segunda-feira, 18 de abril de 2011

O rei das gafes

Os franceses usam o termo gaffeur para designar o sujeito trapalhão, inconveniente, desastrado, que comete gafes. Não é para me exibir, mas acho que me enquadro na categoria, tantas são as mancadas que tenho perpretado. Um pouco por distração, mas muito mais pela compulsão para ser gentil, elogioso e ter sempre uma tirada bem humorada tem me colocado em cada saia justa que vou te contar.


Certa vez, visitando um médico, pai de uma colega da minha filha, notei que ele mancava e, como estava de abrigo esportivo e contava façanhas como atleta amador, perguntei se o repuxe da perna era resultado do futebolzinho entre amigos. “ Não, tive poliomielite quando pequeno”, foi a resposta. Toing!

Outra vez, um companheiro de trabalho fez questão de mostrar seu filhinho pequeno, de colo, e eu maliciosamente insinuei que o garotinho era parecidíssimo com o chefe do tal companheiro. O sujeito fechou a cara e nunca mais falou comigo. Com toda a razão: soube depois que a mulher dele teria tido um caso com o chefe. Tóing!!

Já dei taponas nas costas de mulheres de cabelo curto pensando que fosse um conhecido, perguntei por falecidos que jurava ter encontrado recentemente, errei de igreja em casamentos em que era padrinho, troquei nomes de pessoas e esqueci outros nos momentos em que não poderia e por aí vai. Algumas situações foram tão escabrosas que fico ruborizado só de lembrar.

Mas não estou sozinho nesta parada. Um amigo jornalista tinha como colega de aula uma gêmea de outra moça, ambas consideradas como feias de doer. Sucede com o nosso amigo acabou conhecendo a outra irmã e, todo gentil e algo distraído no manejo dos advérbios, comentou mais tarde com a colega: “Conheci ontem tua irmã. Ela é horrivelmente parecida contigo”.

Essa outra é de uma colega, solidária, mas muito expansiva. Ao tomar conhecimento da morte de um amigo de anos, convocou uma amiga comum e se tocou para o cemitério. Lá chegando, protegida por enormes óculos escuros, entrou na primeira capela que encontrou, saudou pesarosa dois ou três familiares do morto e foi prestar suas homenagens junto ao esquife. Agarrou a mão gelada do falecido e começou a falar como se conversasse com o corpo inanimado: “ Augusto, por que nos abandonastes tão cedo? Isso é coisa que se faça com os amigos, Augustinho”, enquanto alisava a mão do morto e fungava discretamente.

Na entrada da capela, os parentes assistiam à cena, estaqueados. A acompanhante achou que havia algo de estranho no falecido: “ Amiga, o Augusto está tão diferente. Essa barba...”, sussurou.

Mas a outra não lhe dava atenção e continuava seu diálogo unilateral com o cadáver. “Augusto, querido, o que essa doença fez contigo! Puxa, tanto tempo sem te ver e agora te encontro assim, tão diferente, tão maltratado, meu querido Augusto.”

Os parentes começaram a se aproximar do cenário, já desconfiadíssimos, enquanto a acompanhante insistia: “ Amiga, o Augusto não usava barba. Acho que esse daí não é ele”.

Foi aí que caiu a ficha da amiga, que lentamente recolocou a mão do falecido junto ao corpo, naquela posição de descanso a que tem direito os chamados para o sono eterno.

Antes que os familiares levassem adiante as suspeitas de que se tratava de algum caso extra-conjugal do falecido, a dupla de moças saiu porta afora, a procura do velório do verdadeiro Augusto: “ Desculpe, foi engano”, ainda conseguiram justificar aos atônitos parentes.

Já errei de igreja em casamento, mas de velório jamais. As duas gaffeurs me superaram!