Presidência é destino e não projeto pessoal . Acreditava que a frase era de Ulisses Guimarães, mas ouvi recentemente de Aécio Neves. O que importa é que a tese contida na frase se confirma com a eleição de Dilma Roussef. Até ser ungida por Lula para concorrer a sua sucessão, apesar do nariz torcido de parte do PT, dona Dilma não havia disputado sequer uma eleição para síndica. A nova presidente era conhecida como uma gerentona, que ganhou fama de durona, exigente e por dar esporro nos subalternos que não andavam na linha.
Mas Dilma estava no lugar certo, na hora certa e tinha um padrinho de peso, que garantiu o aval partidário e a empurrou para a vitória, apesar do estilo tosco e da inexperiência eleitoral da candidata. Nesse processo, além de outros menos votados, foram caroneados José Dirceu, queimado pelo episódio do mensalão e Antonio Palocci, político experimentado e gestor reconhecido, mas sem força para e impor como candidato depois do escândalo que o defenestrou do ministério.
E Serra, que no cotejo de biografias está num patamar bem superior, passará a história como o melhor presidente que o Brasil não teve. Foi o destino interferindo no nosso futuro.
No passado não foi diferente, com resultados indesejáveis na maioria dos casos. João Goulart, por exemplo, assumiu a presidência com a renúncia de Jânio Quadros e deu no que deu: mais de duas décadas de ditadura.
Não tenho dúvidas que foi também o destino que conduziu o obscuro ex-governador de Alagoas à presidência, na primeira eleição após a redemocratização. Havia opções bem melhores naquela eleição: Brizola, Covas e mesmo Lula, mas foi para Collor, arrancando com 3% das intenções de votos, que os deuses eleitorais sorriram. O resto da história é conhecido. Sem base política e soterrado por denúncias de corrupção, Collor foi expurgado do Planalto. O destino levou, então, o vice Itamar Franco à presidência. Por linhas tortas, o destino acertou e Itamar legou-nos a estabilidade econômica que sustentou as duas eleições de FHC. Mas sabe quem Itamar preferia para sucedê-lo? Antonio Britto, que arrepiou e passou a bola para FHC, que estava no lugar certo, na hora certa, etc, etc. (Com o Plano Real, Itamar elegeria até um poste, que, convenhamos, não era o caso de FHC nem de Britto).
O caso mais emblemático é o da definição do vice de Tancredo Neves, ainda no período da escolha presidencial de forma indireta, pelo Colégio Eleitoral. Tancredo preferia o deputado gaúcho Nelson Marchezan, mas o escolhido foi José Sarney. É que Marchezan decidiu manter a coerência ideológica e a fidelidade partidária não aceitando a indicação. O destino se intrometeu novamente, Tancredo morreu antes de assumir e acabamos penando seis anos com Sarney.
O grande dilema de ficarmos na mão do destino é que destino pode ser sinônimo de fatalidade ou de fortuna. O histórico nos mostra que nos casos em que interferiu na sucessão presidencial o Brasil mais perdeu do que ganhou. É que destino não tem compromisso com o futuro. Tomara que o futuro nos desminta no caso da nova presidente. Oremos!
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segunda-feira, 1 de novembro de 2010
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Eleições, aborto e Tiririca
Engana-se quem imagina que a Igreja não tem a mesma influência nos processos eleitorais dos tempos da Liga Eleitoral Católica. É só observar o esforço da candidata Dilma para neutralizar o efeito devastador da sua posição dúbia em relação ao aborto e a outros valores cristãos, provocando a ira de todas as crenças, enquanto Serra busca se enquadrar no figurino de homem e político estilo família, de agrado a todas as religiões. E o que seria um mero detalhe na atual campanha eleitoral tornou-se o centro dos debates, pelo menos nesta arrancada do segundo turno.
O fato é que a eleição pode se decidir no detalhe, como ocorreu na disputa entre Jânio x FHC pela prefeitura de São Paulo. Perguntado se acreditava em deus, FHC vacilou, passou a idéia de que era ateu e isso contribuiu para sua derrota. Depois, o ex-presidente passou a visitar todas as igrejas que encontrava pela frente, até foi pedir a benção para o Papa e não perdeu mais eleições. Em uma das disputas para a prefeitura de Porto Alegre, um jornal tentou pegar Tarso Genro com o mesmo questionamento e o candidato, no melhor estilo Rolando Lero, saiu da cilada com essa preciosidade: “Considero generosa a idéia de Deus!” E mais não disse e não lhe foi perguntado.
