domingo, 2 de setembro de 2012

Flores da Guerra



Estreei o blu-ray ganho no Dia dos Pais com um belo e instigante filme: Flores do Oriente,  do cineasta chinês Zhang Yimou, o mesmo de Lanternas Vermelhas e de O Clã das Adagas Voadoras. Indicado para a categoria de melhor filme estrangeiro do Globo de Ouro em 2011, o filme conta a história, baseada em fatos reais, ocorrida durante a segunda guerra entre China e Japão, em 1937.  O agente funerário  John Miller (o atual Batman Christian Bale, indicado para o papel por Steve Spielberg) chega a uma igreja católica em Nanjing para providenciar o enterro do pároco local, morto por uma bomba japonesa.  Lá chegando o americano  se depara com jovens estudantes de um convento e prostitutas de um bordel próximo, atraídas pela aparente neutralidade do templo.
A sinopse do filme relata que, inicialmente, Miller se revela um sujeito egoísta e desinteressado com o conflito existente, mas com o passar do tempo assume a responsabilidade de proteger os dois grupos tão diferentes. Ele terá que lidar ainda com o pânico provocado pelos constantes ataques do brutal exército japonês, enquanto pensa numa forma de fugir de lá.
Destacando que preferia a tradução do título original (Flores da Guerra), aqui vai a primeira constatação deste crítico cinematográfico amador:  o filme é chinês, mas parece produção de Hollywood e, assim, não é de se estranhar que o personagem principal seja um cidadão americano e que boa parte da língua falada pelos personagens, incluindo os nativos, é o inglês.   Com um orçamento de 90 milhóes de dólares, adaptado do livro “13 Mulheres de Nanjing”, de Geling Yan, Flores do Oriente foi produzido quase como um épico sobre o episódio que ficou conhecido como o Massacre de Nanjing, que os chineses consideram como tão grave como o Holocausto dos judeus.
 
O filme me sensibilizou particularmente porque tive oportunidade de visitar em  Nanjing o memorial que reverencia os 300 mil chineses que teriam sido mortos durante a ocupação japonesa. Trata-se de uma construção pesada, com um longo  circuito  encravado  na rocha onde é oferecido um roteiro  dos horrores ocorridos naqueles dias em que a besta estava a solta em solo chinês e era apresentada com os olhinhos puxados dos japoneses. Há fotos de cenas reais, reais até demais, objetos de época como armas e uniformes, simulação de batalhas e de episódios relacionados ao conflito. Mas não consegui passar do terceiro salão do circuito, perturbado com a  brutalidade exposta naquele cenário claustrofóbico. Sim, pode não parecer, mas sou uma pessoa sensível.  Cabe esclarecer que na visita a Nanjing acompanhava o então prefeito José Fogaça em missão oficial à China.  O lado professor de Fogaça falou mais alto e ele cumpriu todo o dramático circuito.  Ao final, comentou os fatos mostrados em uma das últimas estações do circuito, dando conta de que, na versão dos chineses, foram eles os principais responsáveis pela vitória aliada na segunda guerra mundial, pelo menos na região do Pacífico. Nada que surpreendesse em se tratando dos chineses para quem, mais do que outros povos, vale a versão.
Também não surpreende que no filme de Yimou  um cidadão originário de um país inimigo até algumas décadas atrás seja o grande herói, que vai salvar as virgenszinhas chinesas e proteger as prostitutas das redondezas.  Impensável em tempos de guerra fria, o protagonismo do americano corresponde em certa medida aos novos ventos que sopram na China de hoje, de regime político fechado e economia capitalista. “Não importa a cor do gato, desde que ele cace ratos” é o mantra repetido desde Deng Xiaoping, significando que os resultados, mais do que a ideologia, estão em primeiro lugar.  No caso de Flores da Guerra não importa que o filme tenha o estilo de Hollywood, importa o potencial de faturamento no mercado americano e internacional. Se vale como medida o circuito brasileiro, o resultados podem ser considerados positivos: o filme estreou com a nona melhor colocação e mais de 15 mil espectadores na semana de estreia.