segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Deu pra ti, Facebook.

Acho que estou curado da síndrome do viciado em Facebook.  É que consegui ler um livro inteiro em apenas dois dias, depois de um longo tempo sem me dedicar a leitura. O responsável pela minha volta ao mundo dos livros foi o Claudinho Pereira e seu Na Ponta da Agulha, embalos da noite de Porto Alegre, conforme o subtítulo da obra. 

Benditas conversas na Feira do Livro do ano passado entre o Claudinho e o Márcio Pinheiro, da Coordenação do Livro da Secretaria Municipal da Cultura (SMC). Foi dessas conversas que começou a nascer a ideia do livro, materializado agora pela Editora da Cidade e encontrável no estande da SMC na Feira do Livro ou no da Palmarinca, que fica próximo ao pavilhão de autógrafos.

Nem lembro quanto paguei pelo exemplar, mas garanto que Na Ponta da Agulha vale cada centavo. O relato do Claudinho, testemunha presencial de praticamente todos os agitos da noite porto-alegrense nas ultimas décadas, é uma delícia de ler e mais ainda pela riqueza de depoimentos de quem participou diretamente de cada avento destacado. E que desfile de personagens! 
A mim chama a atenção o fato de que a noite da cidade já foi mais frenética, mesmo que os grandes eventos, os melhores shows e as principais novidades em termos de casas noturnas tenham ocorrido no tempo da ditadura, quando a repressão era presente no nosso dia a dia.  Talvez a resposta esteja justamente aí, a festa funcionando como fuga da realidade, mas acho que viajei na maionese. A propósito, conta o Claudinho , a expressão “viajar na maionese” seria criação de Sérgio Bini: “Por guardar maconha em um vidro de maionese, ele brincava – ‘Vamos viajar na maionese!’”
Os locais mencionados me soam familiares – Baiuca, Encouraçado Butikin, Le Club, Água na Boca – mas não devo ter frequentado uma décima parte das casas noturnas descritas no livro e quando o fiz foi na condição de convidado para alguma “boca livre”.    Mas tenho saudades da Barlândia, a quadra da Protásio Alves entre a Montenegro e a Palmeiras com inúmeros barzinhos (era assim que se falava) e uma  ou outra casa de show ,  isso a meia quadra da minha casa, daí porque me tornei um habitue nas noites de sábado com uma turma de apreciadores de cerveja e de mulheres bonitas. 

Lembro também de algumas incursões ao Ressaca, do Zé Antonio Daudt, ali na esquina da Luiz Afonso com João Pessoa, na Cidade Baixa.  Comparecia à casa  avalizado pelo meu primeiro editor, um maluco genial chamado Coi Lopes de Almeida, que agitava a redação da Zero Hora a partir da editoria de Esportes nos primeiros anos da década de 70 e que nos deixou tão cedo. Foi no mezanino do Ressaca que assisti a uma cena impensável: companheiros de mesa fumavam maconha sem constrangimento, enquanto o titular da Delegacia de Entorpecentes,  também grande figura ligada ao esporte e amigo de todos, sentado na mesa ao lado, não estava nem aí para o desacato.

Claudinho assistiu  a cenas mais chocantes, como  a do técnico de som que vira uma tocha humana e é aplaudido como se fosse atração do espetáculo, história relatada no capítulo dedicado ao Circo Escaler Voador. O  livro está repleto de outros causos, mais hilários e curiosos, como a estratégia usada por Elaine Ledur e Dirnei Messias para garantir o sucesso do lançamento da primeira boate de Porto Alegre  assumidamente para o público gay, a Flower’s. Conta aí, Claudinho: “Convidaram para um jantar quatro gays,que sempre figuravam entre as pessoas mais queridas e bem relacionadas da cidade. No jantar, contaram a bombástica novidade, em tom de segredo: Vamos abrir uma boate gay daqui a 30 dias, mas vocês não podem contar nada para ninguém. No dia seguinte toda a Porto Alegre já sabia da novidade”.
Por tudo isso, Na Ponta da Agulha é uma leitura prazerosa, que recomendo com entusiasmo. Agora, que venha David Coimbra e sua Uma História do Mundo. Deu pra ti, Facebook.