sábado, 14 de abril de 2012

Cláudio Cabral, grande figura


Cláudio Cabral não era o principal comentarista da praça.  Na real, tinha tudo para não vingar na função:  era monotemático nas suas análises, porque defendia sempre os mesmos pontos de vista;  a voz anasalada e sem a imposição dos concorrentes clássicos era outro atrapalho na sua carreira; e, pecado capital no grenalizado e esquizofrênico futebol gaúcho:  não escondia sua preferência clubística e nem poderia, eis que participou de uma corrente que fez história no Internacional, conhecida como Os Mandarins – a  vinculação histórica,aliás, nunca impediu que fosse um algoz do seu clube de coração, quando apontava os erros das direções ou os equívocos dos técnicos.  
Mesmo assim, Cabral é saudado como “O Mestre”, tanto pelos mais antigos como pelas novas gerações e  os aspirantes da chamada crônica esportiva.  É que essa figuraça conhecia futebol como poucos, o que lhe garantia respeitabilidade e seguidores fiéis, além de esbanjar carisma, o que o tornava singular entre os que tinham o privilégio de privar com ele.

Monarquista convicto – “mas da monarquia parlamentarista”, fazia questão de esclarecer -, viciado em palavras cruzadas, santamente devasso, exibia gostos sofisticados que os modestos salários nem sempre sustentavam e, acima de tudo, era um parceirão no trabalho e fora dele.  
Cabral não talvez não tenha avaliado, mas bebi na sua sabedoria muitas vezes, embora também tenha  sido vitima constante de suas frases cruéis, definitivas, mas sempre verdadeiras: “Flávio Dutra, tu és um vidrinho de vaselina, sem o vidrinho...”. Eu magoava, mas era obrigado a reconhecer que ele tinha razão.  Podia ser pior, porque para determinada gestão colorada, reservou uma variação menos nobre sobre  o recipiente e seu conteúdo: “Essa direção é um balde de bosta...sem o balde”.

O frasista talentoso é provavelmente o traço mais marcante do nosso Cabral para aqueles que conviveram diretamente com ele no dia-a-dia.  Seus companheiros na Band e de outras parcerias lembram algumas das suas sentenças mordazes. O perna de pau era seu alvo preferido: “Jogador ruim não pode ficar nem no banco porque senão acaba jogando”; “Jogador ruim nunca se machuca”; “Se a bola tivesse vontade própria ia a delegacia e denunciava o Edinho por maus tratos”;  “Olha aqui, pega uma múmia, tira as faixas e ela vai jogar mais que o Celso”; “O Rooney é o Badico que fala inglês. Desculpa, Badico pela comparação”; “Gabiru foi a maior ironia do destino”; “Não leva nota, não entrou em campo”.
Não poupava os treinadores: “Treinador bem pago é treinador ruim, que recebe de dois ou três times ao mesmo tempo”;  “O Parreira é um camarada que daqui a pouco fez um cursinho de inglês e virou referência de treinador”;  “Fulano é Vigário José Inácio”, associando a rua central da cidade com a vigarice, que devia ser entendida como enganação.  Mas tinha outra forma de discordar das opiniões ou informações alheias e, neste caso, as maiores vítimas eram os repórteres: “Baldasso, tu não vais me passar esse cachorro”.

Era  exigente, irreverente, radical, exagerado:  “Sou do tempo em que o Inter ganhava de 3 x 0 no Beira-Rio e era vaiado”. “Sem a bola eu e o Pelé somos a mesma coisa”; ” Pior que vencer o Gauchão é perdê-lo”; “Fulano consome a energia de uma usina para acender uma lâmpada”. Falava e assinava embaixo.
Por tudo isso, acho que a grande perda de Cláudio Cabral, que nos deixou neste sábado chuvoso, não foi para o futebol ou para a radiofonia, mas para a convivência humana. Pena que eu tenha convivido tão pouco com ele.