sábado, 6 de fevereiro de 2016

Sexo, mentiras e Carnaval


* Reeditado a partir do original publicado em 06/11/2009, mas continua atual como nunca

O poeta é um fingidor. 
F
inge tão completamente 
Que chega a fingir que é dor 
A dor que deveras sente.

Parafraseando Fernando Pessoa, o infiel é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é real, o fingimento que deveras finge. Com o perdão do poeta, submetemos a apreciação do prezado público nosso enfoque sobre o fingimento - aqui com conotação de mentira -, em sua relação indissociável com o adultério. E adicionamos a oportunidade representada pelo Carnaval.

A premissa básica é que não existe adultério sem mentiras. Entretanto, há uma tênue linha separando o exercício de enganar o próximo por necessidade da mentira por compulsão. Conheço sujeitos que se dedicam a infidelidade só para poder mentir, quando o correto seria mentir para continuar traindo. Uma é arte, a outra é patologia.

Mas o que é a mentira, além de um pecadilho venial? O celebrado Guy Durandin, autor de As Mentiras na Publicidade e na Propaganda, sustenta que a mentira contempla quatro operações: omissão, ampliação, redução e invenção. Todas elas revelam que o autor da mentira busca fragmentos do real, ou seja, no fundo é um bem intencionado.

A invenção! É neste tópico que os infiéis se consagram em busca do estado da arte em termos de explicações para suas práticas extraconjugais. Há um clamor por exemplos. Selecionamos dois.

P., executivo de multinacional, se esbaldou em um baile pré-carnavalesco e acabou a noitada com uma havaiana, mulher do tipo "aprecie sem moderação". Um resultado perverso do encontro é que ficou todo adesivado com purpurina, aquelas estrelinhas que inventaram para atazanar os infiéis do período momesco. De quebra, nosso executivo tinha confetes até na raiz dos cabelos.

O que fazer se no final da tarde iria se encontrar com a família na praia? A purpurina é resistente até ao mais caprichado banho e os confetes entranham nas roupas e se escondem nas dobras mais complicadas. Chega a hora em que serão descobertos, você sabe por quem. Mas o nosso executivo era um homem de sólida formação em planejamento estratégico, com especialização em gestão de riscos, e logo montou um plano emergencial para justificar as purpurinas e os confetes. Antes de seguir para o litoral passou numa loja especializada e comprou dois sacos de purpurina e outros tantos de confetes. Levou ainda três rolinhos de serpentina, máscaras de papelão para as crianças e, num toque de safadeza, um colar de havaiana para a mulher.

Ao chegar à casa da praia, foi recebido com alegria pela família e ficou contagiado, quase comovido, pela recepção tributada a um chefe de família que passara a semana ralando na Capital. E desceu do carro extravasando as emoções que o momento exigia:

- Alegria, alegria! É Carnaval, venham, venham, - convocava aos familiares.
Para reforçar o clima carnavalesco o som do carro reproduzia antigas marchinhas. Tudo fora previsto. E quando a família estava bem próxima ele começou a jogar para o alto as purpurinas e os confetes, todos ficaram impregnados, comungaram daquela espontaneidade e ele não precisou justificar nada. À noite, com as energias que ainda lhe restavam, foi exigido sexualmente pela mulher que, a pedido dele, usava apenas o colar de havaianas...Agiu como um “serial killer” que deixa sua assinatura nas vítimas.

Outro caso que demandou muita inventividade envolveu S., publicitário de renome, que perdeu a hora num fuzuê com a namorada e quando acordou no apartamento dela, o dia estava clareando. Perder a hora é o terror dos infiéis e acontece com frequência. O que diferencia cada caso é a capacidade de superar o pânico inicial e virar o jogo a seu favor. Foi o que fez o nosso criativo. Primeiro descartou-se do celular, despediu-se da moça e tratou de estacionar o carro numa rua discreta. Tinha que agir rápido porque a essa altura a família, com justa preocupação e temerosa de que ele tivesse sido vítima de sequestro, já poderia ter acionado a Polícia. Com a cabeça funcionando a mil, apanhou um táxi e ordenou:

- Toca o mais rápido possível para o Lami.

O Lami, como se sabe, fica no extremo sul da cidade, a beira do Guaíba. Lá chegando ele despachou o táxi logo que encontrou o primeiro telefone público. Ligou para casa, a cobrar e quem atendeu foi a esposa, quase aos prantos.

- Onde tu anda, criatura? Estou aflita e já ia ligar para o 190.

Ele lembra que um calafrio estremeceu seu corpo, mas manteve a calma e deu continuidade ao seu plano.

- Fui abduzido por alienígenas. Não fala pra ninguém que depois eu explico tudo. Não sei como, vim parar no Lami. Vem me buscar.

No caminho para casa ele contou que foi abordado à noite, depois de um jantar com amigos, por seres verdolengos, de cabeças e olhos grandes. “Parece que falavam por telepatia”, detalhou. “Aí me levaram para uma nave toda iluminada e é só o que eu lembro”, acrescentou.

A historia era inverossímil, mas foi relatada com tanta dramaticidade que a mulher acreditou. Para concluir, alegando que tinha receio de ser ridicularizado, fez a mulher jurar de pés juntos que aquilo seria um segredo apenas entre eles e que nunca mais falariam no assunto. E assim foi feito. Nosso publicitário, porém, providenciou um novo celular com despertador que não falhasse e presenteou a namorada com um rádio relógio de marca confiável.

A ousada estratégia adotada tornou-se um clássico da invenção, merecendo o reconhecimento dos mais respeitados especialistas. Tanto assim que ganhou variações. A mais comum é a variante do sequestro.

- Querida, fui sequestrado. Não sei como, vim parar no Sarandi. Mas não liga pra Polícia porque os bandidos podem querer se vingar. Vem me buscar.