domingo, 28 de fevereiro de 2010

Assunto escabroso - III

Estou cada vez mais impressionado com a repercussão da reportagem "De Olho na Infidelidade", publicada domingo passado na ZH. Já sabia que o tema da infidelidade era sensível, mas não imaginava quanto, até ser surpreendido com a crônica deste domingo de Moacyr Scliar - dr. Scliar - no mesmo caderno Donna da ZH. O nosso bom Scliar, a partir de um dos relatos da reportagem, trata o assunto com a devida seriedade e nem poderia ser diferente em se tratando de um imortal e médico. Confira aí:

"O amante da boneca"

Domingo passado, o Donna trouxe uma matéria surpreendente e reveladora sobre a investigação da infidelidade. Entre os casos relatados havia um particularmente interessante, a história de um homem que, toda quinta-feira, e depois do culto a que assistia, ia a um motel. A esposa suspeitou de traição, contratou uma agência de detetives que por sua vez avisou a polícia à época adultério era crime, e o flagrante se justificava. Junto com a esposa, invadiram o quarto e de fato lá estava o homem, na cama. Não com outra mulher, mas com uma boneca inflável, que ele apresentou como Frida. Imaginem a surpresa do pessoal.

Lendo essa notícia, lembrei-me de um fantástico filme espanhol que vejam a coincidência foi há pouco exibido em Brasília, num festival de filmes clássicos realizado no Instituto Cervantes. E de clássico se trata, mesmo. Estamos falando de Tamanho Natural, dirigido pelo grande Luis Garcia Berlanga. Conta a história de um maduro dentista chamado Michel, que tem tudo para ser feliz: boa clínica, uma esposa dedicada, uma amante jovem e apaixonada. Um dia, porém, e sem razão aparente, resolve comprar uma boneca inflável. A partir daí se desenrola uma alucinante narrativa. Michel se apaixona pela boneca, a esposa desconfia, ele acaba por revelar a verdade. Na tentativa de reconquistá-lo, ela se disfarça de boneca, porém, diz-lhe Michel com desprezo, não chega aos pés da verdadeira. O porteiro do prédio também se apaixona pela boneca e traio dentista, que, graças a uma câmera oculta, descobre o que está acontecendo e castiga violentamente... a boneca. O culto a esta se dissemina; a boneca torna-se uma espécie de deusa, venerada por centenas de devotos. Na cena final, o dentista foge com ela de carro e decide se suicidar, arremessando o veículo nas águas de um rio. Ele morre, de fato, mas passados alguns minutos quem emerge, flutuando? A boneca, claro.

Esta fixação tem um nome: é a parafilia, o que em grego quer dizer algo como “paixão paralela” e é, convenhamos, mais apropriado do que o desagradável “perversão”. Trata-se de coisa antiga. O poeta romano Ovídio conta-nos de um escultor chamado Pigmalião que cria uma estátua de marfim, Galateia, tão bela que ele acaba se apaixonando, transformando-a na mulher de sua vida. A história inspirou a Bernard Shaw a peça Pigmaleão, que por sua vez gerou o belíssimo musical My Fair Lady. Num plano menos artístico sabe-se que há séculos marinheiros costumavam levar bonecas para satisfazer suas necessidades em longas viagens: a dama de viaje dos espanhóis, a “Seemannsbraut” dos alemães. Mas só com o plástico e com a industrialização surgiram as bonecas realmente sensuais, capazes de, por suas características, despertar o desejo de solitários. No caso da boneca do filme, os diretores da revista Playboy, que iria financiar a produção, exigiram que tivesse seios enormes, bem ao gosto dos americanos. Berlanga fez o que pediam; o dinheiro não veio, mas aí já era tarde para diminuir o busto.

A boneca corresponde, é óbvio, a uma fantasia comum a certos homens: a da mulher submissa, que não fala, não se queixa, está sempre disponível. No caso de Tamanho Natural, porém, a mensagem ia além disso. O filme foi produzido na Espanha em meados dos anos 70. Era a época do regime franquista, cuja censura, aliás, proibiu a película durante quatro anos. Foi um período ditatorial, de intensa repressão política e moral; e repressão, como sabemos, acaba resultando em manifestações doentias, quando não violentas. Mais que isso, a indústria da pornografia chegava a seu auge, com sex shops surgindo em todas as grandes cidades do mundo. Os estranhos objetos ali vendidos permitem parafrasear Pascal: o sexo tem razões que a razão desconhece. Mas que algumas bonecas conhecem muito bem.