sábado, 7 de julho de 2012

Livrai-me das homenagens

Quintana e Drummod,em bronze na Praça da Alfândega, em Porto Alegre: não é engano eterno


“Um engano em bronze é um engano eterno”. A frase foi a desculpa de Mário Quintana para evitar ser homenageado – com uma placa em bronze - pela prefeitura de Alegrete, terra natal do poeta.  Mas o prefeito não desistiu e usou a frase, simples e genial como o poeta, no bronze que hoje é uma das atrações da praça central da cidade fronteiriça. Por necessário, foi acrescentada uma explicação na placa: “Frase com que o poeta Mario Quintana se eximiu de escolher um verso seu para gravar em bronze”.

Eximir é um verbo mais correto para recusar determinadas homenagens. No serviço público é comum empresas promotoras de evento menos sérias, vigaristas mesmos, oferecerem troféus e diplomas de Destaque  disso ou daquilo a prefeitos e vereadores. A comunicação da “homenagem” é acompanhada de um doc para depósito bancário, com quantias variáveis dependendo do caso, a título de “despesas administrativas”, “aquisição de convites” ou outra designação qualquer porque, nesse âmbito, a criatividade não tem limites.
Também tem muito amadorismo no meio. Certa vez fui representar uma importante liderança política num evento em Porto Alegre e, além de ter de pagar o jantar (o tradicional fricasse de galinha com batata palha e arroz à  grega,  que de grego só tinha os pequenos nacos de cenoura), acabei sendo também homenageado, eu um mero jaguané,  com direito a uma biografia que foi pronunciada pelo mestre de cerimônia no triplo do tempo dedicado ao principal homenageado. O pior é que a gente tem que subir nos palcos e fazer cara de horizonte, enquanto despejam aquele montão de falsidades sobre você. Nessas horas,  que, graças ao bom deus dos assessores não tem acontecido com frequência, assumo um ar grave e concordo com tudo, maneando a cabeça afirmativamente. Mas é uma experiência duramente constrangedora.

Há coisas piores, como a que se tornou uma cruel homenagem feita pelo piloto que despejou a primeira bomba atômica sobre o Japão. O sujeito, certo de que estava fazendo a coisa apropriada, batizou de Enola Gay, nome de sua mãe, o quadrimotor B-29 que destruiu Hiroshima em agosto de 1945 e matou milhares de pessoas. 
Não teve a mesma dimensão dramática, mas não deixou de ser uma crueldade o que fizeram com Paulo Roberto Falcão, anos atrás, quando indicaram o craque para receber o título de Cidadão de Porto Alegre e a proposta foi vetada, por maioria, na Câmara de Vereadores. Ou seja, o coitado do Falcão não pediu para ser homenageado e ainda passou pelo vexame de ter seu nome rejeitado, por razões que já nem interessam mais, na cidade que o consagrou para o futebol.

Essa é a questão crucial que envolve as homenagens e que Mário Quintana expressou  como só ele saberia fazer. Se os homenageados pudessem antever o futuro e o que aconteceria com os espaços e situações dos tributos que lhe seriam prestados, mesmo os mais bem-intencionados, ficaria mais fácil de lidar com a questão.
Mas sabemos que não é assim.  Por exemplo, não terei como impedir que  a Travessa Flávio Dutra ou algo do gênero , que algum baba-ovo vai querer batizar quando eu partir para outra dimensão, passe a figurar nas páginas do Diário Gaúcho. Já estou até vendo as manchetes e títulos: “Traficantes tomam conta do Beco Flávio Dutra”,  ou “Prostituição infesta praça Flávio Dutra”, ou ainda “Ruela Flávio Dutra virou foco de lixo”,  ou a pior  - “Ninguém aguenta o mau cheiro da Flávio Dutra”.  Vou me remexer na cova.  O que me conforta é que ainda vai demorar muito até eu virar placa!