sábado, 5 de março de 2016

Os ditados da dona Thelia

A memorável dona Thelia, matriarca dos Vieira Dutra, costumava apelar para os ditados mais clichês quando queria opinar de forma contundente, mas não tinha tantos argumentos. “Deus dá a noz para quem não tem dentes” era um dos seus preferidos e uma afirmativa sobre o quanto a vida podia ser injusta, às vezes. Só que o efeito nos filhos pequenos era de puro horror. Imaginávamos que a noz, na real, se referia a nós, que teríamos como destino trágico sermos entregues a uma bruxa malvada e desdentada.

Outro ditado muito usado era um tanto apelativo na sua formulação, o que não nos surpreendia devido a origem carcamana da nossa mãe: “Quem muito se abaixa o c...se lhe aparece”, assim mesmo, com o pronome colocado de forma saliente.  Era o jeito dela nos ensinar que humildade demais expressa menos virtude do que expõe defeitos.
Orgulhosa da sua prole era dada a exageros ( “não tenho filhos feios”, repetia sempre) e quando aparecia uma pretendente que não correspondia a seus padrões estéticos declarava enfática: "Quem ama o feio bonito lhe parece”, agora com o pronome mais bem situado.  Não sei se as circunstâncias eram essas mesmo, mas bem que correspondem ao estilo thelistico, como o apelidamos. 

Confesso agora que neste momento desempenho o papel de filho indigno, uma pessoa abjeta mesmo, ao usar a saudosa dona Thelia para tergiversar sobre o momento politico atual, o que nada tem a ver com o histórico e o legado de uma grande dama. 
Assim, resgato o "Quem ama o feio, bonito lhe parece". É isso. A devoção causada pelo amor leva a veneração, que distorce a realidade, transforma o feio em bonito, realimenta a adoração e pode virar uma obsessão.  Na vida e na ficção.
O filme O Amor é Cego retrata bem esse processo. O personagem de Jack Black, sob efeito de hipnose, se apaixona por Rosemary ( Gwyneth Paltrow ), uma mulher obesa que é vista por ele como se fosse uma verdadeira deusa. Um dia, porém, o efeito da hipnose passa e é preciso encarar a realidade.
Esse  encontro com a realidade, o fim do encantamento, é um momento dramático para os que o enfrentam, embora muitos prefiram se manter alienados ainda, dando sobrevida à falsidade.

Imagino que seja isso o que está acontecendo agora com a militância de certo campo partidário da esquerda cujas principais lideranças deixaram de ser belos exemplos de patronos de novos tempos para se transformarem em obesos representantes do que existe de mais sujo no âmbito dos poderes. Para muitos, acabou o mito, mas alguns ainda acreditam que sua crença está acima do bem e do mal.  Acho que estou sendo bastante claro e não é preciso alongar mais a questão.
"Quanto maior a obsessão, maior a frustração". Por certo essa seria a frase  clichê da dona Thelia para o caso.

Para não ser injusto permito me reproduzir uma postagem no Facebook da minha amiga Andrea Back, que tem a ver com o que foi exposto e que assino embaixo:Aqui, onde corrupção é um projeto coletivo, pluripartidário e histórico (talvez a única política pública com continuidade...) seria gentileza do lado oposto - seja de qual lado você está vendo a situação - dar o mérito de tanta roubalheira e canalhice a uma legenda, um líder. Fato: alguns tiveram mais talento na pilhagem.... Mas acredito q o caminho para finalmente reverter esta lógica é o trabalho e a autonomia das instituições, para que seja feito o serviço
Aqui, onde corrupção é um projeto coletivo, pluripartidário e histórico (talvez a única política pública com continuidade...) seria gentileza do lado oposto - seja de qual lado você está vendo a situação - dar o mérito de tanta roubalheira e canalhice a uma legenda, um líder. Fato: alguns tiveram mais talento na pilhagem.... Mas acredito q o caminho para finalmente reverter esta lógica é o trabalho e a autonomia das instituições, para que seja feito o serviço Completo.