terça-feira, 7 de junho de 2011

Casamentos em risco



Mais do que a eventual infidelidade de um dos cônjuges, mais do que encostar o pé frio embaixo das cobertas, mais do que a tolha molhada sobre a cama ou as calcinhas penduradas no banheiro, o que pode detonar uma crise irreversível no casamento são dois fatores, claro que do ponto de vista, de viés machista, deste blogueiro. Anotem, pela ordem de importância: a conta bancária conjunta e os pedidos prosaicos das senhoras aos seus maridos justo no momento em que o guerreiro está concluindo sua penosa lida diária e se recolhendo ao lar.

Não é preciso muita argumentação para sustentar os perigos de uma conta conjunta, nem tanto pela fúria consumista das parceiras, mas pelo controle que ela passa a ter sobre movimentação financeira do maridão, a oficial e a paralela. Como justificar aquele agrado, em forma de jóia, destinado sabe se lá a quem, ou melhor, sabe-se bem a quem, enquanto a madame tem que se contentar com bijuterias baratas e imitações chumbregas. E como explicar aquela grana preta gasta na casa daquela Tia famosa, na noite em que deveria estar reunido com a confraria dos amigos de fé?

Por mais irracional que possa parecer, o infrator recorre ao cartão de crédito conjunto para debitar as despesas de seu lado B. Ingenuidade, excesso de confiança ou desejo inconsciente de ser desmascarado para compensar o sentimento de culpa ? O que leva um cidadão, no pleno uso de suas faculdades mentais, a cometer tamanha babaquice? É difícil saber, mas uma coisa é certa: vai dar rolo e o casamento corre risco.

Falamos do lado perigoso. Tratemos agora do lado irritante que pode balançar um casamento. Irritante para o batalhador do cotidiano é, ao fechar o computador, receber o telefonema da patroa:

- Mor, já tá saindo? Então traz pão, leite e frios. Não esquece, viu mor.

A empatia toma conta de mim e eu me coloco no lugar desses pobres homens, obrigados a executar tarefas pouco nobres, depois de terem decidido o destino de pessoas e instituições. Na real, não saberia dizer o que irrita mais, se a forma reduzida de” Amor” ou o “não esquece,viu”. Solidário com o naipe masculino, considero as duas coisas uma forma de tratamento vil e perversa.

Nas minhas andanças já assisti a companheiros, homens de forte personalidade, se curvarem indignamente diante dos pedidos banais de suas patroas. Um deles, consagrado comunicador, atendia docemente o telefonema, anotava os pedidos e depois se transtornava porque fraquejara na hora em que precisava se impor.

- ...e não esquece de trazer também palitos e guardanapos, determinava a senhora do outro lado da linha.

Era demais, realmente, e o sujeito, aniquilado moralmente, bufava pela incapacidade de reação. Vamos combinar/aceitar que a nós está reservado, entre outros papéis, o de provedor, legado que recebemos desde os tempos das cavernas quando nossos ancestrais saiam à caça para garantir a sobrevivência de cada dia. Os tempos mudaram mas abater um leão por dia para garantir o sustento da família continua sendo nossa principal missão. Vai daí que aprovisionar a família com itens de consumo diário passou a ser obrigação do guerreiro na volta ao lar. Pão, leite e frios ainda vai, mas palitos e guardanapos é uma demasia, uma afronta. Insurgência masculina, já!

Bem, agora me dêem licença, porque recebi um telefonema da Santa e vou precisar passar no supermercado...


*Obrigado, Giuli