domingo, 6 de maio de 2012

Pérolas do calçadão

Já confessei aqui neste Descaminho que sou fascinado por aqueles retalhos de conversas ou frases soltas que ouço nas  incursões atléticas matinais pelo calçadão de Ipanema.  Minha audição não é qualificada, às vezes não sei distinguir um tango de um samba canção, mas tenho ouvidos apuradíssimos para sons e palavras próximas.  Ok, sou abelhudo mesmo e assumo.  Herança dos tempos do repórter que um dia fui.

Pois, nas minhas deambulações tenho ouvido verdadeiras pérolas dos outros passantes, normalmente diálogos entre parceiros de caminhada.  Sentenças como essa,  de um corretor de imóveis para o picareta de automóveis, ambos meus conhecidos de outras andanças : “Tem neguinho ai que gosta de ver marmanjo se agarrado no tal de UFC. Eu prefiro me agarrar com mulheres”. Ou essa, do tiozinho, impecável no seu abrigo Adidas branco: “Por aquela mulher eu abandonava o lar por umas 12 horas: uma hora para ficar com ela e as outras 11 para me recuperar física e moralmente.”  Fiquei com curiosidade para conhecer tal lambisgóia.

Outro dia fui parado por um amigo que vinha em sentido contrário e me fulminou com uma frase, antes de seguir adiante, em passo firme: “Caríssimo, antes a gente conversava sobre mulher. Hoje fala de exames médicos e remédios.” Nem tive tempo para a réplica, que talvez fosse de concordância.

Também reflexiva foi essa lamentação que capturei en passant: “ Estamos mal de ídolos. Antes a torcida era pelo Senna, agora é pelos BBBs. Eu fora!”  Quase fui atrás para me associar ao reclamo.
Mas a mais instigante de todas as frases foi a que ouvi na semana passada, sem que conseguisse identificar o que representavam os caminhantes: “Não fui indiciado na CPI e não apareci nas conversas gravadas pela PF. Sou um merda, mesmo!”

A que ponto chegamos! Talvez seja a hora de apelar  para aquilo  que já ouvi em algum lugar, não necessariamente na babel do Calçadão:
- Agora só me resta a massagem tântrica!