quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Niemeyer e eu

Um dia pensei em ser arquiteto por causa de Oscar Niemeyer. Estávamos na década de 70 do século passado, eu tinha 17 anos, estava terminando o colegial e precisava decidir entre a Arquitetura e o Jornalismo. Minha mãe não escondia a preferência pela Arquitetura, alegando que Jornalismo não dava dinheiro e era “coisa de gente bagaceira”. Dona Thélia, não tinha preocupações com as sutilezas. E dizer que ela não escondia a preferência é uma forma de atenuada de dizer que ela fazia uma pressão todos os dias naqueles tempos de incerteza quanto ao meu futuro profissional. Seja por isso ou por outra razão qualquer, acabei optando pela Arquitetura em detrimento do Jornalismo, eu que fora um dos editores do bravo e pioneiro Na Onda, jornal mimeografado que circulava em Petrópolis. Era um entusiasta do Jornalismo, mas estava fascinado pela Arquitetura.


Brasília, nascida nas pranchetas de Niemeyer e Lúcio Costa, fora inaugurada poucos anos antes, deslumbrando o mundo por sua modernidade. As curvas de Niemeyer eram um charme só e aqueles outros detalhes, como as colunas do Alvorada, as cúpulas do Congresso, e tantos outros em cada prédio público – tão simples e tão geniais. O chamado da Arquitetura era irresistível. E lá fui eu, sonhando em ser um novo Niemeyer.

Mas, diferente do que se apregoa que o universo conspira a favor dos nossos desejos, a realidade é bem outra e mais cruel. No caso, havia apenas um curso de Arquitetura em todo o Estado à época, na UFRGS, oferecendo 60 vagas a cada semestre. O número de candidatos por vaga era altíssimo, com tendência a crescer mais ainda desde que se revelou que Chico Buarque, além dos olhos verdes e do imenso talento musical, era formado em Arquitetura. O autor de A Banda, que estourara como vencedora de um festival da canção, inspirou várias mocinhas- e rapazes também - a serem os bacanas que seguiriam os caminhos não apenas de Niemeyer, mas do genial Buarque de Holanda. Chico também foi meu ídolo, mas prestou um grande desserviço à causa na medida em que atraiu para o vestibular da Faculdade de Arquitetura da UFRGS um sem número de candidatos pouco vocacionados, complicando meu ingresso, eu que queria ser mais Niemeyer e menos Chico, e frustrando os sonhos da dona Thélia. Chico me deve esta.

Fiz três tentativas, todas fracassadas porque o vestibular de Arquitetura ainda era à moda antiga, com questões específicas de matemática, física, português, história da arte e desenho à carvão. Até a matemática e a física eu tirava de letra, mas o desenho a carvão, pré AutoCad, era uma barreira instransponível para um jovem sem qualquer talento para o traço, no caso, eu. A coisa era mais ou menos assim: a gente recebia um carvão fino, uma folha grande de papel jornal e precisava reproduzir quatro ou cinco elementos – tijolos, garrafas, vasos – expostos em cima de uma mesa. Fácil, né? Tenta pra ver.

Enfim, me ferrava sempre e acabei dando a volta por cima, retomando a minha verdadeira vocação, o Jornalismo e de imediato passei nos vestibulares da Federal e da PUC. Mas ainda guardo ótimas lembranças dos cursinhos preparatórios promovidos pelo Diretório da Arquitetura, o DAFA, com professores da própria faculdade ou estudantes dos últimos semestres. Foi quando tive contato mais direto com os conceitos e a obra dos grandes mestres do século XX, como Le Corbusier, o francês que inspirou a moderna arquitetura brasileira, Mis van der Rohe, professor do movimento alemão Bauhaus e o arquiteto do sonho americano, Franck Lloyd Wright, só para citar os principais. E entre eles, orgulhosamente incluir Niemeyer, a mais fulgurante estrela dessa constelação de gênios do traço, dos espaços e da infinitude.