domingo, 23 de setembro de 2012

Habemus Papam


Depois de ter dormido nas exibições dos maus filmes indicados pelo seu o Coisinha,  proprietário da minha locadora, escolhi para a sessão de sábado Habemus Papam, da Nanni Moretti.  Tinha lido boas críticas a respeito e estava curioso para assistir ao filme e não me arrependi.
Nessa comédia dramática, o conclave se reúne no Vaticano para escolher um novo papa. Após várias votações, enfim há um eleito, o cardeal Melville. Os fiéis, amontoados na Praça de São Pedro, aguardam a primeira aparição do escolhido (Michel Piccoli), mas ele não vem a público por não suportar o peso da responsabilidade, e entra em pânico depois de um faniquito.  Tentando resolver a crise, os demais cardeais resolvem chamar um psicanalista, interpretado pelo próprio Moretti, para tratar o novo Papa, que acaba sumindo em Roma, período em que  aflora o seu lado mais sensível, o de ator frustrado.
A proposta do filme é tentadora, instigante até, como diria um amigo cinéfilo. Como católico desgarrado sempre me interessei pelos assuntos do Vaticano,  sou quase um vaticanista, mas  de certa forma fico contrafeito com aquela pompa e circunstância, os rituais de realeza que contrastam com pregação de que é aos pobres que está destinado o Reino dos Céus.

Diferente de Habemus Papam outros filmes recentes sobre o que acontece no Vaticano são mais incisivos em desnudar as mazelas da milenar Igreja Católica. Um bom exemplo é Poderoso Chefão III, nem tanto Anjos e Demônios.
Já o  filme de Moretti  é repleto de alegorias, que permitem variadas interpretações. O que significa, por exemplo, o impensável e hilário torneio de vôlei organizado pelo psicanalista no Vaticano, reunindo os veteraníssimos cardeais? É tudo um jogo? Interessante também o perfil de do novo Papa de Moretti.  Fisicamente lembra João Paulo II (que fez teatro quando jovem), mas com a sensibilidade de seu antecessor, João Paulo I, que morreu apenas 30 dias após ter assumido o trono de São Pedro, porque não teria resistido ao peso do papado.

É disso que trata Habemos Papam , um filme sobre a opressão que o poder exerce sobre os que não estão preparados para ele. O poder não foi feito para os sensíveis, mesmo que haja um deus a protegê-los e guiá-los.  Quantas vezes nos sentimos miseravelmente pequenos diante da grandeza dos desafios que nos são impostos? E quantas vezes, diferente do que ocorreu com o personagem de Habemos Papam, fomos compelidos à luta, sem direito a renúncia, que é um misto de covardia e humildade, mas também exige uma boa dose de grandeza.
O final é emblemático.  O escolhido pelos prelados  renuncia antes mesmo de assumir, enquanto os cardeais escondem o rosto. É uma Igreja perplexa, envergonhada, constrangida, o que resta, tudo a ver com a Igreja dos escândalos que tem vindo a tona e  que a cada dia perde mais e mais fiéis.