segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Olhar profundo na minha alma

Estava eu a fumar, algo distraído, na entrada da Galeria Pacífico na calle Florida, em Buenos Aires, quando fui interpelado por uma jovem alta e bonita. Antes que os maldosos comecem a fazer ilações indevidas, devo acrescentar que a moça logo perguntou qual o meu signo. Ainda impactado pela abordagem inesperada, custei a revelar que sou capricorniano da gema. Foi então que a porteña me alcançou um cartão, explicando que estava realizando um trabalho de arrecadação de fundos para os “descamisados” de Buenos Aires – “é igual aos favelados do Brasil”, acrescentou -, um reforço na argumentação para me arrancar alguns pesos ou talvez porque minha cara revelasse que não estava entendendo nada.

Saquei 10 pesos (cerca de R$ 4,00) e entreguei à moça que saiu bem faceira à procura de outros senhores distraídos. Foi então que me interessei em ler os textos do cartão e fiquei estarrecido. Ao descrever as virtudes e defeitos dos capricornianos, o conteúdo mergulhou fundo na minha alma, revelando nuanças e subterrâneos que nem os mais próximos suspeitam. A confrontação com o meu verdadeiro eu, estampado na pequena cartela, foi uma experiência perturbadora, ainda mais que sou um cético assumido em relação a tudo que cheire à crendice, o que, aliás, é próprio dos pragmáticos nativos de Capricórnio.

Num ímpeto, sai à procura da jovem para saber a origem dos cartões e também para adquirir de outros signos, mas ela já havia sumido no fim de tarde gelado de Buenos Aires. Só me restou ler e reler minha melhor virtude e meu pior defeito, entre outras revelações que, por modéstia de um lado e embaraço de outro, não vou socializar aqui. Se quiserem saber, se mandem para Buenos Aires e tentem achar a moça alta a bonita na calle Florida, entre Lavalle e Córdoba.

A propósito de Buenos Aires, a cidade continua charmosa e infestada de brasileiros. Os porteños são um tanto graves para o meu gosto, mas me sinto à vontade entre eles, especialmente quando estou à frente de um prato com aquelas carnes maravilhosas e um malbec de boa cepa. Meu nenê Mariana vive lá desde outubro do ano passado e se adaptou bem à cidade. Em dúvida, nossa delegação – a Santa, mais a Flávia, o Rodrigo e a irriquieta Maria Clara – recorria ao espanhol, com acento de Buenos Aires, da nossa embaixatriz.

No domingo ocorreu a disputa pelo segundo turno das eleições municipais entre o atual prefeito Maurício Macri e o candidato da presidente Cristina Kirchner, o senador Daniel Filmus. Macri venceu com facilidade, obtendo mais de 64% dos votos e se firmou com a principal referência da oposição na Argentina. Entretanto, o que me chamou a atenção, acostumado que estou às duras e agitadas disputas municipais em Porto Alegre, foi a discreta campanha em Buenos Aires. Não fossem os cartazes nas ruas e inserções de péssima qualidade nos canais de TV, a eleição passaria despercebida. Nada de comícios, nem passeantes, nem carreatas ou qualquer outro tipo de manifestação que lembrasse de perto uma campanha política. Alô marqueteiros políticos: a Argentina é logo ali e há um grande vazio a ser ocupado.