O que mudou em relação à pressão dos grupos religiosos no passado e agora é que a Igreja Católica não está mais sozinha na sua pregação, pois ganhou o reforço das outras crenças, aí incluídos os conservadores evangélicos pentecostais que crescem em número de adeptos e em influência no Brasil. As bancadas evangélicas nos legislativos estão aí para comprovar essa ascensão religiosa.
Ao divulgar seu programa de governo, com propostas mais ousadas em termos de relações sociais, o PT ignorou sua própria origem, que teve nas comunidades eclesiais de base da Igreja Católica um de seus alicerces. Os igrejeiros do PT certamente não participaram da formulação do programa de governo, ou se participaram estavam distraídos.
Com exceções que justificam a regra, os partidos não avaliam como deviam a força que emana dos representantes religiosos. O sermão dominical dos padres católicos e a pregação inflamada dos pastores das outras religiões têm mais poder de convencimento e potencial de adesão do que qualquer comício ou programa televisivo. Os religiosos são formadores de opinião porque falam diretamente aos seus fiéis, que se encontram em condição emocional receptiva às mensagens das lideranças. O que os religiosos fazem é capitalizar, em nome de deus, o moralismo entranhado nas classes de menor poder aquisitivo e mesmo na classe média.
E mais: como as igrejas e seitas exercem uma presença diária junto aos seus rebanhos, especialmente nas comunidades mais pobres, suprindo em muitos casos a ausência governamental, tem credibilidade para cobrar adesões, a contrapartida em forma de votos ou rejeições à candidaturas. O desconhecimento e a indiferença a esse processo pode provocar estragos e ameaçar favoritismos, daí a extrema preocupação da candidatura oficial.
O que me incomoda no caso é que, num Brasil de imensas diversidades e carências, existem tantas outras questões a serem debatidas e o foco das campanhas ficou reduzido à inserção religiosa dos candidatos. Pior que isso, só votando no Tiririca, que entrou neste texto como Pilatos no Credo.
O fato é que a eleição pode se decidir no detalhe, como ocorreu na disputa entre Jânio x FHC pela prefeitura de São Paulo. Perguntado se acreditava em deus, FHC vacilou, passou a idéia de que era ateu e isso contribuiu para sua derrota. Depois, o ex-presidente passou a visitar todas as igrejas que encontrava pela frente, até foi pedir a benção para o Papa e não perdeu mais eleições. Em uma das disputas para a prefeitura de Porto Alegre, um jornal tentou pegar Tarso Genro com o mesmo questionamento e o candidato, no melhor estilo Rolando Lero, saiu da cilada com essa preciosidade: “Considero generosa a idéia de Deus!” E mais não disse e não lhe foi perguntado.
O que mudou em relação à pressão dos grupos religiosos no passado e agora é que a Igreja Católica não está mais sozinha na sua pregação, pois ganhou o reforço das outras crenças, aí incluídos os conservadores evangélicos pentecostais que crescem em número de adeptos e em influência no Brasil. As bancadas evangélicas nos legislativos estão aí para comprovar essa ascensão religiosa.
Ao divulgar seu programa de governo, com propostas mais ousadas em termos de relações sociais, o PT ignorou sua própria origem, que teve nas comunidades eclesiais de base da Igreja Católica um de seus alicerces. Os igrejeiros do PT certamente não participaram da formulação do programa de governo, ou se participaram estavam distraídos.
Com exceções que justificam a regra, os partidos não avaliam como deviam a força que emana dos representantes religiosos. O sermão dominical dos padres católicos e a pregação inflamada dos pastores das outras religiões têm mais poder de convencimento e potencial de adesão do que qualquer comício ou programa televisivo. Os religiosos são formadores de opinião porque falam diretamente aos seus fiéis, que se encontram em condição emocional receptiva às mensagens das lideranças. O que os religiosos fazem é capitalizar, em nome de deus, o moralismo entranhado nas classes de menor poder aquisitivo e mesmo na classe média.
E mais: como as igrejas e seitas exercem uma presença diária junto aos seus rebanhos, especialmente nas comunidades mais pobres, suprindo em muitos casos a ausência governamental, tem credibilidade para cobrar adesões, a contrapartida em forma de votos ou rejeições à candidaturas. O desconhecimento e a indiferença a esse processo pode provocar estragos e ameaçar favoritismos, daí a extrema preocupação da candidatura oficial.
O que me incomoda no caso é que, num Brasil de imensas diversidades e carências, existem tantas outras questões a serem debatidas e o foco das campanhas ficou reduzido à inserção religiosa dos candidatos. Pior que isso, só votando no Tiririca, que entrou neste texto como Pilatos no Credo.
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