quinta-feira, 7 de junho de 2012

Lobos nunca dormem - final

Recomenda-se ler a primeira parte, publicada dia 2/junho

Mais intelectualizado, V, professor universitário, investe fortemente na área de cursos, seminários e palestras, desde que os temas tratados possam atrair vítimas potenciais. É capaz de sacrificar o fim de semana em cursos de extensão só para alargar o horizonte de seus conhecimentos e seu currículo com o conquistador. No primeiro dia de aula escolhe a vítima e no último ela está dominada. E não tem qualquer restrição às temáticas de auto-ajuda. Raciocina, com boa lógica, que as mulheres interessadas neste assunto estão carentes de apoio, de um ombro amigo e ali está ele para suprir essa necessidade.

Curso do Lair Ribeiro, seminário com Roberto Shinyashiki, palestra do professor Marins, contam sempre com a presença do nosso amigo. Durante a exposição do palestrante, ele mostra grande interesse, anota frases e conceitos que considera importantes e serão seus argumentos depois, enquanto seus olhos, não de lobo, mas de águia, varrem o ambiente a procura das suas vítimas. Não demora muito e encontra a mulher ideal: é aquela desacompanhada que mantém os olhos vidrados no conferencista e aprova, com leves maneios de cabeça, tudo o que é dito. Uma mulher receptiva. No final, dá um jeito de encontrar a mulher visada e, com a maior naturalidade, propõe a conversa:

- Que conteúdos! Que clareza! Não achastes? Eu gostaria tanto de aprofundar essas idéias com outras pessoas...

Daí em diante o ritual não varia: trocam cartões e telefonemas, compartilham cafés no fim da tarde e jantares noite adentro, e logo estão compartilhando também a mesma cama, embora ele faça questão de dizer que o sexo é apenas uma etapa para chegarem a um entendimento superior sobre a condição humana nestes conturbados tempos pós-modernos.

O “Lobo Eleitoral”, J, é um capítulo à parte. Sempre atento ao calendário eleitoral, ele entra em êxtase neste período e se torna freqüentador assíduo de passeatas, bandeiraços, comícios, inaugurações de comitês, enfim, de qualquer ato público que possa reunir militantes femininas. É metódico e trata desde cedo de armazenar bandeiras, adesivos, bandanas, bottons de todas as candidaturas, até porque seu lema é “respeito à pluralidade ideológica e prazer para todas”. O “Lobo Eleitoral” tem uma preferência toda especial pelos comícios, o que tem sua lógica. O espaço é delimitado, é mais fácil cercar as futuras presas e o tom dos discursos, carregado de emocionalismo, é o mote que ele usa para a primeira investida. Funciona assim: ele chega cedo ao local, agitando a bandeira da candidatura e se posiciona onde constata a maior concentração feminina. Durante o comício, canta animadamente todos os jingles e é o primeiro a puxar o coro compassado com o nome do candidato. Aquela animação toda contagia as circunstantes e logo ele está interagindo com a militância.

- Sabe, guria, me emocionei com o discurso do nosso candidato. Presta atenção no que eu vou te dizer: assim não tem prá ninguém.

Não há como resistir a tanta devoção, tanto ardor cívico, tanto comprometimento com a causa, tanta certeza na vitória, e logo ele passa para a etapa seguinte:

- Puxa, acho que essa demonstração de cidadania merece uma comemoração. Vamos tomar uma cerveja ali no Mercado?

Depois, é só questão de incrementar a conversa, oscilando à direita e à esquerda, dependendo do matiz ideológico da vítima, ora ressaltando as virtudes do neoliberalismo, ora espinafrando o capitalismo selvagem, ora insinuando ligações com o pessoal da luta armada, ora condenando os “baderneiros dos movimentos sociais”. Por fim, o arremate:

- Na verdade, sou mesmo um liberal, no sentido da liberdade das pessoas, entende? Liberdade para tudo, compreende? Tenho o maior respeito por essa questão da liberalidade, da liberdade, as pessoas poderem fazer sexo com quem quiser, entende? A propósito, conheço um lugar...

O ato cívico-sexual vai se dar no seu apartamento, previamente ornamentado com motivos da coligação que está prestigiando na ocasião. Esse lobo nunca perdeu uma disputa eleitoral.

Especialistas que estudam o comportamento da espécie anotam a existência de outros tipos bizarros, alguns inclusive com slogans marketeiros. Exemplo é o “Lobo da Carris”, que atua nas alongadas linhas T e que garante: “Comigo não tem viagem perdida”. Registra-se ainda o “Lobo dos Estádios” (“antes do apito final, uma grande conquista”, vangloria-se), que não perde jogo nem no Passo da Areia e tem predileção pelas moças das torcidas organizadas; o “Lobo Bancário”, que ataca nas filas dos caixas e promete “crédito amoroso sem limites para todas”, o “Lobo das Manifestações”, uma variação do “Lobo Eleitoral”, auto-intitulado “Ativista do Amor” e que não renega nem caminhada do MST. Por fim, o mais bizarro de todos, o “Lobo de Velórios”, que se anuncia às enlutadas como ‘um conforto no momento da dor”. É muita cara de pau. Acreditem, eles existem e estão por toda a parte.

*Publicado originalmente em Coletiva.net