sábado, 23 de agosto de 2014

Bons tempos aqueles

Dias atrás, por dever de ofício,  frequentei uma redação de jornal  no efervescente horário do meio da tarde. Sabe aquela sensação de que havia algo errado no ambiente?  Só na saída, depois dos contatos mantidos, é que me dei conta do que incomodava, martelando meu cérebro: a redação estava repleta de gente, com quase todas as posições de repórteres e editores ocupadas.

Aí me bateu uma nostalgia dos meus tempos de jornal, quando no meio da tarde os repórteres saiam as ruas para cumprir suas pautas ou fazer a cobertura dos seus setores. Apenas o pessoal da cozinha ficava na redação e na Editoria de Esportes da ZH, onde mais atuei, era comum o editor da área acompanhar o repórter à campo e, assim, ter uma visão mais real das matérias que editava.  Essa era a orientação do nosso editor Emanuel Mattos, que nos deixou recentemente. Também por orientação dele os editores bancavam repórter e sazonalmente produziam matérias, que era uma forma de dar exemplo para a gurizada e manter-se antenado e reciclado.

Vida real em  jornalismo é fundamental e isso só se consegue na rua e no contato pessoal com as fonte, olho no olho. O que se observa hoje é primado do telefone para os contatos com as fontes e quase o fim da função de setorista, aquele repórter que se especializada em determinada atividade,  frequentava diariamente seu setor. Parece que isso  sobrevive ainda na editoria esportiva?

Claro que essa proximidade também podia produzir alguns problemas, como uma cumplicidade nefasta entre as partes, mas era fundamental para que o repórter conhecesse a fundo os assuntos do seu setor e quais as melhores fontes procurar sobre determinadas temas.  Também não sou a favor do exagero das editorias de esportes de antanho que escalavam no mínimo dois setoristas todos os dias para cobrir os principais clubes, mesmo porque o enxugamento porque passam as redações não permitiria esse luxo hoje.

A especialização até permanece, com repórteres focados em política, trânsito, saúde, cidade, obras públicas e até obituários, mas falta profundidade no tratamento das questões, muito achismo, teses pré-concebidas e aquela sensação de que o ambiental não está presente. Em resumo:  reportagens de retaguarda, cheias de números e grafismos, mas  sem conexão com a vida lá fora. Eu quase falei em matérias com um quê de arrogância, mas deixa pra lá.


Minha desconfiança é que esse processo também está contribuindo para o crescente desinteresse do público pelas mídias tradicionais, o que está impactando especial e dramaticamente os veículos impressos.  Sou formado pelo jeito antigo de fazer jornalismo, mas não vou bancar o saudosista, pois talvez todo esse contexto atual, ao fim e ao cabo, seja evolução e não retrocesso.  Tomara, mas não resisto em declarar: bons tempos aqueles.