domingo, 24 de novembro de 2013

Ouvido na mesa ao lado


Como vocês sabem tenho mania de ouvir conversas alheias na mesa ao lado.  Herança dos tempos de repórter que um dia fui e ter ouvidos aguçados era preciso.  Pois noite dessas, entre um bolinho de bacalhau e outro, à espera do meu linguado à portuguesa , fui apanhado por uma frase da mesa ao lado:

-...e o cara me disse que estava há 10 anos sem transar!

De imediato, liguei todas as antenas e me detive no relato que o rapaz fazia para a assistência da mesa ao lado.  Pelo que entendi, a história é mais ou menos assim:  uma cunhada do relator enamorou-se de um jovem extremamente religioso e isso mudou sua vida e o cotidiano de toda a  família.

-Até meu sogro teve que mudar os hábitos, parar de dizer palavrões, para não atrapalhar o relacionamento, explicou o rapaz da contação.

Ato seguinte, mostrou no celular a foto da moça e pela reação dos circunstantes deduzo que se trata de um belo espécime da raça humana no seu naipe feminino. Apesar dos atributos físicos e de um passado, digamos, festivo e diversificado, a moça estava enfeitiçada pelo namorado a ponto de dedicar parte do seu tempo para, juntos, lerem e refletirem sobre as lições dos capítulos e versículos bíblicos.

Só que, passados seis meses de seca, a jovem já não aguentava mais a falta de iniciativa do moço e, certa noite na casa dos pais na praia, ficou nua em pelo no quarto sobre a cama, simulando que estava dormindo.  Ao abrir a porta do quarto para um beijo de boa noite e uma última oração, o namorado entrou em pânico diante daquele quadro erótico on line.  Tratou então de sacudir a jovem, exigindo que se vestisse. Como ela continuava fingindo sono profundo,  começou a vesti-la da calcinha ao pijama, ao contrário do que era de se esperar do verdadeiro amante, que retiraria roupa por roupa – foi o pensamento malicioso que me ocorreu ao ouvir o relato.

A tensão entre eles aumentou e decidiram casar para que pudessem consumar a união, conforme os preceitos religiosos do rapaz.  Casaram e a primeira noite foi também a ultima: a moça, ansiosa pela espera da pegada do namorado, decepcionou-se com o desempenho e os dotes do rapaz.  A paixão evaporou-se em apenas uma noite, uma noite frustrante.   E no dia seguinte  a moça já estava procurando um ex, confiável na pegada e nos dotes, enquanto o marido despejava pragas e previa o ” fogo eterno” para a infiel.

Sucede que depois de 10 anos sem praticar, o moço estava sem empuxe,  tinha desaprendido o pouco que sabia, sem contar que estava desapetrechado no principal equipamento.  Até para casar tem que ter treino, conclui eu, ao retornar aos acepipes e à conversa mais trivial na minha mesa.

A mesa ao lado havia rendido!