sábado, 4 de agosto de 2012

Fracasso! Que fracasso?

Ainda me emociono quando um brasileiro sobe ao pódio e exibe orgulhoso sua medalha.  São tão poucas em comparação com as grandes potências olímpicas e tão marcadas pela superação as parcas conquistas  dos nossos atletas que os elegi como meus heróis, aqueles por quem vale a pena  torcer e se emocionar.

 Por isso, não estou entendendo – ou melhor ,rejeito com todas as minhas forças – essa cobrança em cima da Fabiana Murer por ter sido eliminada nas provas de salto com vara.  “Um fracasso” é o mínimo que se ouve na chamada mídia especializada, esquecendo todo o passado recente de grandes vitórias da saltadora brasileira. O campeoníssimo César Cielo também está recebendo cobrança semelhante porque ganhou “apenas” o bronze nos 50 m nado livre, ele que era um dos favoritos. Foi assim também com a nossa Daiane dos Santos, que amargou um quinto lugar em Atenas, quando o ouro era tido como certo por todos os brasileiros.. E teria tantos outros exemplos.
Não posso deixar de ser solidário e me comover com um jovem que chora por ter decepcionado uma nação que esperava dele,  naquele rápido século de duração  das provas, a redenção para suas frustrações cotidianas. Ingrata nação, injusta nação.  Os deuses olímpicos não estão nem aí para os nossos sonhos e preferem ajudar quem se ajuda, quem investe com seriedade em políticas públicas para fomentar o esporte e  que busca através das práticas, de alto rendimento ou apenas recreativas, uma nação mais saudável e não uma forma de propaganda.

E vamos combinar: a classificação da Fabiana Murer ou a medalha com metal mais valioso do Cielo não mudaria,  nem pra mais nem pra menos, o nosso dia a dia. É nessas horas também que gosto de recuperar, por oportuno,  uma crônica antológica do Drumond – Perder, ganhar, viver – publicada no dia seguinte à derrota do Brasíl para a Itália, na Copa de 82, quando fomos eliminados. Selecionei alguns trechos:
"Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo.
(...)
Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos ou adquirimos, na maioria das cabeças, o senso da moderação, do real contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da vida. Não somos invencíveis. Também não somos uns pobres diabos que jamais atingirão a grandeza, este valor tão relativo, com tendência a evaporar-se. Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária. Ora, o Telê! Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos.

E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano já está na segunda metade?"