domingo, 25 de abril de 2010

DRR

Haviam brigado novamente e estavam sem se falar por duas semanas, o que já se tornara rotina. Os dois certamente já não lembravam o motivo da briga, sinal de que não era importante, mesmo assim evitavam a aproximação. Como sempre, também, foi ele quem tomou a iniciativa de quebrar o gelo, enviando uma mensagem por celular informando que estava esperando-a para o almoço num dos tantos restaurantes que freqüentavam. Para surpresa dele, ela ligou em seguida, se desculpando porque já tinha outro compromisso agendado e não poderia comparecer ao almoço naquele dia. Quem sabe amanhã? sugeriu. Ele concordou e marcaram hora e local.

No dia seguinte, ele era todo ansiedade. Já tinha enfrentado situações parecidas antes, mesmo assim o reencontro sempre tinha um gostinho de primeiro encontro. Tratou se chegar mais cedo ao local e ficou esperando que ela aparecesse para só então descer do carro e ir ao encontro dela.

O almoço funcionou como anticlímax. A conversa não fluiu e eles pareciam dois estranhos, sem nada em comum. Mesmo o bufê do restaurante, que tanto apreciavam, não estava a contento. Ela até perguntou o motivo do convite para o almoço e ele foi sincero ao dizer que estava com saudade. Mesmo assim ela continuou na retranca e marcou posição.

- Isso de ficarmos bons amigos não vai dar certo.

Ele saiu frustrado do encontro e ficou remoendo a frustração, mas não desistiu. No dia seguinte enviou a ela uma mensagem dando conta da sua frustração, da frieza dela, deixando claro que não se conformava com a situação. Ela respondeu dois ou três dias depois, propondo um novo encontro. Ele topou na hora e ficou esperando ela marcar data e local. Na mensagem seguinte ele informou que em breve mandaria instruções sobre o local da "DRR". DRR? “O que é isso?’, ele questionou. “Discutir o que restou da relação”, ela explicou. Pelo menos aquela relação mambembe tinha isso de bom: era um aprendizado constante.

A indicação do local da DRR deixou-o mais intrigado. Era o endereço de um edifício numa rua central que não fazia parte do repertório de locais que freqüentavam. O mistério foi desfeito quando se encontraram em frente ao edifício e ela explicou que estava procurando apartamento para alugar. Minutos antes, tinha passado numa imobiliária e recebera as chaves de um apartamento no dito edifício para inspecionar o local. Esperta a moça.

Subiram para o apartamento no terceiro andar e antes da DRR ela avaliou detidamente o apartamento, sem se entusiasmar. Pelo jeito, não era o que procurava. Então, sentou-se na bancada da cozinha e abriu os trabalhos:

- E ai?

Ele engatou um série de argumentos e queixas, cobrando algumas atitudes dela, de desatenção em relação a ele, enquanto fumava um cigarro atrás do outro. Ela deixou ele falar e, com muita tranqüilidade, tratou de se explicar, sem aprofundar os assuntos. A estratégia era eficiente porque ela não parecia estar na defensiva.

Entretanto, a medida em que a moça falava ele começou a ter devaneios e daqui a pouco não estava mais prestando atenção na conversa. Mecanicamente respondia a algumas questões, mas agora a imaginação estava solta e ele já avançava sobre ela para, como costumava fazer, levantar a blusa dela e beijá-la de alto a baixo. Ela reagiu positivamente à investida, como se estivesse esperando que ele agisse dessa maneira. Os suspiros dela confirmavam essa impressão e, ato contínuo, começaram a tirar a roupa, peça por peça, enquanto os amassos prosseguiam.

Logo os dois já estavam completamente despidos na cozinha do apartamento vazio. As condições para uma boa transa não eram as melhores, mas isso pouco importava diante da excitação dos dois. Da cozinha passaram a sala banhada pela luminosidade do meio dia. Deitaram sobre o duro piso de madeira, sem se importarem com as amplas janelas sem cortina que emolduravam os prédios vizinhos. O mundo lá fora não existia e nada iria detê-los a essa altura.

Ele se jogou com fúria sobre ela, que reagia com gritinhos e pedia “Mais, mais, eu quero mais”. Exercitaram manobras difíceis, mas altamente compensadoras pela excitação que proporcionavam. Logo chegaram ao clímax, com gramde espalhafato de parte dele, que costumava ficar febril quando o gozo era muito prazeroso. Ela foi mais recatada, mas havia um brilho de satisfação nos seus olhos. Ficaram então deitados, lado a lado, ainda sobre o chão duro, saciados e relaxando pouco a pouco.

- Que loucura!, ela interrompeu.

- Santa loucura, completou ele.



- Entendeu bem o que eu te falei?

Ele ainda ficou alguns segundos sem saber se a pergunta fazia parte da fantasia ou se já tinha despertado dos momentos mágicos vividos há pouco. Fixou o olhar nela e aí caiu a ficha: a realidade era cruel diante do sonho. Ela estava na frente dele, completamente vestida, com feições e gestos desafiadores, reclamando atenção. Talvez nem tenha percebido a ereção que restava da fantasia e se percebeu não fez questão de registrar.

- Sim, entendi tudo. Vamos embora?, resignou-se ele.

Não havia mais o que falar, desceram a rua e foi cada um para o seu lado. O encontro só não fora mais frustrante do que o do restaurante porque a fantasia trouxera um pouco de encanto ao embate no apartamento vazio.

À noite, em casa, à hora do banho, notou que, estranhamente, seus joelhos pareciam arranhados, como se tivessem sido expostos a uma fricção sobre uma dura superfície.