domingo, 18 de janeiro de 2015

Não sou Marco Archer

Uma pesquisa feita agora não apenas aprovaria a execução do traficante brasileiro na Indonésia, mas também diria "sim" à pena de morte no Brasil. Fiz esta postagem no Facebook e o resultado foram dezenas de curtições, não sei se contra ou a favor da execução e da pena de morte, se bem que os comentários mostraram-se majoritariamente favoráveis à punição. O mesmo comportamento pode ser constatado nas postagens em outros perfis.

No noticiário dos principais portais a constatação é mais dramática: grosso modo, mais de 90% dos comentários torciam pela execução do brasileiro, mesmo em terras distantes.  Não só torciam, mas em alguns casos integrariam o pelotão de fuzilamento, se isso fosse possível, tudo na base do “mata e arrebenta”. Tal nível de rejeição, beirando o ódio, afronta nossa tão decantada matriz de gente cordial e generosa, da qual falava Sergio Buarque de Holanda.  

Acabou sobrando para a presidente Dilma, que apenas cumpriu seu papel de estadista e buscou interceder pela vida do condenado. Um gesto inútil e desgastante, mas necessário, mesmo para uma governante já fragilizada. Como bom brasileiro, o assessor para assuntos internacionais da presidência, o gaúcho Marco Aurélio Garcia admitiu que esperaria até a última hora por  um jeitinho que livrasse o brazuca traficante. Acredito mesmo que a posição da presidente só aumentou a adesão à decisão da Indonésia, até pelo fato de ser um país que leva a sério o cumprimento das suas leis.

A pergunta que não quer calar é: por que tanta intolerância diante de um condenado à morte? Marco Archer Moreira - este é o nome -, até tem jeito daquele tio amigo ou do vizinho boa praça, preso ha  ais de dez aos e confessadamente arrependido, estaria a merecer clemência dos indonésios e um mínimo de nossa solidariedade. Mas que observamos é um clamor pela execução. O caso não está fora do contexto do complicado momento que vivemos, de comoção provocada pelos episódios de Paris, aos quais se associam as denuncias de corrupção por aqui e o massacrante cotidiano de violência e insegurança geradas pelo tráfico de drogas. Estaria eu a misturar alhos com bugalhos? Pode ser, mas estou convencido que a banda boa da população, na verdade, não tem ânsia punitiva, mas sede de justiça. Não é um sim à intolerância, mas um não à impunidade.


Particularmente, não concordo com a pena de morte, nem mesmo para traficantes, mas não sou Marco Moreira, assim como não há o que justifique os massacres de Paris, nem mesmo uma charge grosseira e antirreligiosa, por isso sou Charlie Hebdo.