preocupava, entretanto, era que a atração que exerço sobre essa fauna pudesse ser um indicativo forte de que eu também era um deles. Mas logo afastei a idéia porque chato odeia concorrência de outro chato, como vimos acima. Prefiro pensar que eles grudam em mim em razão daquela lei da física segunda a qual os opostos se atraem.