domingo, 20 de maio de 2012

Minhas invejas

Já confessei aqui, um tanto envergonhado, que não tenho a mesma compulsão pela leitura de tempos atrás.  Pelo menos duas dezenas de livros, isso mesmo,  duas dezenas, aguardam a vez de captar meu interesse, enquanto outros cinco estão sendo frequentados ocasionalmente, porque a mania de ler várias obras simultaneamente ainda não perdi.

Credito a minha descoberta das redes sociais, onde me divirto pra caramba, e a atenção que dispenso a este blog o descaso que, espero, seja momentâneo com a literatura.
Porém, nem tudo está perdido nessa batalha, porque mantenho o hábito de consumir nossos cronistas do cotidiano, nas colunas publicadas nos jornais diários.

A crônica, tal como a conhecemos hoje, parece ser uma manifestação literária bem gaúcha. Não é por outra razão que há inúmeras ofertas de oficinas de crônicas, tanto quanto as de contos, todas com o respaldo de conceituados nomes da nossa literatura.  A culpa talvez seja de Luiz Fernando Veríssimo, nosso cronista maior, mas o público consumidor do gênero vem sendo cultivado há décadas, acho mesmo que desde que Ruben Braga aqui aportou  nos idos de 1940 -  conta a lenda que fugindo de um marido corneado e vingativo – e passou a publicar no Correio do Povo.  Os mais antigos falam muito bem de JB, na extinta Folha da Tarde e, antes que o LFV passasse a dominar a cena, Sérgio Jockymann teve o seu tempo, assim como Josué Guimarães, que se assinava como Phileas Fogg  (personagem de A Volta ao Mundo em 80 dias) nos primórdios da Zero Hora. Na chamada crônica esportiva, Cid Pinheiro Cabral era o cara.
Claro que posso estar cometendo omissões e injustiças nesse arremedo de resgate da história dos cronistas gaúchos. Na verdade, cheguei até aqui somente para confessar minha admiração, fanzice mesmo, por alguns dos atuais cronistas projetados pela nossa mídia. Invejo, uma inveja bem invejosa, a fluidez dos seus textos, o primado da forma em relação ao conteúdo,  a frase bem escrita, cada palavra no seu lugar e cumprindo ordeiramente sua função, adjetivos e advérbios na medida, os argumentos bem sustentados, as ironias inteligentes e até mesmo algumas falsetas vez por outra, mas tão bem urdidas que acabo relevando. Hoje os jornais estão poluídos de tantos cronistas, mas pro meu gosto só alguns valem a pena ser lidos.

Ave minha ídala confessa Claudia Laitano,  alento e talento de todos os sábados, junto com meu guru Nilson Souza, também sabatino, racional poético, pai de todos, fura bolo e mata piolhos de tão bom, além de ser meu vizinho. Salve David Coimbra, companheiro de confraria com sua erudição erótica, o mais rodrigueano de todos,  e também o Juremir Machado, sub judíce na confraria mas instigante nas suas provocações e polêmicas,  de Palomas para o mundo com passagem por Paris. Hosanas Kledir Ramil, de Satolep,  que aprendi a gostar e gosto cada vez mais e também Carpinejar, que estou aprendendo a gostar e gostando do aprendizado. E tem ainda o sazonal e sempre invejado Moisés Mendes e os invejáveis internéticos Duda Rangel (desilusõesperdidas.blogspot.com) e Ernani Ssó (Coletiva.net), que  produzem textos que eu gostaria de ter escrito.
E não tem muito mais, a não ser mestre Sant’Anna, sempre tão Sant’Anna, mas que comete pelo menos uma crônica antológica por mês.  Só isso já vale.

Quando eu crescer quero escrever como essa gente e ter pelo menos uma meia dúzia ou dúzia e meia de flávios dutra para me invejar. Por enquanto, fica só a inveja.