sábado, 20 de fevereiro de 2016

Trabalhos domésticos

Já vou avisando: sou avesso aos trabalhos domésticos, aqueles pequenos consertos e manutenções necessárias, tipo cortar a grama, mexer em instalações elétricas ou pinturas em geral. Tenho incompatibilidade histórica com martelos, furadeiras, serrotes, e todas as ferramentas que exijam um mínimo de destreza no uso. No máximo mantenho uma relação amistosa com as tesouras, desde que não sejam de aparar grama e que sirvam para serviços bem leves, como cortar aquele fiozinho rebelde nas roupas. Minhas habilidades domésticas se restringem a trocar lâmpadas e lavar espetos e grelhas de uso churrasqueiro.

Tenho nutrido uma santa inveja das pessoas que lidam bem com essas demandas do lar, entre eles o meu filho Rafael e alguns cunhados que não apenas sabem fazer como curtem o que fazem, esses humilhadores dos despossuídos de talentos manuais. Invejo particularmente o eletricista profissional, com suas trifases e monofases, fios terras,  correntes elétricas, seus watts e volts.  Chega a me dar curto circuito mental. E tem o instalador hidráulico cheio de “veja bens” técnicos e o funileiro com suas algerosas –  eis um termo que considero supimpa - , mais os  pedreiros e seus auxiliares, um bando de privilegiados que dominam toda a alquimia das nomenclaturas e das instalações prediais. Acho que é por isso que cobram tão caro por seus serviços.

Já as minhas dificuldades começaram desde cedo, nas aulas de Artes Manuais, que faziam parte do currículo do curso primário (hoje parte do Ensino Fundamental) lá no Colégio Santa Inês, no bairro Petrópolis.  O colégio das freiras incentivava os trabalhos com madeira e outros artesanatos. Para as meninas, bordados, pinturas e confecção de mantas de lã com um complicado instrumento de  madeira e pregos que,  por alguma interferência divina, conseguia um resultado final bem aproveitável nos rigorosos invernos de então. Ocorre que no meu caso para finalizar os crucifixos de madeira, que deveria destacar do molde com uma serrinha e depois lixar as bordas, quase sempre ameaçava supliciar ainda mais o pobre Cristo devido a minha imperícia.  E as mantas – aos meninos também era permitido criar – saiam ponta abaixo, ponta acima, cobrindo mais de vergonha o pequeno artesão desajeitado do que os pescoços para os quais deveria servir. Vem daí meu trauma e minha aversão, para os quais peço condescendência de todos.


Agora, se me permitem, estou sendo convocado para um trabalho doméstico e desse não tem como escapar, porque colocar o lixo lá fora não requer prática nem habilidade.