domingo, 14 de março de 2010

Abaixo o bis


Assisti na sexta-feira passada ao show da Rita Lee, que ela classificou como ensaio geral para o dia seguinte. Como não alcanço as sutilezas e exigências da artista, que parecia incomodada com algum detalhe da produção ou da performance dos músicos, curti a apresentação como se estivesse assistindo aos Mutantes lá na década de 70, quando me tornei fã de carteirinha da Rita Lee. Tanto assim que Fuga nº 2 (“Pra onde eu vou, venha também...”) era a música que meu grupo usava como característica (ou prefixo, como se dizia na época) dos trabalhos audiovisuais na Fabico, a Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Ufrgs. Mas aí já é muita nostalgia.

Voltemos a Rita atual que aos 65 anos – ou seriam 62? – ainda dá um caldo, tem energia pra dar vender, contagia pela irreverência e astral e, é claro, pelo balanço de suas músicas. Mesmo eu, que tenho a destreza daqueles bonecos thunderbirds, dei minhas saracoteadas discretas.

Só uma coisa me incomodou no show, como em tantos outros que tenho assistido: o momento do bis. Até os tapetes do teatro sabem que o primeiro encerramento dos artistas é “fake”. Pode ser rabugice minha, mas é sempre a mesma encenação: o pessoal se despede, agradece, acena para o público, as luzes se apagam e começa a bateção de palmas e pés, gritinhos e assobios, exigindo a volta dos artistas ao palco. No show da Ritinha, uma senhora atrás de mim gritava, com carregado sotaque interiorano: “Rita Lee cadê você, eu vim aqui só pra ti ver”. Nem eu mereço!

Todo mundo sabe que é só questão de tempo para os artistas retornarem e interpretarem mais duas ou três músicas. Mas o ritual acontece em todos os shows e é sempre igual. Desconheço como é o comportamento do público e dos artistas no exterior e só o que me falta é esse ritual do bis ser uma bobagem globalizada. O que leva artista e público e esse acordo tácito? O pessoal da psicologia deve ter uma boa resposta.

Uma única vez conseguimos, eu e todos os espectadores, escapar do bis. Foi na apresentação de uma inglesa no Teatro do Sesi, misturando música e interpretação de textos cabeças, uma chatice internacional. Tão chato que assim que a moça apresentou a última música, o teatro esvaziou rapidamente – todos debandaram temerosos de que ela voltasse para o bis.

Se eu fosse um artista renomado, para escapar a um constrangimento desses - de não ser exigido para o bis – ou para evitar a chatice de sair e voltar do palco e toda a algazarra que precede a extensão do show, demarcaria ao final das minhas apresentações o momento da transição: “Olha aqui pessoal, a partir de agora é o bis, não precisa nem pedir”. E já emendava dois ou três sucessos antigos que é o que o povo quer. Simples e eficiente. Enquanto isso, abaixo o bis.